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Entrevista: Nanuka Andrade

E depois de andar pelos recantos mais escondidos da internet eis que encontro o nosso próximo entrevistado (ou sua caricatura) através de um ótimo livro: “Camundo – O Desenho e a Sombra”. Vamos agora para um bate-papo com ele, um dos meus autores favoritos… Nanuka Andrade.

Nascido em São Paulo, Nanuka Andrade é ilustrador e autor do livro “Camundo – o Desenho e a Sombra” (Ed. Underworld). “O Ladrão de Destinos” é seu segundo livro editado. Mora atualmente em Campinas (SP), onde escreve novas histórias.

Booktrailers das duas obras:

 

PD – Você escreveu e ilustrou “Camundo – O Desenho e a Sombra”, foi um olhar dirigido (do tipo ‘Eu planejei assim, imaginei pela primeira vez assim e fiz como eu queria’) ou foi do tipo ‘vamos desenhar e ver que bicho dá’?

NA – Olha, digo sem hesitar que foi “vamos desenhar e ver que bicho dá”! Primeiro porque a ideia para o livro surgiu de uma maneira muito descontraída. Não que o processo seja diferente para qualquer criação, mas no caso do Camundo foi exatamente assim, sem o menor compromisso. Queria contar sobre um menino que desenhasse o futuro, mas sequer tinha uma história para encaixá-lo. Precisei pôr a mão na massa assim mesmo e ver no quê ia dar!

PD – Camundo é um menino diferente, muitos diriam estranho. Você se consideraria estranho ou diferente? Por quê?

NA – Hahaha! Acho que quem  pode dizer isso são as pessoas que convivem comigo! Afinal, o bom louco nunca se acha louco, não é mesmo? Mas penso que sou um homem comum, e passaria muito bem despercebido na multidão. Com a internet e consequentemente as redes sociais, comecei a perceber que existem muitas pessoas parecidas comigo. E talvez esta percepção me coloque numa categoria de pessoas, digamos… bem normais!

PD – Como foi o processo de publicação? Deu aquele frio na barriga durante o lançamento?

NA – Dizer que não dá, é mentira. Deu sim. E parte disso foi porque aconteceu de repente e em plena Bienal. A proporção de um evento como este por si só já é de deixar qualquer um apavorado!

PD – Além de Camundo você tem outros projetos ( A Ordem Kaon / O Ladrão de Destinos), fale um pouco sobre eles.

NA – Assim como o Camundo, A Ordem Kaon e  O Ladrão de Destinos são livros voltados para o público juvenil. O primeiro surgiu depois de reunir alguns textos da minha adolescência, e o segundo foi concebido recentemente, logo depois de publicar o Camundo. Ambos são narrativas que se desenrolam em universos fantásticos e falam sobre amizade e redenção.

PD – Mayumi Chen (de O Ladrão de Destinos) é uma menina curiosa. Você é muito curioso?

NA – Sou muito curioso!  Sempre me apercebo observando as pessoas, como agem, falam. Adoro estudar coisas antigas também. Como funcionam máquinas a vapor, por exemplo. Ah,  e ler livros que ninguém conhece também! Adoro saber como eram as pessoas no passado. Mas, claro, flerto com o futuro também. Adoro revistas cientificas e ler artigos sobre avanços tecnológicos. São destas fontes que tenho os insights para os meus livros.

PD – Em que grau você diria que se parece com seus personagens?

NA – Em muitos aspectos. Ou pelo menos empresto um pouco de mim para cada um deles, embora procure deixá-los soltos para criar o próprio destino. Pode parecer estranho, mas no decorrer da escrita, muitos agem de acordo com os desafios e obstáculos que são colocados durante a trama.

PD – Além dos já citados, algum outro projeto em mente?

NA – Tenho mais três projetos: O Homem que Morria Demais, sobre um sujeito que sofre de catalepsia patológica e desperta em necrotérios ou cemitérios (e tem por melhor amigo um coveiro). Os 12 Fusos, sobre um sujeito que precisa salvar a amada que padece de uma maldição, e para isso “viaja” pelo espaço-tempo a fim de impedir que ela morra ao anoitecer. E um ainda sem título, sobre pessoas que procuram ressuscitar celebridades mortas.

PD – Você publicou Camundo pela editora Underworld e agora está lançando “O Ladrão de Destinos” pela editora Subtítulo. Como está sendo essa transição?

NA – Está sendo ótima. A editora é muito séria e comprometida. Sem dizer a confiança que deposita em mim desde o início, já que me esperaram concluir o livro, que sequer tinha dois capítulos escritos.  Só posso agradecer imensamente!

PD – Você acredita que alguns desenhos podem mostrar o futuro? O que você gostaria de desenhar que fosse acontecer de verdade?

NA – Sem dúvida! Os desenhos sobre as profecias de Nostradamus, e Leonardo da Vinci, por exemplo! No caso do segundo,  era espantoso ver as engenhocas parecidas com helicópteros. E não só em desenhos encontramos estas curiosas predições do futuro.  Jules Verne dispensa apresentações! É curioso ver como, em Viagem à Lua, os espaçonautas caíram no Cabo Canaveral, exatamente onde, anos depois, a primeira tripulação também cairia depois de ter pisado na lua pela primeira vez. Coincidência? Hum. Não acredito em acaso!

Sobre o que gostaria de desenhar e que fosse acontecer de verdade… sem querer dar uma de candidata à Miss Universo… a paz mundial!

PD – Qual o seu maior sonho para seus livros? Qual deles é seu maior “xodó”?

NA – Que sejam lidos sempre. Que façam as pessoas sonharem pelo menos o tempo em que dure a história, e se, for muito pretensioso, que possam acrescentar alguma coisa em suas vidas. O meu xodó sempre será o próximo!

PD – Você tem em seu portfólio trabalhos de animação e é um grande apreciador dessa arte (fã de Walt Disney pelo que soube). Além de dinheiro, o que falta pra vermos um livro seu em audiovisual?

NA – O que falta é incentivo. Ser animador no Brasil é muito difícil. Não temos uma cultura de apoio. Claro, existem grandes estúdios empenhados em reverter esta situação, mas a dinâmica é parecida com a do cinema nacional. A maioria precisa recorrer à Lei Rouanet, e depois enfrentar  a via crucis que é a distribuição, cuja prioridade é valorizar o que vem de fora. Afinal, é mais barato comprar enlatados estrangeiros do que investir em profissionais por aqui. É só ver o caso de “O Grilo Feliz”  de Walbercy Ribas e a epopeia que foi produzir e lançar um longa. Apesar de tudo, deu certo. E uma sequência foi produzida pela  20th Century Fox. Enfim, temos belíssimos trabalhos que vêm rompendo estas dificuldades, talvez pela popularização das ferramentas de animação. É o caso da série animada sobre o Sítio do Pica-pau Amarelo.

PD – Você também desenha quadrinhos e tem uma personagem bem recente, “Mirna – A Menina Zumbi”. Quais os seus planos nessa vertente?

NA – Adoraria trabalhar numa versão do Camundo para esta mídia, mas o que me falta é tempo! Mas não perco a paixão. Sempre adorei quadrinhos! Ganhei um concurso de HQ pela APP Sudeste em 2004, e desde então venho acalentando o desejo de lançar um álbum. Vamos ver em que bicho vai dar!

PD – Muitas pessoas não levam a sério o trabalho de ilustrador, sempre tem aquele engraçadinho querendo um desenho de graça. Como é isso? Como você vê esse descaso com a sua arte (que, afinal, dá muito trabalho)?

NA – Ah, em todas as áreas isso acontece. No caso do desenho, vem daquela cultura de que desenhar é um hobby. O que não é verdade. Ganho a vida com isso. Com livro editado é a mesma coisa. As pessoas acham que vão apoiar a autor nacional pedindo de graça um exemplar, mas esquecem que o maior incentivo é comprá-lo. Afinal, o livro é um produto. Se não vender, não haverá investimento por parte das editoras.

PD – Você já escreveu ou ainda está escrevendo a continuação de Camundo (O Signo Oculto)? O que podemos esperar nessa nova faze do personagem?

NA – Estou escrevendo este livro há alguns meses, mas como dei continuidade ao “Ladrão de Destinos”, o projeto ficou parado por algum tempo.  Apesar disso, tenho a história ainda  fresquinha na cabeça. Sobre o que podemos esperar desta segunda parte é uma aproximação maior do Camundo com uma grande ordem de adivinhos que usam a arte da pictomancia. Ah, conhecemos também primeiro rival de peso de Camundo, um menino que tem o mesmo dom que o dele!

PD – E pra Nanuka Andrade, qual a próxima fase?

NA – Espero que não seja a fase do chefão! Estou carente de pular alguns obstáculos ainda!  Mas, sem fazer muitos planos, é escrever e desenhar, dando continuidade ao que já comecei.

PD – Uma mensagem pros nossos leitores.

NA – Só tenho de agradecer a oportunidade, Baltazar! E dizer a todos que acompanham o Papiro Digital que jamais deixem de ler. Ler é a fonte através da qual conseguimos enfrentar o mundo e torná-lo melhor. Por isso… não deixem seus livros abandonados por aí ou criarem pó na estante!

Sobre Baltazar de Andrade

Baltazar de Andrade nasceu com outro nome, mas acha Baltazar muito mais bonito. Criado nas imediações de Curitiba, cresceu rodeado pela coleção de livros do pai. Metamorfose - O Inimigo Nas Sombras é seu primeiro livro. Atualmente vive com a esposa e a filha, além de sua própria coleção de livros de estimação e uma gata muito manhosa. Paralelamente a série "Rastro Psíquico" está escrevendo o livro O Vidente de Aparelho Quebrado. Amante inveterado da literatura nacional e criador relapso de idéias fugitivas.
  • Carlos Rocha

    Diz-nos Nanuka que sempre dá um frio na barriga aquando de um lançamento. Pois eu desejo sinceramente que, mais que um simples frio, uma revoada de emoções lhe assaltem qualquer dia, quando um imenso mar de gente estiver esperando para o ouvir, assinar um livro ou apenas apertar-lhe a mão. Felicidades, e obrigado Baltazar pela entrevista.

    • Nanuka Andrade

      Obrigado, Carlos! Desejo muito que todos nós tenhamos estes momentos felizes em nossas vidas!

      Obrigado, Baltazar, pela grande oportunidade!

      Abração!