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Entrevista: Walter Tierno

Olá queridos leitores do Papiro Digital, nosso próximo entrevistado é escritor e ilustrador, lançou seu primeiro livro pela Giz Editorial e deixou sua marca no modo de ver o mundo de cada pessoa que já leu Cira e o Velho. Em meados de lançar Anardeus, seu segundo projeto solo, recebam ele, o homem que segura a caveira: Walter Tierno.

Decidi cedo que meu negócio era desenhar. Ingressei na publicidade e teimei no ramo por quase vinte anos. Também sou formado em jornalismo, mas nunca exerci a profissão. Sou ilustrador, escritor, pagador de mico, engolidor de sapo e um cara desagradável que responde sinceramente quando alguém pergunta minha opinião. Vivo em São Paulo com minha esposa Veridiana, que revisa meus textos, minha filha Catarina, que sempre tenta desligar meu computador, os gatos Titus e Sisko e a gata Jolie, que insistem em dormir sobre o meu teclado. Além de “Cira e o Velho”, meu livro de estreia, sou autor de contos para as coletâneas “Amor Lobo”, da Giz Editorial e “Mitos Modernos”, da Llyr. Meu segundo livro é “Anardeus. No calor da destruição”.”

Walter Tierno

 

PD – Primeiramente gostaria de dizer obrigado. Não só por escrever um dos melhores livros de fantasia baseado em mitologia nacional, mas por incentivar e apoiar novos autores com palestras e conselhos valiosos. Muito bem, vamos à primeira pergunta. Qual o porquê disso? O que te faz querer ajudar outros autores?

WT – Eu é que agradeço o convite para a entrevista. O motivo de eu, vez por outra, tentar ajudar autores iniciantes é motivado apenas por uma identificação. Estamos no mesmo barco e fico emputecido quando vejo alguém tentando tirar vantagem da fragilidade de colegas, seja se aproveitando da ingenuidade ou da afobação. Mas não sou tão engajado assim, não. Não procuro montar palestras, fora duas edições de um encontro que chamamos de “Papo sem rodeios” (é, eu sei, o nome é ruim…). Nessas ocasiões, na verdade, eu falo muito pouco. Convido autores e editores mais experientes para falar com a galera.

PD – Qual a coisa mais absurda que você já viu falarem para um autor iniciante?

WT – O mais absurdo que vi não foi uma frase específica. Foi uma ideia. Um “cirurgião de textos” que ficava chutando qual seria a nova onda que explodiria em vendas. Pelo menos, foi o que ouvi de pessoas que estudavam com ele. Disseram-me que, a cada hora, ele dizia que a onda que estava chegando seria sereias, depois, fadas, depois, distopia, infantil, comédia romântica… Só não previu 50 tons.

 

PD – Apesar de ser seu primeiro livro, Cira e o Velho tem um enredo rico e fascinante, quase não há erros e incoerências com a história proposta. Você já tinha alguma outra experiência com as letras antes disso?

WT – Em prosa, não. Não profissionalmente, publicando. Já publiquei uma HQ, em 2000, mas ela conta muito mais como uma experiência pessoal, de catalogação de erros, do que uma obra a ser mencionada. 

PD – Você se considera uma pessoa sincera, isso já lhe trouxe atritos? Até que ponto?

WT – Eu brinco que sou, mas quem consegue isso? Sou o máximo que posso. Nunca enfrentei algum problema realmente sério por isso.

 

PD – Hás ainda o livro “Anardeus – No Calor da Destruição”, que, se não me engano, é seu mais novo projeto solo. Fale um pouco sobre ele.

WT – Comecei a trabalhar em Anardeus logo depois do lançamento de Cira. Dessa vez, escolhi me oferecer uma folga da pesquisa, das construções de história rocambolescas e de todo o trabalho que envolveu escrever Cira. Escolhi escrever um livro mais pessoal.

 

PD – Segundo a descrição, o livro será ainda mais visceral, perturbador e sombrio que Cira e o Velho. Qual a maior expectativa para ele?

WT – Sim, Anardeus é mais agressivo, realmente. Não é um livro comercial. É mais rápido e perturbador. Eu espero agradar aos leitores que tenham gostado principalmente de meu estilo e oferecer a eles uma experiência diferente. É uma dúvida para mim, também. Não sei qual será a reação dos leitores.

PD – O trabalho de pesquisa para Cira, se vê logo de cara, foi feito magistralmente bem, incorporando a personagem entre as lendas existentes e criando uma nova. Já houve situações de pessoas perguntando se sua criação realmente faz parte do folclore brasileiro? (Deixando claro que para mim, o entrevistador, Cira já faz parte indispensável da amalgama de mitos do Brasil).

WT – Sim, já teve quem perguntasse isso. Também teve muita gente que não sabia nada sobre os outros personagens, esses sim, membros da história e do folclore nacionais, como Domingos Jorge Velho e Norato.

 

PD – Cira e o Velho já foi considerado inapropriado para várias faixas etárias. Qual a sua opinião quanto à classificação indicativa da obra?

WT – Eu mesmo digo que o livro não é indicado para menores de 14 anos. Já teve quem dissesse que era só para adultos, mas acho exagero. Minha referência é a seguinte: Se a pessoa já está pronta para ler Capitães da Areia, então está pronta para Cira e o Velho.

 

PD – Você além de escritor é ilustrador, ou ao contrário. Qual lado que te define mais? Ou ambos se completam perfeitamente?

WT – Acho que sou mais ilustrador. Por enquanto, tenho harmonizado bem os dois lados.

 

PD – Cira carrega no ombro a caveira de Cobra Norato, tal qual Guaracy carregava uma caveira com cornos e isso despertou minha curiosidade. Isso é relacionado a algum mito ou é algo totalmente Made in Walter? Como chegou à idéia?

WT – Não é, não. Foi invenção minha. A personagem nasceu visualmente antes de eu atribuir-lhe sequer uma personalidade. E a caveira sobre o ombro veio logo de cara. A caveira com cornos de Guaracy é só mais um daqueles detalhes que se deixa jogados para aproveitar mais tarde.

PD – Algum plano para dar continuidade à história de Cira?

WT – Sim, mas não tão cedo. Já comecei a rascunhar algumas coisas, mas quero experimentar outras histórias e outros estilos antes de escrever outra história com Cira.

 

PD – O jornalista da história era totalmente obcecado por Cira. O que teria o poder de te deixar obcecado?

WT – Só para provocar um pouco sua curiosidade, vou propor a você que procure em todo o livro uma indicação realmente forte de que o narrador é um homem.

Nunca consegui me imaginar obcecado. Não tenho disciplina suficiente para isso…

PD – Depois de meia hora revisando as falas do jornalista não achei nada que colaborasse com meu ponto de vista, mas você me deu mais um motivo para reler Cira e o Velho. Você gosta de provocar esse tipo de sensação? De fazer a pessoa duvidar do que modulou para a história que leu?

WT – Acredito que todo autor gosta de enganar o leitor e, ao mesmo tempo, receber dele uma impressão completamente diferente. Um exemplo: Numa resenha, foi dito que o Curupira havia feito uma cirurgia para colocar os pés para frente. Não há nenhuma passagem sobre isso no livro. Achei sensacional. A resenhista completou a história na cabeça dela. Fiquei muito feliz com isso.

 

PD – Várias vezes Cira se defronta com Animais-Reis, minhas partes favoritas. O que te fez reviver o mito dos animais falantes? Houve influencia nas fábulas?

WT – Para isso, pensei nas lendas indígenas, mesmo, em que animais e pessoas trocavam informações e até formas.

PD – Mande uma mensagem para nossos leitores. Qual o conselho mais valioso que pode dar o autor Walter Tierno?

WT – Essa é sempre a parte mais difícil de qualquer entrevista. Creio que o que posso dizer aos leitores é que experimentem mais, saiam um pouco de suas zonas de conforto e arrisquem-se a conhecer novos autores (principalmente nacionais) e novas ideias.

Sobre Baltazar de Andrade

Baltazar de Andrade nasceu com outro nome, mas acha Baltazar muito mais bonito. Criado nas imediações de Curitiba, cresceu rodeado pela coleção de livros do pai. Metamorfose - O Inimigo Nas Sombras é seu primeiro livro. Atualmente vive com a esposa e a filha, além de sua própria coleção de livros de estimação e uma gata muito manhosa. Paralelamente a série "Rastro Psíquico" está escrevendo o livro O Vidente de Aparelho Quebrado. Amante inveterado da literatura nacional e criador relapso de idéias fugitivas.

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  • Nossa ele é um ótimo ilustrador pelo visto!
    Adoro entevistas com os autores, é bacana demais conhecer eles mais a fundo 😀

    beijos!