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V de Vingança?

Guy FawkesGuy Fawkes é uma presença dominante nos protestos que estão acontecendo no Brasil nesta conturbada “Primavera Brasileira”, sabia disso? Para aqueles revolucionários de Instagram e Facebook que usam a máscara dele, mas conhecida como a Máscara do V, mas não tem ideia de quem seja ele, aqui vai uma breve apresentação.

Guy Fawkes foi o herói da Conspiração da Pólvora, ocorrida na Inglaterra no começo dos anos 1600 e até hoje lembrada com paixão. Tudo começou quando a rainha Elizabeth I mandou eliminar Mary Stuart (a primeira na linha de sucessão de seu governo) simplesmente porque ela era católica. Com a morte da soberana, em 1603, Jaime I assumiu o posto e todos acreditaram que a situação dos não-anglicanos ia melhorar. Mas o rei, mesmo sendo bissexual e um governante extravagante, se mostrou um fraco e, acuado por puritanos, aumentou ainda mais a perseguição religiosa.

Os católicos logo o detestaram – não só por manter a perseguição como porque ele era escocês. Logo começou uma trama para matá-lo – e a todos os parlamentares. Os conspiradores compraram uma casa ao lado do Parlamento, em Westminster, e foram aos poucos, em completa discrição, enchendo de pólvora.

O líder da operação? Um soldado e aventureiro procurado por toda a Europa por causa de duelos, roubos e assassinatos políticos: ele mesmo, um sujeito chamado Guy Fawkes. A primeira reunião dos conspiradores ocorreu em 1604, na taverna Duck and Drake. O plano era simples: Fawkes cuidaria de colocar 36 barris de pólvora sob o Parlamento, enquanto parceiros fariam um levante no norte da ilha e sequestrariam a princesa, para convertê-la ao catolicismo. Mas havia um dedo-duro no bando, que ao tentar avisar um amigo do atentado, acabou vazando a informação e, na noite de 5 de novembro de 1605, data escolhida para o atentado, o serviço secreto inglês já sabia de tudo.

Ele foi levado à presença de Jaime, e nasceram aí algumas de suas frases memoráveis. O rei perguntou por que o objetivo era matar tanta gente – a família real, todos os parlamentares por aí vai? “Tempos desesperadores exigem medidas desesperadas”, respondeu Fawkes.

O rei fez outra pergunta: Para que tanta pólvora? “Era a maneira mais rápida de mandar todos os escoceses de volta à Escócia”, disse Fawkes.

Então, preso, torturado e condenado à morte, Guy Fawkes teve os testículos e o coração arrancados, e acabou decapitado e com o corpo não só esquartejado como exposto em praça pública para apodrecer e servir de alimento aos corvos. Simplesmente porque ele era católico na Inglaterra (país de maioria anglicana) e decidiu participar de um complô para explodir o Parlamento, matar o rei, sequestrar sua filha e liderar uma insurreição popular. Só por isso…

Exatamente um ano depois do ataque fracassado, centenas de fogueiras foram acesas nas ruas de Londres em protesto contra o rei. O dia 5 de novembro passou a ser comemorado na Inglaterra com uma queima de fogos. Aos poucos, a imagem de Fawkes de vilão foi se transformando na de um justiceiro, de um guerreiro heroico e libertário.

Nos anos 70, o anti-herói virou ídolo dos punks, que pichavam seu nome nos muros. E em 1982 o roteirista Alan Moore e o desenhista David Lloyd criam a graphic novel V for Vendetta, cujo herói – um vingador mascarado, vítima de experiências genéticas – luta contra um estado totalitário. Em 2006, no filme V de Vingança ele reaparece, reencarnado num homem que usa sua máscara e, para punir um Estado totalitário, faz o que Fawkes não conseguiu: explode o Parlamento.

Em V de Vingança, o contexto da história do herói anônimo e mascarado nada tem a ver com o nosso contexto histórico, político e social. V se ergue para lutar contra uma Ditadura, contra o Fascismo que tomou conta da Inglaterra quando um grupo de Direita se aproveitou da comoção popular nascida de uma guerra nuclear ou de uma epidemia virótica espalhada por esse mesmo grupo para se assentar no poder. Uma tirania onde não há partidos, bem diferente de nós, que vivemos num país democrata, o qual os direitos civis e as liberdades individuais e de livre pensamento são respeitadas. Ou seja, nada mesmo a ver com o filme, ou HQ. Mas… pensando bem, talvez tenha muito a ver com o V original, o Guy Fawkes.

A máscara de Fawkes aparece, hoje, em manifestações de protesto mundo afora, incluídos os do Movimento Passe Livre. É também utilizada pelos hackers do grupo Anonymous, junto com este lema: “Nós não esquecemos, nós não perdoamos”.

Então, companheiros de luta cibernética, da próxima vez que você for usar um avatar ou vir por aí aquele rosto misterioso com bigodes e um sorriso sutilmente sarcástico, lembre-se que por trás dele não existe apenas a inspiração vinda de um filme de ficção… Por trás dela há história, há ideias, há conceitos, e, sobretudo, pensamentos sobre liberdade e justiça. O V, e o próprio Fawkes, são personagens que inspiram lutas contra a opressão dos reis da Inglaterra que se espalham pelo mundo em todas as épocas… e parece que chegou a nossa vez, vamos explodir um parlamento? Ou será que ¿Isto Non Ecziste?

 

Fonte:
http://www.blognerdegeek.com/2012/09/a-histos-anonymous-guy-fawkes.html
http://ahduvido.com.br/guy-fawkes-conspiracao-da-polvora-v-de-vinganca-e-anonymous

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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  • Ribamar

    Muito bom! Tinha lido sobre ele num site jornalístico, mas não com a riqueza histórica que voce fez. Parabéns Cleson!

  • Excelente artigo. Compartilhado. Não conhecia a história por trás da máscara. Valeu, chefia!