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A Pirâmide Engana-Trouxa

Você, incauto leitor, sabe o que é uma pirâmide? Não, não são aquelas magnificas construções que o E.T´s construíram muitos séculos atrás, estamos falando de Pirâmide Financeira!

A pirâmide financeira é um modelo comercial não sustentável criado por um desocupado que queria ganhar dinheiro fácil, caracterizado como fraude e muitas vezes mascarado sob o sistema de “marketing multinível”. O esquema envolve a troca de dinheiro pelo recrutamento de outras pessoas tolas (ou desesperadas) ou, por exemplo, por postagens diárias de anúncios publicitários da empresa na internet, sem qualquer produto ou serviço ser entregue. Algumas dessas pirâmides tentam ocultar o esquema, usando de muita criatividade, utilizando produtos inverossímeis, mas que enganam muitas pessoas inocentes.

Sim, acho que agora você já entendeu do que estamos falando, estamos falando daquelas pirâmides onde você paga uma taxa pra entrar e depois chama outras pessoas pra entrarem no esquema também; onde o dinheiro dos últimos que entraram no esquema é usado pra pagar aqueles que entraram primeiro, e também como embuste para o criador da falcatrua sair alardeando: “Olha só, o Fulano (que está lá no topo) já recebeu não sei quantos milhões só nessa semana. Tá esperando o quê pra entrar nessa você também?”. Nisso, mais uma vítima deixa de comprar algo útil para si mesmo, ou até mesmo vende algo seu, e acaba “investindo” nesses esquemas. Acontece que para alguns o dinheiro sai da carteira e não volta mais.

Conheçam o escroque que criou esse golpe: Charles Ponzi!

O italiano Carlo Ponzi (ou Charles Ponzi, nome que ele adotou quando saiu da Itália e foi para os Estados Unidos). Nascido em Lugo, em 3 de março de 1882, ele emigrou para os EUA em 1903. Passou uma época no Canadá, onde foi preso por falsificação de cheque, e depois voltou pros States com uma ideia na cabeça, adivinham qual?

Em 1919, ele abriu a companhia The Securities Exchange Company, prometendo taxas de retorno de 50% em 45 dias ou 100% em 90 dias através de selos internacionais (cartões-resposta). o golpe do sujeito começou com selos. Eles eram enviados para que os destinatários pudessem respondê-las sem custo. Os selos poderiam ser trocados por outros, comuns. Ele ficava com a diferença. Estávamos em 1919.

Mas isso não era o mais importante. Importante mesmo era a entrada de novos membros (e do dinheiro deles que entrava no esquema). Com esse dinheiro, Ponzi pagava aos investidores mais antigos os lucros prometidos (até 50% em um intervalo de 45 dias).

Ponzi convenceu amigos e parceiros do novo negócio a apoiarem o seu sistema no início, oferecendo aquele magnífico retorno de 50% num investimento a 45 dias. Algumas pessoas investiram e obtiveram o prometido no intervalo temporal combinado. O esquema alargou-se, e Ponzi contratou agentes, pagando generosas comissões por cada dólar que pudessem trazer. Em Fevereiro de 1920, Ponzi obteve cerca de 5000 dólares americanos, uma grande quantia nesse tempo. Em Março já tinha 30 mil dólares. A histeria coletiva cresceu e Ponzi começou a expandir-se para outras partes do país. Os que investiam obtinham grandes benefícios e estes motivavam outros a investir.

Já em maio de 1920 tinha conseguido recolher 420 mil dólares. Ponzi começou a depositar o seu dinheiro no Hanover Trust Bank of Boston (um pequeno banco ítalo-americano na rua Hanôver, a norte do bairro italiano), esperando que depois se pudesse converter no presidente do banco ou pudesse impor as suas decisões. Na realidade, até conseguiu controlar o banco ao comprar as suas ações.

Em julho de 1920, Charles Ponzi já tinha milhões de dólares. Muitos dos investidores venderam ou hipotecaram suas casas para participar do esquema. Em 26 de julho, o jornal Boston Post começou a questionar as práticas de Ponzi. Muitos investidores pediram o dinheiro de volta. Ele pagou. Conseguiu mais fôlego. Mas a situação foi ficando insustentável. O governo interveio e a casa caiu, já que a maior parte das pessoas não conseguiu os benefícios prometidos, e ele teve que devolver grande parte do dinheiro, o que causou um aumento considerável da sua popularidade, havendo muitos que lhe pediam para se candidatar a um cargo político público.

Graças ao seu esquema Ponzi, começou a viver uma vida cheia de luxos: comprou uma mansão com ar condicionado e um aquecedor para a sua piscina, e trouxe a sua mãe de Itália em primeira classe. Rapidamente este emigrante de baixos recursos obteve não só uma grande quantidade de dinheiro como se rodeou dos luxos mais extravagantes para a sua família e para si mesmo.

Em Agosto de 1920 os bancos e meios de comunicação declararam Ponzi em bancarrota. Este confessou que em 1908 tinha sido participante de uma fraude muito parecida no Canadá, que oferecia aos investidores grandes rendimentos. O governo federal dos Estados Unidos interveio finalmente descobrindo a megafraude, e Ponzi foi detido mas teve que ser liberto pois pagou a fiança. Decidiu continuar com o seu sistema, convencido que o poderia sustentar. Rapidamente o sistema caiu e os poupadores perderam o seu dinheiro. A maior parte das pessoas não obteve benefícios, e muitos dos quais reinvestiram o seu dinheiro na fraude. Ponzi, embora tenha sido enviado de volta para Itália e apesar de se descobrir a fraude, foi aclamado por muitos como um beneficente.

Mas adivinha só onde o desgraçado veio parar no fim da vida. No Brasil, claro. Veio para cá em 1941, como funcionário da antiga companhia de aviação Ala Littoria. Saiu da empresa, após ela fechar por causa da guerra, viveu seus últimos dias na pobreza. Doente e cego, pedia a um amigo para escrever para a ex-mulher, Rose, que tinha ficado nos Estados Unidos. Foi esse amigo quem avisou à Rose que Ponzi havia morrido, aos 67 anos, no dia 15 de janeiro de 1949  num hospital para indigentes.

E aí, essa história não te fez acender uma luz de alerta? Pois bem, além do Ponzi outros escroques também enganaram os inocentes e desesperados que querem ganhar grana fácil e rápido, conheça dois deles:

– A Dona Branca, lá nos idos de 1700, em Portugal. A velhinha foi uma espécie de banqueira boa samaritana, a agiota emprestava dinheiro a 10% de juros, enquanto os bancos cobravam 30% na época, acontece que ela usava o dinheiro dos clientes atual pra cobrir os juros do cliente seguinte, o dinheiro não era investido, ficava parado no colchão dela.  O esquema era piramidal, pois dependia do crescimento contínuo na base de clientes, se pessoas parassem de depositar, a Dona Branca não teria como honrar seus compromissos com os clientes mais novos. E foi o que aconteceu, mas durou três décadas;

bernard

– O investidor Bernard Madoff, quase um século depois de Ponzi, Madoff também prometia altos rendimentos aos seus investidores. Em vez dos selos de Ponzi, o ex-presidente da Nasdaq dizia aplicar emfundos igualmente fabulosos. Entre seus clientes, estavam, principalmente, membros e instituições da comunidade judaica, que, igualmente aos imigrantes italianos do início do século, confiaram o seu dinheiro a um dos membros de sua comunidade. Ele operou um sistema piramidal por décadas que movimentou mais de US$ 65 bilhões. Seus crimes iam desde a pirâmide financeira, inspirada no “esquema Ponzi”, até fraudes eletrônicas e lavagem de dinheiro. Seus crimes foram descobertos não por um jornal, mas sim por um cidadão chamado Harry Markpolos, o cabueta estranhou o esquema conseguir pagar rendimentos tão altos aos seus investidores. Após várias denuncias que não deram em nada e não foram provadas por Harry, os próprios filhos de Madoff o levaram à polícia, pois não aguentavam mais ver seu pai pagar bônus milionários a seus investidores e não ter nem um pão com mortadela em casa. Em junho de 2009, Madoff foi condenado a 150 anos de prisão em Nova York. Seu filho, Mark Madoff, de 46 anos, se suicidou em 2010, e seu irmão, Peter Madoff, foi condenado o ano passado a 10 anos de prisão por cumplicidade no esquema.

No próximo artigo explicaremos melhor como funciona esse engana-trouxa na sua versão mais moderna, e citaremos alguns exemplos que não são tão boms e frees assim…

E então, incauto e inocente leitor, você acha que a pirâmide financeira vai te ajudar a ficar rico? Ou será que ¿Isto Non Ecziste?

Fontes:
Infomoney
A Indústria da decepção

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.
  • Muito bom o texto. Aliás, essa coluna é o que há de melhor aqui no site. Queria ver mais textos nesse estilo por aqui. o/

  • Ribamar

    Parabéns pelo artigo. Toda vez que as taxas de juros atingem níveis % baixo, começam a surgir produtos financeiros milagrosos e sem proteção alguma ao investidor.
    São muitos golpistas espalhados pelo Brasil prometendo ‘lhe dar’ muito sucesso e retorno financeiro. Temos agora o consórcio de ouro. Vejam o endereço: http://www.consorciodeouro.com.br/