Não, o título não está escrito errado, não é do menino-prodígio que iremos falar, falaremos do famoso arqueiro ladrão e também do famoso morcego justiceiro. O que estes dois ícones da cultura pop têm em comum? Veremos a seguir.
Começaremos contando uma curiosa história…
Há cerca de 800 anos, um Rei conhecido por rei João Sem-Terra, ou príncipe John (lembram dele?), arrochava seus súditos com impostos pesados. Uma das lendas mais famosas do local conta que, fartos de deixar seus ganhos com o soberano, os habitantes de um certo vilarejo pararam de pagar que levou sua majestade a marchar com seu exército em
direção à cidade. Apavorados com a possível retaliação, os moradores chegaram a um acordo para evitar o pior: se fingiriam de loucos.
Quando o rei chegou ao vilarejo, teria se deparado com cenas das mais esquisitas. Vacas foram colocadas no telhado das casas para pastar. Homens construíram uma cerca ao redor de uma árvore para aprisionar um relógio cuco, pois queriam ouvir seu canto para sempre. Pescadores se esforçavam para afogar uma enguia. O rei entendeu muito pouco de tudo aquilo e decidiu buscar uma explicação. Um de seus súditos abordou, então, um camponês, montado sobre seu cavalo, que carregava ele mesmo duas sacas de trigo nas costas. Indagado, respondeu que era para não cansar seu animal com o excesso de peso. Nada fazia sentido.
Naquela época, acreditava-se que a loucura fosse contagiosa. Com medo de ficar pirado também, o rei abandonou o local e desistiu das taxas. A partir daí, a cidade ficaria conhecida nas imediações como a “vila dos loucos”. Tempos depois, os menestreis de antanho cantariam em versos aquela história de heroísmo, quando simples camponeses passaram a perna no rei.
Tudo bem, mas o que o morcegão e o flechoso têm a ver com tudo isso? Bem, esse vilarejo se chama Gotham, isso mesmo, é a Gotham real e pertencente ao condado inglês de Nottingham, onde está a Floresta de Sherwood, local onde o lendário herói se escondia do Xerife de Nottingham e do Príncipe John.
Mas espera aí um pouquinho, e o que a Gotham dos quadrinhos têm a ver
com essa? Bom, é aí é que começamos a juntar as peças do quebra-cabeça. O escritor Washington Irving, após passar umas seis semanas hospedadas perto da cidade, deu o estranho apelido, sabe-se lá por que, de Gotham à sua cidade natal, Nova York, na revista literária Salmagundi, em 1807. O apelido pegou, e por todo lugar se via nomes de estabelecimentos com esta alcunha, tal qual naqueles interiores por onde a gente passa hoje em dia.
Foi quando um dos criadores de Batman, o americano Bill Finger (aquele passado para trás pelo Bob Kane), usou-o para ambientar suas histórias. A cidade do homem-morcego sempre tinha sido Nova York, mas Finger queria uma nova metrópole com a qual mais leitores pudessem se identificar. Para isso, cogitou nomes como Coast City (parece familiar?), Capital City e Civic City. Folheando uma lista telefônica, encontrou sua inspiração: uma joalheria chamada Gotham. E começou o mito da cidade mais violenta do mundo.
Por causa de um sujeito chamado Tim Burton, gerou-se o erro de que Gotham viria de “gótico”, devido a atmosfera criada para o fatídico filme dirigido por ele. Na verdade, Gotham significa “casa de bodes”, Got vem de goat (bode, em inglês). Tudo a ver, portanto, com uma vila camponesa. A Gotham fictícia, criada para ser o lar de Batman, também teve, sem querer, um toque medieval. O maior inimigo do herói, o personagem Coringa, chama-se originalmente Joker, que em inglês designa o bobo da corte. Esse tipo de profissional, durante a Idade Média, era a única pessoa que podia zombar do rei sem ter sua cabeça cortada — do mesmo jeito que fizeram os antigos habitantes da Gotham real.
Portanto Batman e Robin Hood, tem origem similar, são filhos da mesma cidade: Gotham City.
Curiosidades:
- A existência de tolos é comum à maioria dos países, e há muitos outros conhecidos centros imbecis na Inglaterra além de Gotham. Na Alemanha, existem os “Schildburger”, da cidade de “Schilda”, na Holanda, o povo de Kampen, na Boêmia, as pessoas de Kocourkov, na Moravia, as pessoas de Simperk. Entre os antigos gregos, Boeotia era a morada dos tolos, entre os Trácios, Abdera, entre os antigos Judeus, Nazaré, entre os antigos asiáticos, Phrygia. Então, “bobo” tem em todo lugar.
- As peripécias dos habitantes de Gotham foram narradas inúmeras vezes na tradição oral e em músicas folclóricas. Mais tarde, seriam organizadas em coletâneas escritas. Dois dos livros mais famosos sobre os episódios foram Towneley Mysteries (Mistérios de Towneley), publicado no século 15, e Merrie Tales of the Mad Men of Gotham (Contos dos Loucos de Gotham), do século 16, ambos de autores desconhecidos e sem tradução em português. Com a propagação da história, os moradores ficaram conhecidos como “os sábios de Gotham” ou “os loucos de Gotham”.
- “Os Sábios de Gotham” se reconhecem em uma antiga “cantiga de roda”:
Três sábios de Gotham
Foram numa vasilha ao mar
Se a vasilha fosse mais forte
Esta história iria continuar.
- Alguns dizem que é provável que o uniforme do Robin, parceiro do Batman, talvez tenha sido influenciado pelo Robin Hood (Errol Flynn) do cinema.
Fonte:
Por Cleson Haziel

direção à cidade. Apavorados com a possível retaliação, os moradores chegaram a um acordo para evitar o pior: se fingiriam de loucos.




