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Entrevista | Alec Silva

Olá meus amigos leitores, sentiram falta da nossa coluna de entrevistas? Eu sinto muito o hiato gigantesco, mas estamos de volta, trazendo um autor mais polêmico do que mamilos no Facebook, mais treteiro que o tiozinho que apita jogo de futebol. O autor de A Guerra dos Criativos, recebam ele: Alec Silva. (Leiam o nome com imaginando Galvão Bueno narrando um gol).

PD – Você tem a fama de encrenqueiro com as editoras, como conseguiu isso?

AS – Em 2012, no Twitter, estava rolando uma discussão sobre literatura homoafetiva com toques de fantasia; apesar dos 140 caracteres, era um debate bem produtivo e caloroso entre algumas autoras e eu; entre os pontos levantados, elas garantiram que havia preconceito dos leitores de literatura fantástica para com a literatura queer (homoafetiva) e vice-versa, e as editoras brasileiras não investiriam num autor desconhecido que apresentasse tal proposta. Eu, por minha vez, afirmei que não havia editoras de verdade no Brasil, daquelas que acreditam no potencial de uma obra sem que o escritor tenha, antes de tudo, renome; pode ser a melhor e mais fascinante ideia possível, mas sem ter um “nome consolidado”, morre na praia. Com isso, algumas editoras de nicho se doeram e me criticaram, apontando números e usando uma carapuça que nem era para elas; houve boicotes e precisei redefinir meu rumo.

PD – Como você enxerga o mercado atual para o autor independente?

AS – Uma espada de dois gumes bem afiados; se o espadachim souber manejar, vai colher bons frutos; se não, vai se cortar muito. Conheço autores dos dois casos. O mercado está bom, sobretudo após as quedas e falências de algumas pequenas e médias editoras, o que deixou muitos autores órfãos de casas publicadoras; com qualidade é possível, sim, ter destaque do mar de e-books e impressos em pequenas tiragens que surgem todos os dias. Se a obra (e o autor, consequentemente) se destacar bastante, uma editora grande vai se interessar.

PD – Você mudaria seu modo de ser pra tentar uma vaga em uma editora tradicional?

AS – Parafraseando uma citação de Batman Begins, o que eu faço me define mais do que eu sou; portanto, mudar uma ideologia na qual acredito, um pensamento que me move ou renegar minha crença pensando em tentar uma vaga numa editora seria trair aquilo que me define. Eu perco muito sendo como sou, mas ganho coisas verdadeiras também (talvez menos do que eu gostaria).

PD -Qual a maior perda que teve referente a isso?

AS – 99% de chance de entrar no mercado de maneira menos trabalhosa; e amigos, muitos amigos.

PD – Afora o livro “A Guerra Dos Criativos”, já resenhado pelo Papiro, você tem outros livros no mesmo universo, conte como tudo começou.

AS – Bem, o Lordeverso (nome sugerido por um amigo, aliás) consiste numa mitologia que bebe do platonismo, esoterismo, mitologias e religiões, passando pelo horror cósmico de Lovecraft; é um imenso e complexo jogo de poderes e interesses, envolvendo entidades, criaturas e sonhos, transitando entre a fantasia e a ficção científica. Logo, os livros são numerosos, tendo como ponto de partida A Guerra dos Criativos, que teve o incentivo de amigos e leitores, pessoas que amaram o mundo metafisico que criei sem qualquer compromisso. E não para de surgir histórias para engrossar e revelar essa mitologia tão divertida e provocativa.

PD – Zarak é um personagens indizivelmente carismático, tanto que ganhou o próprio livro, como foi o processo de criação do monstrinho?
AS –
Zarak nasceu muito antes de eu escrever um conto completo, numa atividade escolar, conforme apresento nos livros; a primeira versão é bem genérica, sendo copiada por quase todos os meus colegas da época. Foi apenas com Zarak, o Monstrinho, uma noveleta, anos depois, que ele ganhou a versão pela qual é conhecida; e ganhou uma novela natalina, O Natal de Zarak, e tem papel crucial nos eventos de A Guerra dos Criativos, além de deixar um legado para a série Mundos em Conflito.

PD – E falando em Mundos Em Conflito, você já lançou o primeiro volume da série, Colisão. Pra quando planeja os próximos?

AS – Colisão saiu virtual ano passado; este ano deve rolar uma tiragem pequena do impresso. Danação, a sequência, deve sair no segundo semestre do ano que vem; os demais virão com o tempo, pois é uma série muito complexa e que depende muito de fatores externos e a evolução do Lordeverso.

PD – Você é comprovadamente depressivo, até que ponto isso atrapalha em sua criatividade?

AS – “Se hoje sou estrela, amanhã já se apagou”, já resumiu Raulzito. Este sou eu: posso hoje escrever milhares de palavras, mas passar um mês sem escrever uma sequer; a imaginação, contudo, continua a mil, moldando histórias. E minhas emoções pesam muito no tom que a história terá, guia para ações e decisões de personagens, reviravoltas e determinadas passagens do enredo. Já escrevi, certa vez, um romance com quase 200 mil palavras em crise depressiva.

PD -Como você enfrenta essas fases?

AS – Eu nunca enfrento; apenas deixo passar, leve o tempo que for.

PD – Pelos motivos que já vimos acima você começou, junto com amigos, o selo EX! Grupo Artístico e Editora, conte como foi o processo.

AS – A ideia, em si, da EX! é reunir amigos; não criei o selo para servir de gráfica, como muitas editoras por aí e tampouco tomar o suado dinheiro de ninguém; tanto que o catálogo é basicamente e-books e projetos em parceria. Nossos livros físicos são de autores da cidade em que moro, mas planejamos ampliar para outros lugares, conforme formos crescendo, mas isso envolve tempo, recursos financeiros e muita paciência.

PD – Quais os próximos planos de Alec Silva para a carreira literária e para a recente editora?

AS – Em maio, sai uma coletânea de contos, poesia, crônicas, desenhos e fotografia que organizei; é um projeto muito bacana, que vai revelar autores de várias idades e mostrar que uma pequena cidade baiana tem grande potencia literário, além de quebrar alguns paradigmas locais. Em junho, lanço O Cubo das Eras, novela de fantasia científica que se aprofunda um pouco mais no Lordeverso e brinca um pouco com fé, ciência, realidades alternativas, mundos paralelos e viagens no tempo. Após isso, a editora tem um cronograma de eventos e lançamentos, com livros dos talentos apresentados na coletânea, tanto para o segundo semestre deste ano como para o primeiro do seguinte.

PD – Apesar de todas as críticas negativas quanto à sua personalidade, seus livros recebem um bom retorno dos leitores. A que você atribui isso?

AS – Não faço promessas ao leitor nem o obrigo a ler; apesar de eu trabalhar uma cronologia de eventos, indo e vindo constantemente, cada livro ou série se sustenta por si; e nunca prometo ao leitor “a melhor história” ou “o melhor livro de tal gênero”. E sou bastante aberto para críticas e sugestões, apesar de ser impaciente e distante muitas vezes; uma crítica negativa só me faz melhorar os pontos falhos, assim como uma positiva me anima a seguir o caminho. Ou pode ser o apelo que as aventuras que eu conto trazem: embora não siga fórmulas prontas, minha literatura é entretenimento e apelo ao inconsciente coletivo e simbologia universal, filosofia e psicologia, trazendo personagens verossímeis, ainda que sendo deuses, guerreiros poderosos e afins. Ou pode ser apenas sorte mesmo.

PD – Dentre todas as rixas, temos uma em particular, com um autor que terá seu nome preservado nessa entrevista. Esse mesmo se referiu aos independentes como corja, algo como trolls em busca de um momento de holofote. O que você pensa dessas declarações?

AS – Um historiador certa vez disse que quem esquece o passado está fadado a repeti-lo. O autor em questão zomba de quem está começando, mas se esquece de como começou e de quem o levou até onde está. É como outro escritor que “cuspiu” nos leitores que o ajudaram num financiamento coletivo assim que ultrapassou a meta. Tudo o que eu posso dizer é que faço melhor do que ele, tanto em ideias quanto em escrita; e quem leu algo meu sabe disso. E conheço colegas escritores que escrevem muito melhor do que. Somos todos aquilo que ele definiu como “corja”.

PD -Um recado para esse autor e outro para quem está começando.

AS – Ele não é um deus. [risada]

Para quem está começando: não desista; procure sempre melhorar; e jamais aceite um elogio como algo definitivo.

PD -E que mensagem gostaria de deixar para os nossos leitores?

AS – Primeiro, agradecer ao Papiro Digital pela resenha de meu estimado livro, A Guerra dos Criativos, e pelo convite para a entrevista. E pedir ao leitor para garimpar nossa literatura, seja qual for o gênero, pois tem muita coisa boa; claro que as ruins vão ser encontradas primeiro, mas tem coisa boa, sim, de qualidade maior do que os best-sellers; é um discurso clichê, contudo verdadeiro.

Sobre Baltazar de Andrade

Baltazar de Andrade nasceu com outro nome, mas acha Baltazar muito mais bonito. Criado nas imediações de Curitiba, cresceu rodeado pela coleção de livros do pai. Metamorfose - O Inimigo Nas Sombras é seu primeiro livro. Atualmente vive com a esposa e a filha, além de sua própria coleção de livros de estimação e uma gata muito manhosa. Paralelamente a série "Rastro Psíquico" está escrevendo o livro O Vidente de Aparelho Quebrado. Amante inveterado da literatura nacional e criador relapso de idéias fugitivas.

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  • Samuel DE Castro Santana Carde

    Esse entrevistador adora uma treta, deu pra perceber.

  • Julielton Souza

    Nossa agora após ler a entrevista, meio que me arrependi do comentário na resenha do livro, o critiquei mesmo sem conhecer, apenas pelo fato de ser independente, julgo a critica usando as palavras do autor entrevistado, os ruins surgem primeiro, foi o que me aconteceu, até o momento nenhum autor independente me foi colocado como bom, os que li foram tempo perdido.
    Talvez a massa de editoras populares com seus livros importados e traduzidos seja um fator a se considerar, nessa massificação do pensamento negativo em relação aos independentes, porém, acredito que vai de cada leitor estar apto e receptivo a algo novo ou não.
    Creio que eu não fui muito receptivo, e pretendo melhorar isso, quem sabe lendo algo do Alec. Por fim, parabenizo o blog pela excelente entrevista, e parabenizo infinitamente o autor por se desprender das diretrizes normativas do mundo editorial brasileiro, com certeza é alguém que merece destaque e compreensão.

    • Valeu, mano! 🙂
      Espero que consiga encontrar livro(s) independente(s) que te agrade(m), pois sei que tem um(uns) só esperando ser(em) encontrado(s) por leitores ávidos por uma boa história.
      😉