
A paisagem mudava rapidamente na janela do trem mas o ocupante da cabine doze pouco olhava para o lado, esse jovem na idade de quinze anos, alto e de cabelos negros remexia nas cartas amareladas e lia o conteúdo com os olhos bicolores azul e castanho, uma característica rara e que o incomodava regularmente. Hoje no entanto ele pouco se importava com esse pormenor de sua fisiologia, as cartas endereçadas a uma certa Sabine Wallace por aquela mulher eram muito mais interessantes. O nome da destinatária e o fato de sua mãe estar de posse da correspondência havia se tornado a obcessão do jovem nos últimos dias antes de sua partida para a Academia Holmes e ele insistira em saber dos detalhes do envolvimento das duas mulheres para o desagrado de seu tio de criação e tutor o professor Parker. Por fim ele descobrira sobre o assassinato da mulher que escreveu as cartas e sua curiosidade aumentou devido ao fato de estar presente em Yorkshire na noite onde a jovem foi assassinada. Lendo as cartas ele não encontrou qualquer pista que ligasse sua mãe Katherine Light a Sabine Wallace mas sabia que elas tinham alguma ligação. Pesquisando secretamente Abel Light descobriu que Sabine Wallace era a irmã mais nova de Barnaby Wallace condenado a forca por assassinar jovens mulheres, o assassinato da rementende das cartas se tornou então um mistério a mais. Segundo suas informações o crime foi cometido por um imitador de Barnaby Wallace, alguém que conhecia bem a forma de matar do criminoso. Por ser jovem ele não teve muito mais acesso a informações e por esse motivo sua decisão de ir para a Academia Holmes foi tomada, ele esperava que estar na academia de detetives tornasse sua própria investigação mais fácil. Quando comunicou sua decisão a seu tutor ele ficou desconfiado no começo mas aceitou muito empolgado, ele dizia que Abel havia sido talhado para esse ofício, ele concordou sem revelar suas reais intenções. Um barulho no corredor chamou a atenção de Abel, ele dobrou as cartas com cuidado e as escondeu no forro falso de um livro, depois o abriu em uma página qualquer e fingiu ler com inocência. A porta foi aberta e um homem com os cabelos adquirindo um tom grisalho, de porte atlético e vestido com elegância discreta entrou na cabine sentando no assento oposto ao de Abel que não desviou os olhos das páginas do livro.
- Entediado?
- Um pouco, quanto tempo até a Academia Holmes?
- Uma hora até a estação mais vinte minutos até a academia. Cuidei dos detalhes de sua matrícula antes de deixarmos Londres, agora você é um orgulhoso aluno primeiranista. Abel concordou com a cabeça.
- Pensei que estaria mais empolgado. Abel marcou a página do livro e o fechou colocando-o de lado.
- O senhor me conhece tio Parker. Mas não me contou tudo sobre o lugar.
- E que parte eu esqueci? Perguntou o homem com inocência, Abel o analisou por um instante antes de prosseguir.
- Escutei rumores sobre uma morte na academia em janeiro, isso é verdade? O homem suspirou.
- Mathew… Sim, era um professor. A Yard trabalha com a hipótese de suicídio mesmo sendo estranho esse professor se suicidar na escola.
- Suicídio? O homem assentiu se recostando no banco e cruzando as pernas e os braços.
- O professor Farrel era um homem decidido talvez um pouco pedante mas não me parece o tipo que atentaria contra a própria vida, em todo caso as análises não revelaram nada que indicasse uma segunda pessoa no local. A escola deu total liberdade de investigação a Scotland Yard…
- Em troca de sigilo sobre o ocorrido. Interrompeu Abel, Parker controlou uma careta mas as linhas de seu rosto mudaram visivelmente.
- Não vamos recomeçar essa discussão Abel. O garoto deu seu sorriso felino.
- Divulgariam se fosse um assassinato, afinal o que mais atrairia alunos para uma escola de detetives do que um caso exclusivo? Mas sendo um suícidio a propaganda tornasse negativa dando a impressão de que os alunos iriam preferir se matar a passar os dias mergulhados no mais profundo ócio. Parker fechou a expressão.
- Não é hora para sarcasmo Abel, o caso é realmente sério. Abel deixou o sorriso morrer lentamente.
- Desculpe-me, força desse velho hábito que não consigo perder.
- Bom, a arma foi disparada duas vezes, o primeiro tiro atingiu o chão e o segundo foi dado contra o peito, errou o coração por milímetros mas perfurou um dos pulmões e se alogou perto da coluna, a morte não ocorreu imediatamente mas não demorou muito também. Por que um suicída atiraria no chão antes de em si mesmo? Além disso um tiro no peito não é muito comum nesses casos. Abel concordou.
- O tiro no chão só faria sentido se o professor estivesse tentando acertar algo ou alguém, pode ter sido depois de atingido o que prejudicou sua mira. Mas você mesmo disse que não havia nenhum sinal de outra pessoa presente no telhado, o projétil foi recuperado do corpo?
- Sim mas estava danificado demais para uma comparação, o tamanho e o peso batem com a munição do revólver do professor Farrel, além disso duas cápsulas estavam deflagradas na arma e havia vestígios de pólvora na mão do homem. Como disse antes o professor Farrel não era um homem que se suicidaria, além disso soube que ele trabalhava em algo. Ele pediu acesso aos arquivos de professores e funcionários antigos da academia e andou consultando também os arquivos públicos da reitoria, Farrel trabalhava em alguma coisa o que me despertou a suspeita de que ele foi silenciado por alguém muito interessado em interromper seu trabalho.
- Mais alguém compartilha da sua suspeita não é? Senão por que motivo o sigilo? Talvez o reitor da Holmes? Parker sorriu, a mente fria de Abel estava um passo a frente.
- Realmente meu querido sobrinho, falei com o reitor Watson e expus a minha suspeita, diante dos argumentos ele concordou que a há algo a mais nesse caso do que as aparências sugerem. Abel concordou com a cabeça.
- Tem de ser alguém com o conhecimento do funcionamento de um inquérito, só uma pessoa com conhecimento na área saberia o que fazer para dificultar o andamento da investigação, isso pôem na lista de suspeitos todos os professores e membros do conselho diretor que estavam na escola ou proximidades no período de recesso, uma lista grande.
- Até mesmo eu estava nas proximidades da academia no período, vai me incluir na lista de suspeitos? Parker sorriu, vendo que a expressão de Abel não mudava ele pigarreou e voltou o rosto para a janela.
- Lembro de você ter me ensinado a não deixar sentimentos pessoais interferirem na investigação tio, lamento muito por isso.
- Você está correto, eu estava presente durante o ocorrido e se estivesse no lugar do investigador também suspeitaria de mim, afinal sou um professor do currículo investigativo da academia e perfeitamente qualificado para forjar pistas.
- Mas também não seria preciso necessariamente ser um professor, mesmo um funcionário qualquer poderia ter cometido o crime, é impossível trabalhar em uma academia como a Holmes sem aprender um ou dois truques. Parker voltou a encarar o garoto.
- E isso aumenta ainda mais a lista de suspeitos. Abel concordou com um sorriso.
- Poderia ter sido qualquer um, isso é o que torna a expeculação estimulante. Parker correspondeu ao sorriso.
- Isso está a cargo da Scotland Yard e dos professores e não é assunto para um primeiranista como você, concentre-se nas aulas e me deixe orgulhoso. Abel suspirou.
- Sim senhor. O garoto voltou a pegar o livro e a abrir em uma página qualquer, já havia lido aquele livro várias vezes mas se sentia melhor com ele em mãos sabendo do valioso conteúdo que seu forro ocultava. Durante o trajeto seu companheiro de viagem não falou mais que o necessário dando a ele a oportunidade de explorar mentalmente vários cenários possíveis para o segredo de sua mãe, uma mulher rodeada por segredos que ele sabia mal haver conhecido. Era uma expeculação inútil ele sabia mas que o fazia evitar pensar na academia Holmes e nos seus colegas de escola que ririam da cor de seus olhos como sempre costumava ocorrer. Vez ou outra ele olhava para a paisagem campestre onde via uma casa ou pessoas que seguiam suas vidas alheias ao observador no trem, vidas mergulhadas na aparente ordem acima do caos que Abel conhecia bem. Afastou esses pensamentos da cabeça consultando seu relógio, havia passado quase toda a viagem entretido com o problema das cartas. O trem começou a perder velocidade devagar conforme os freios rangiam arrastando as rodas sobre os trilhos de ferro. O professor levantou espreguiçando-se.
- Estamos perto agora. Abel limitou-se a assentir com a cabeça e levantou guardando o livro dentro da bagagem de mão. O professor abriu a porta da cabine e seguiu aos encontrões com as pessoas no corredor, Abel seguia atrás dele. Seguiram em direção a saída, na plataforma pessoas andavam para lá a para cá, Abel encontrou muitos garotos de sua idade e identificou várias línguas também, a fama internacional da Academia Holmes era justificada afinal. Hercule Parker posou a mão sobre o ombro dele.
- Vamos pegar as bagagens e seguir de carro até a academia, não se preocupe vai dar tudo certo.
- Lembra o que aconteceu na última vez em que usou essa frase?
(Continua…)
Abraços,
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