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Entrevista: André Caliman

André Caliman é Escritor e Desenhista de Histórias em Quadrinhos, além de Ilustrador, Caricaturista e Professor. Foi um dos criadores da Revista Quadrinhópole, também da revista Avenida. Publicou, entre outros trabalhos, as HQ’s Rua e Fire. Atualmente publica sua HQ Revolta!, através do seu blog, em envelopes e pelas paredes da cidade.

PD – Hoje vamos falar sobre sua HQ “Revolta!”. Você estava lançando os capítulos em um blog periodicamente e agora vai lançar no formato impresso. Quais as expectativas para o projeto?

Preciso atingir a meta de 15.000 reais para fazer a publicação do álbum-livro, que terá 20 capítulos. Entre história e extras, o álbum terá em torno de 200 páginas. É a HQ mais longa que já fiz, sendo eu mesmo quem escreve e desenha, então apesar do trabalho pesado, está sendo algo muito prazeroso e importante pra mim, como autor. Espero atingir a meta e, com esse encadernado, presentear o público que já acompanha há quase um ano o blog. E também atingir um público novo, que vai poder encontrar a HQ nas livrarias e ler impresso no papel.

PD – Você fez uma espécie de autorretrato em um dos personagens, isso confere? Qual a sua relação com o “Animal”?

Pra falar a verdade, TODOS os personagens que aparecem na HQ (muitas vezes até os figurantes) são baseados em pessoas reais que eu conheço ou conheci. Claro que nunca é um retrato fiel e totalmente realista dessas pessoas. Na maioria das vezes eu encaixo esses personagens em situações necessárias para a trama da história, e com isso eles se distanciam um pouco das pessoas reais que os inspiraram. É como uma livre-adaptação dessas pessoas. Mas ainda assim, não há como não manter a relação entre personagem e pessoas reais. Na parte física, principalmente, eu procuro manter a semelhança, e isso me ajuda a caracterizar bem cada personagem.

No grupo principal de personagens, que são Caboclo, Topete, Rato, Chéps, e Animal, eu me coloco como este último e deixo que as relações entre eles (personagens) fluam naturalmente enquanto escrevo, sempre fazendo uma conexão com a forma como eu enxergo as relações entre as pessoas reais que os inspiraram. Trata-se do meu grupo mais chegado de amigos, então é fácil e divertido lidar com esses personagens. Os diálogos fluem naturalmente.

O Animal sou eu em muitos aspectos, mas também sou o Caboclo, o Chéps. E ao mesmo tempo, o Animal é uma junção de várias outras pessoas. E no meio de tudo isso, surgem alguns momentos onde eu faço quase uma confissão de algo muito meu por meio do personagem, ou alguma passagem muito pessoal da minha vida. Mas prefiro deixar no ar quais pontos são esses.

Mas fora tudo isso, meus amigos quando se veem na HQ, gostam, acham divertido, e eu desconfio que sintam um frio na barriga quando olham para uma parte de si mesmos ali desenhados.

PD – Alguém já te pediu para ser incluído na história? Já considerou uma pessoa feia demais para ser desenhada?

Hahaha. Com certeza não precisa ser bonito pra aparecer na história.

Muita gente pede pra aparecer, e eventualmente aparecem. Ou ainda vão aparecer.

PD – Muitas pessoas indignadas, outras cuspindo veneno, afinal, Revolta! é sobre o que exatamente?

A ideia de fazer a HQ surgiu antes das manifestações, mas já num momento em que todo mundo já estava farto das notícias de mensalão, corrupção, etc. Perdi a conta de quantas vezes ouvi: “Alguém devia ir lá e dar um tiro nesse cara.” Mas claro, todo mundo fala isso até por força de expressão. Mas alguns chegam até a imaginar a cena. Acho que é quase uma utopia, que assusta, mas excita ao mesmo tempo. Quando fui desenvolvendo a ideia da série, esse sempre foi o ponto principal. Essa revolta levada a um nível maior e mais drástico. Ao mesmo tempo, eu queria envolver uma visão realista sobre isso, principalmente no que diz respeito aos sentimentos das pessoas frente a uma notícia desse tipo. Então envolvi lugares reais e personagens baseados em pessoas reais, com opiniões reais. O engraçado é que a coisa foi tomando proporções fantásticas, mas o que procurei preservar foi o lado humano dos personagens, seus medos, angústias, egoísmos, bem como qualidade humanas também, como coragem, fraternidade, etc.

Acho que se eu fosse escolher a aba na qual encaixar o livro numa livraria, eu colocaria na parte de “histórias fantásticas”, mas se você me pergunta sobre o que é a história, eu te digo que é sobre pessoas. Pessoas comuns jogadas numa situação extrema.

E é justamente essa mistura de realidade e fantasia que me instigou a começar a história e me impulsiona a continuá-la.

Mas, sendo como metáfora em certos momentos, sendo como uma mensagem literal, às vezes as atitudes e opiniões dos personagens esbarram nas opiniões de certos leitores. Aí surgem críticas até ferozes e indignadas. A verdade é que muitas vezes a minha opinião é exatamente o contrário da opinião de certos personagens. Por isso acho válidas as críticas, porque vejo que está existindo um diálogo entre a história, os personagens e os leitores. Só fico um pouco chateado quando essas críticas vem como um ataque a mim. Mas por outro lado, acho isso natural, pois é a forma dos leitores se expressarem e eu tenho meu modo de entendê-los.

PD – Já te acusaram de machista, não libertário, incoerente, vira-casaca, nazista, plagiador… enfim. Qual a sua opinião sobre essas acusações? É pra rir ou é pra chorar?

É como eu disse, acho necessárias e inevitáveis. Confesso que já ri com algumas, não porque acho burras ou incoerentes, mas por serem extremas.

Mas de forma geral sempre fico feliz com críticas porque mostra que as pessoas estão lendo e que está havendo um impacto e um reflexo do conteúdo da HQ. Espero que continue assim.

PD – Qual crítica mais te irritou?

Quando disseram que a cor vermelha do blog era uma tentativa de referência à esquerda política.

Não digo que não há nenhuma subversão ou intenção ideológica dentro da HQ, mas com certeza não há NADA que tenha por objetivo apoiar uma suposta esquerda, direita, centro ou algum partido específico. As atitudes dos personagens são criadas a partir de opiniões e observações sinceras da realidade que eu vivo, num nível muito mais pessoal do que político-partidário.

Me irrita um pouco quando, logo que é colocada uma opinião, aparecem pessoas querendo rotulá-la como esquerda, direita, vermelha, verde, azul, machista, feminista, sem antes pensar nessa opinião com verdadeira sinceridade e realismo. 

PD – Sua inspiração, segundo minhas fontes, foi uma conversa de bar com os colegas. Em que ponto acendeu a lâmpada das ideias e você pensou “Pera lá! HQ se formando.”?

Essa sensação de “Pera lá! HQ se formando”, eu tenho o tempo todo. Mas agora eu ignoro bastante esse instinto, senão não termino nada.

Eu lembro que teve um encontro no bar, enquanto passavam as notícias na TV, onde eu realmente fiz um tipo de enquete aos amigos, perguntando a todos: “O que você faria se fosse se revoltar?” E surgiram respostas interessantes. Mas eu já estava com a ideia mais ou menos formada um pouco antes quando, também num desses nossos encontros de bar, imaginei o palácio Iguaçu como um lugar misterioso, onde homens guardavam segredos e se protegiam do resto, usando o poder de estar lá. Imaginei se pudéssemos entrar lá sorrateiramente, na calada da noite. Lembro que escrevi a primeira ideia e joguei fora. Só a retomei quando incluí a parte do mascarado metido a super-herói, no começo da história, para poder quebrar o clichê e mostrar de cara que os personagens não eram, nem de longe, super-heróis.

PD – Qual dessas respostas te deixou mais ressabiado (pensando: “Eu achava que conhecia esse cara…”)?

Hahaha. Não teve isso não. As respostas tinham bem a ver com cada um ali. Todos eles têm opiniões bem fortes sobre qualquer coisa, então nada me surpreendeu muito. Mas posso dizer que houve algumas respostas meio psicopatas e outras mais desiludidas…

Uma coisa engraçada que percebo é que muita gente, na mesa do bar, tem sempre opiniões mais sinceras e incisivas sobre as coisas, e quando vão criticar ou comentar publicamente, ficam mais bonitinhas e corretas. Não falo isso com relação aos meus amigos, mas tenho certeza disso com relação a algumas pessoas que criticam a “Revolta!”.

Mas volto a dizer, tem que criticar mesmo.

PD – Alguns personagens foram inspirados nesses mesmos colegas. Qual a reação deles ao se verem na sua HQ?

Todos adoraram. Não acho que eles concordem com tudo na HQ e vez ou outra surge uma sugestão ou crítica. Mas eles entendem o espírito da coisa e a gente se diverte muito quando falamos sobre ela na mesma mesa do bar em que a ideia surgiu.

PD – Revolta! já foi espalhado pelos cantos mais remotos de Curitiba, colado pelo próprio autor em postes, marquises, muros e os mais variados caminhos. De onde partiu essa iniciativa?

Eu quero que as pessoas leiam. Isso é o mais importante. Por isso fiz o blog e disponibilizei gratuitamente, da forma mais simples que pude. E procuro mostrar e dar a possibilidade de leitura de todas as formas que posso. Eu só continuo escrevendo e desenhando porque as pessoas estão lendo.

Imagino que deva ser uma boa surpresa, para alguém esperando o ônibus, poder ler algo interessante colado na parede ao lado.

PD – Além de polêmica e inimigos, a HQ também conquistou amigos e mais fãs para o seu trabalho. Tirando o foco dos poucos que se revoltaram contra a sua HQ, qual o efeito dos muitos elogios que Revolta! recebeu?

Me encoraja a continuar. E ter outras ideias, inclusive. A minha principal preocupação quando lanço um capítulo novo é saber se estou conseguindo me comunicar com os leitores através da HQ, e quando leio comentários e elogios, sinto que está acontecendo. Aí essa primeira preocupação some e começa outra, a de produzir o próximo capítulo melhor ainda.

Quero aproveitar e agradecer a todos que leem, dizer que é para vocês que a “Revolta!” existe e pedir que continuem comentando e participando.

PD – Fale um pouco sobre o lado subversivo de André Caliman. O que te revolta?

Me revolta, acima de tudo, a falta de bom senso. Por que pequenos momentos de bom senso podem evitar revoltas muito grandes. E sem o bom senso, a revolta é mais do que necessária, é inevitável.

PD – Em uma ideia geral, como você se vê no dia do lançamento da HQ?

Menos revoltado.

PD – Mande uma mensagem para nossos leitores revoltados.

Peço que continuem acessando o blog, lendo a HQ e comentando, independente de ser crítica ou elogio. E se gostarem, mostrem aos amigos.

Gostaria também que vejam o projeto no Catarse. Ele é o caminho para a “Revolta!” tomar sua versão impressa, completa e definitiva: http://catarse.me/pt/revolta

E por último, quero agradecer a todos e dizer que formar uma opinião, defendê-la e discuti-la pode levar à mudança dessa opinião, por parte de um, do outro, ou dos dois lados.

Um grande abraço!

Sobre Baltazar de Andrade

Baltazar de Andrade nasceu com outro nome, mas acha Baltazar muito mais bonito. Criado nas imediações de Curitiba, cresceu rodeado pela coleção de livros do pai. Metamorfose - O Inimigo Nas Sombras é seu primeiro livro. Atualmente vive com a esposa e a filha, além de sua própria coleção de livros de estimação e uma gata muito manhosa. Paralelamente a série "Rastro Psíquico" está escrevendo o livro O Vidente de Aparelho Quebrado. Amante inveterado da literatura nacional e criador relapso de idéias fugitivas.

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  • Muito boa a entrevista!

    Espero que todos que conheçam o trabalho do André contribuam no catarse com seu projeto!