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A Balada do Traidor – Parte 01

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Londres, 2055.

A chuva caía inclemente sobre a cidade. Pesadas nuvens rodopiavam sobre a metrópole, despejando sua carga líquida, alheias aos dramas e necessidades que aconteciam nas ruas abaixo. A lua, totalmente encoberta pelo céu tempestuoso, nada podia fazer para diminuir a escuridão que assolava o homem que corria alucinadamente por uma das vielas de Londres.

O homem corria o mais rápido que podia. Gostaria de correr bem mais rapidamente, mas sabia que isso era impossível, pois sua preciosa carga poderia ser perdida. O andarilho atravessou uma viela estreita situada entre dois prédios e surgiu numa rua secundária. Ele estancou por um momento. Não havia trânsito, como ele já esperava. Aquele setor da cidade era praticamente despovoado, pois estava marcado como uma das áreas destinadas à “realocação urbana planejada”, um nome pomposo que o governo criara para despejo coletivo e expulsão. Mesmo a área possuindo um grupo ou outro de miseráveis e marginais, nenhum deles ousaria desafiar o toque de recolher. Apenas os imensos banners de propaganda que exibiam a imagem do Imperador Max Dittrich, líder inquestionável de Nova Saxônia, encaravam o andarilho. O silêncio só era cortado pelo ruído da chuva e pelo som distante do trânsito além da linha de exclusão que cercava o bairro.

A água escorreu pelos longos cabelos lisos do homem e atrapalhou sua visão. Com a costa da mão direita ele removeu os cabelos do rosto. Rapidamente apanhou do bolso superior do casaco o pequeno uPAN – Navegador e Agente Pessoal, com localizador GPS plugado à rede pirata Undernet –, buscando orientar-se novamente. Infelizmente o aparelho pouco lhe ajudou, pois o mapa da área estava completamente desatualizado, exibindo ruas e marcações datadas de 2045, bem anteriores às alterações feitas pelo atual governo. Praguejando, ele observou a quadra e em um instante percebeu uma saída pela esquerda, um beco completamente escuro. Ele mal pôde divisar os contornos das caçambas de lixo e não lhe agradou a ideia de correr pelo caminho desconhecido, porém, a alternativa seria prosseguir pela rua, a céu aberto, o que com certeza facilitaria que fosse encontrado. Decidiu mergulhar na escuridão, buscando afastar-se das luzes da precária iluminação pública. Com passos largos, mas cautelosos, ele avançou pelo beco, procurando não colidir com nenhuma das caçambas.

Subitamente, uma coluna de luz varreu a entrada do beco às suas costas. O som de jatos planadores deixou claro que era questão de instantes até que fosse localizado. Ele apertou a carga contra o peito e contornou uma caçamba, tateando a parede em busca de algum refúgio.

Ele não conseguiu conter um profundo suspiro de alívio quando seus dedos encontraram o contorno de uma porta. Agindo instintivamente, ele recuou e em seguida deu um forte chute na porta. A entrada cedeu e, felizmente, nenhum sinal de alerta soou. O homem entrou de imediato, e tornou a fechar a porta atrás de si, apoiando-a com seu próprio corpo. Pela luminosidade que atravessava as frestas da porta ele pôde perceber que o facho de luz vindo do céu varria completamente o beco, eliminando qualquer sombra protetora que pudesse haver ali.

Felizmente nenhuma patrulha terrestre resolveu participar da perseguição até o momento. Parecia que eles esperavam localizá-lo pelos ares para então desembarcar os caçadores. Se fosse assim, estaria seguro por algum tempo.

Agarrou uma estante vazia e puxou-a, sem esforço, até escorar melhor a porta arrombada. Em seguida, olhou em volta e mapeou a sala onde estava. O local parecia ter sido usado como depósito de alguma antiga empresa, pois possuía algumas caixas padronizadas amontoadas junto às paredes, além de três estantes metálicas vazias e uma mesa comprida. Papéis esquecidos estavam jogados por todos os lados, completando o cenário de abandono. Na parede oposta, o invasor percebeu uma porta de vai-e-vem fechada, coberta por teias de aranha.

Um pouco mais relaxado, o homem caminhou até a mesa e retirou a carga que abrigava sob o casaco. Seu braço esquerdo formigava devido às quase duas horas em que carregava sem descanso o pacote. Tirou a alça dos ombros e depositou o embrulho sobre a mesa. O pacote era uma manta térmica isolante e media cerca de cinquenta centímetros de comprimento. O homem apertou o botão do fecho automático e a manta se abriu até a metade, como uma flor desabrochando.

Revelou um saudável bebê com brilhantes e curiosos olhos azuis. Não devia ter mais do que poucas semanas de nascido.

Sob o casaco, o uPAN vibrou chamando sua atenção do fugitivo. Ele verificou o número no display e atendeu prontamente.

– Onde você está? – perguntou a voz feminina do outro lado da ligação.

– Atrasado. Mas devo alcançar o ponto de encontro em cerca de uma hora.

– Me dê sua localização. Vou buscá-lo.

– É muito arriscado… Aguarde-me.

– Mordred, como ele está?

– Perfeitamente bem. Não se preocupe.

– Como se isso fosse possível…

– Mais alguma coisa?

– Aguardarei apenas mais uma hora. Depois disso e…

Mordred desligou antes que a frase fosse terminada. Sabia o que estava em jogo e não gostava de recomendações desnecessárias. Virou-se para o bebê, que o encarava com um olhar enigmático.

– Sempre me dando trabalho, hein, Artur?…

***

Cornualha, num tempo já esquecido…

O casal de andarilhos avançava pela floresta com determinação. A mulher que ia à frente indicando o caminho não hesitava em momento algum. Parecia conhecer de cor cada pedra daquela trilha. Era morena e aparentava cerca de trinta e cinco anos, possuía estatura mediana e corpo esguio, coroada por compridos cabelos lisos, tão negros como o vestido que usava, o que a tornavam uma mancha sombria em movimento, destacada contra a floresta verdejante. Seu belo rosto era marcado por olhos castanhos ágeis e inquietos, que percorriam cada centímetro da paisagem.

O homem que a seguia era igualmente moreno, porém mais alto que a mulher. Seus cabelos eram negros, cortados à moda dos cavaleiros, e vestia uma túnica marrom. Seus olhos azuis pareciam duas pedras de gelo e deixavam transparecer seu desconforto em estar ali. Vez ou outra tocava o cabo da espada que trazia na cintura, como se desejasse certificar-se de que ela continuava ali.

– Já andamos bastante, não acha? – reclamou o homem.

– Reclamas demais, meu filho. Aliás, eu já lhe disse isso, não? – respondeu a mulher.

– Várias vezes. Mas não pode me culpar pela minha impaciência. Já faz algum tempo que me prometeu um reino, e não um passeio pela mata…

– Mordred, meu pequeno…

– Morgana, minha mãe…

– …tens passado muito tempo na companhia de teu pai. Estás pensando apenas em quantas espadas, armaduras ou cavalos podes juntar. Coisas tão materiais e corruptíveis…

– Espadas e cavalos são necessários em qualquer guerra. E eu, lamento dizer, não possuo nenhum dos dois em quantidade suficiente para depor meu pai Artur.

– Aço e carne são as armas do homem comum e o tempo consome a ambos igualmente. Mas o verdadeiro poder, ah, este reside dentro da alma do homem que ousa buscá-lo. Escuta-me, Mordred.

– Escutá-la é o que tenho feito a vida inteira.

– Não parece, pois não aprendestes nada. Escuta, por que achas que os homens seguem teu pai?

– Por que ele é o rei, oras. Que pergunta simplória, Morgana.

– Ignóbil. Cada vez me decepcionas mais. Artur é rei, de fato, mas a nobreza que faz com que os homens o sirvam reside em sua alma. Ainda que ele não possuísse um mero sítio para criar porcos, os homens o seguiriam.

– Bobagem!

– A alma de Artur possui uma distinção, filho surdo. Ele foi marcado pelos deuses desde a concepção. Ele é um predestinado.

– Predestinado a reinar, enquanto eu, seu filho legítimo, sou destinado a vagar como um bastardo…

– Os deuses brincam com os homens, Mordred. Esta é outra lição que não deves esquecer. Porém, existem aqueles que se recusam a participar do jogo que lhes é imposto e descobrem maneiras de extrapolar o papel que os deuses determinam.

– Pessoas como tu, Morgana?

– Sim, exatamente. Eu sei o que os deuses esperam de mim, e me recuso a desempenhar tão ridículo papel. E tu também, Mordred. Tu, sangue do meu sangue.

– Não me parece que tenhas feito um bom trabalho para escapar de teu destino, Morgana. Eu mesmo, que sigo teus planos, tenho que me contentar em parecer um servo fiel do rei, apenas mais um entre tantos que bajulam Artur. Afinal, aqui estamos, perambulando por estas paragens ermas enquanto o rei e seus devotados amigos desfrutam dos prazeres do poder.

– Cala-te. Chegamos.

Por alguns instantes o filho de Artur teve a impressão de que a gruta surgira do nada. Uma gruta quase completamente coberta pela mata, capaz de passar despercebida por pessoas menos atentas. Mordred encarou a entrada sombria e olhou incrédulo para Morgana.

– “Chegamos” onde? A este buraco no meio do nada?

– Basta de insolências, tolo. Entremos.

Morgana afastou-se dando passagem para o filho. Mordred sacou sua espada e, com quatro ou cinco gestos rápidos, cortou parte do mato e das ervas daninhas que cobriam a entrada da gruta. Morgana adiantou-se e penetrou primeiro nas sombras da caverna, sendo prontamente seguida pelo cavaleiro.

As sombras envolveram os dois caminhantes. Morgana prosseguia sem receio, como se fosse dia claro. Mordred manteve a espada em punho e caminhava pé ante pé aprofundando-se no caminho.

– Devíamos ter trazido uma tocha – reclamou.

– Não precisaremos – sentenciou Morgana.

Aceitando que sua mãe só contaria o objetivo da estranha jornada quando lhe fosse conveniente, Mordred bufou e calou-se. A escuridão, mesclada às roupas negras de Morgana, não permitia que ele a visse realmente, então continuou seguindo-a orientado pelo som de sua respiração e de seus passos sobre o cascalho depositado no chão da gruta. Caminharam pelo que lhe pareceu cerca de uma hora.

De repente, Morgana parou e sussurrou:

– Mordred, fique calado mais do que nunca. Caso contrário, podemos não ver mais a luz do sol.

Mordred conhecia bem a teatralidade da mãe, mas naquele momento sentiu arrepios.

– Sete anos atrás tive uma visão – continuou a irmã de Artur Pendragon. – Vi esta gruta e recebi instruções de como alcançá-la. Estamos em um local sagrado. Um local perdido, que foi reencontrado. Uma entrada para os reinos abissais!

Sendo filho de Morgana Le Fay, aquela considerada por muitos como fada, bruxa ou demônio, ou ainda por todas as denominações juntas, o cavaleiro já havia presenciado vários de seus rituais. Com frequência participava deles. Em certa ocasião até mesmo banhara-se em sangue de animais, ato que lhe garantiria imunidade em batalha, segundo sua mãe. Não havia testado a eficácia do ritual ainda, mas era um homem precavido. E a precaução lhe dizia que banhar-se em sangue animal não era nada comparado à situação em que estava agora. Sua cabeça doía, seus ombros pesavam como se trajasse armadura completa em vez da simples túnica.

– Uma vez por ano, em certa data, escolhia um homem e o trazia até aqui. Sete anos. Sete homens. Um por ano. Apenas um, pois assim o maldito Merlin não descobriria a perfídia. Mas não quaisquer homens. Ah, não! Eu precisava da nata da ganância, da covardia e da deslealdade: assassinos, traidores, ladrões… Aqueles vis o suficiente para abrirem a porta. Verti o sangue dos sete neste local, conforme me foi dito.

Mordred segurou o cabo da espada com mais força e retesou os músculos. Caso alguma armadilha se apresentasse, não hesitaria em perfurar o corpo da mãe.

Morgana ajoelhou-se e cavou o solo com suas próprias mãos. Em poucos minutos encontrou o que desejava. Ergueu as mãos unidas sobre a cabeça e nelas Mordred viu um crânio humano que estranhamente emitia um pálido brilho vermelho. Morgana entoou rimas numa língua que o cavaleiro desconhecia, enquanto depositava o crânio sobre o solo. Com as mãos livres, ela puxou segurou a túnica de Mordred, puxando-o levemente para o chão, indicando que ele também deveria se ajoelhar. O cavaleiro obedeceu sem questionar.

– Morgana… – sussurrou o crânio.

Mordred temeu ter enlouquecido. Por um instante cogitou a possibilidade de estar tendo um pesadelo, ou mesmo morto.

– Morgana Le Fay… Obedecestes ao que te ordenamos. Podes te dirigir a nós – continuou a aparição sobrenatural.

– Mestre. Sabes o que desejamos – disse Morgana.

– Dize com tua própria língua, mulher – esbravejou o crânio.

– A morte de Artur! – respondeu sem hesitar a irmã do rei.

– De que nos interessam tuas vontades?

– Posso atender tua vontade também, mestre!

– De que forma tu, pequena mulher, podes nos atender?

– Artur é protegido por alguém… especial. Alguém que o mantêm constantemente sob seu olhar e que não me permite nenhuma investida!

– Falai sem enigmas ou sofrerás nossa ira.

– Merlin! Artur é protegido por Merlin! Este tu bem conheces, mestre!

Mordred teve a impressão de que o brilho avermelhado aumentou e crepitou furiosamente no fundo da gruta.

– Maldito seja este nome. E maldita sejas tu, que o pronuncias em nossa presença.

– Sei onde ele se encontra, mestre. E posso mostrar a vós!

– Atentai para tuas ordens, mulher audaciosa. Levai este pó que repousa sob teus pés e fazei com que o maldito pise-o. Assim saberemos onde ele está, pois seus encantos de ocultação serão desfeitos e finalmente, após tantos anos, poderemos alcançá-lo.

– Assim farei, mestre. Assim farei.

– Faças isto e terás como retribuição o desejo mais profundo de teu coração negro. Merlin será meu, e teu odiado irmão-rei ficará exposto para teu veneno.

– Será com ordenas, mestre.

– Ai de ti, mulher. Agora parte.

Uma corrente de vento espectral varreu o local, fazendo com que o crânio apagasse como uma sinistra vela. Mordred sentia seu coração saltar alucinadamente dentro do peito e uma náusea cortava seu estômago. Aguardou pelo movimento de Morgana antes de levantar-se. A bruxa retirou da manga de seu longo vestido um lenço azul e abriu-o no solo à sua frente. Em seguida, juntou com as mãos um pouco do pó do chão da gruta e colocou sobre o lenço, logo o amarrando como uma pequena trouxa. Ergueu-se com certa dificuldade. A experiência parecia ter exigido tanto de seu corpo físico quanto de sua alma. Sem dizer nenhuma palavra, Morgana e seu filho voltaram-se e caminharam lentamente de volta para a saída da gruta.

Somente quando puderam ver as estrelas da noite que já banhava o mundo foi que Mordred conseguiu abrir a boca.

– Morgana… O que foi aquilo?

Morgana apoiou-se numa árvore próxima e inspirou profundamente o ar da noite antes de responder.

– Era Belial, o pai de Merlin.

***

Sobre Alex Nery

Comecei escrevendo fanfics Marvel/DC e hoje escrevo contos de terror, suspense, ação e humor. Sou fã de Stephen King, Bernard Cornwell, Anne Rice e Neil Gaiman, entre outros. Também acho que o Batman dá surra no Capitão América, e com folga.

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