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A Balada do Traidor – Parte 02

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Londres, 2055

Mordred abriu os olhos assustado. Levou um instante para relembrar onde estava. Praguejou ao perceber que havia caído no sono. Olhou o relógio do uPAN e percebeu que perdera quase trinta minutos. Maldito cansaço. Estava correndo a horas, desde que resgatara o bebê da Unidade Materna de Hampstead. Levantou-se e conferiu o estado de Artur, que repousava dentro da manta isolante sobre a mesa. O bebê parecia tranquilo. Com um clique no botão, Mordred fechou a manta novamente. O aparato acolchoado manteria Artur aquecido e seus filtros de ar deixariam com que respirasse normalmente. O fugitivo atravessou a alça no peito, sobre o ombro esquerdo e abraçou o pacote. Consultou o GPS mais uma vez. Percebeu que teria que atravessar cinco quarteirões até alcançar o Tâmisa, onde seu contato deveria estar esperando. Esperava que não houvesse grandes modificações entre o que era mostrado no mapa defasado e a realidade.

Empurrou a estante e abriu a porta alguns centímetros. Não viu nem ouviu nenhum sinal de movimento. Saiu cautelosamente do esconderijo, observando alternadamente os dois lados do beco. A chuva havia diminuído bastante, mas provavelmente ainda duraria até o amanhecer. Começou a caminhar com passos apressados pela rua secundária, a via mais curta para chegar ao rio.

Percebeu que alguns banners com a foto do Imperador estava pichados. Algum moleque corajoso havia escrito palavrões sobre a figura do ditador. A inocência do protesto fez Mordred sorrir. Lembrou-se de quando era um adolescente. Um dos muitos adolescentes criados nos internatos do império. Assim como a maioria deles, quando atingiu a maioridade foi forçosamente alistado no exército imperial e, após anos de treinamento, enviado para lutar nas Guerras Continentais. Naquela época ele nem mesmo se chamava Mordred, e com certeza debocharia de qualquer menção ao sobrenatural, mas isso logo mudou quando, foi mandado dois meses atrás para combater os rebeldes poloneses.

Corriam boatos de que os russos estavam municiando os rebeldes, numa tentativa de minar o poderio do Novo Império Saxão em suas fronteiras e isso só fazia aumentar o ódio do Imperador. Milhares de soldados eram enviados toda semana para o front. Já haviam passados seis meses de sangrentos combates e as perdas tanto do lado imperial quanto do lado separatista eram grandes. O batalhão de Mordred estava perdido em Gdansk. Os rebeldes haviam conseguido cortar sua retaguarda, isolando-os do restante do exército. Restavam vinte e dois homens famintos rezando por um resgate que não parecia próximo.

Foram cinco dias de cerco ininterrupto. Os poloneses buscavam minar a resistência dos soldados imperiais, e estes sabiam que os rebeldes não tardariam a desferir o ataque final. Por acaso do destino, o capitão imperial no comando descobrira uma saída subterrânea que poderia levá-los para fora do cerco inimigo. Designou então Mordred para checar a saída.

Mordred saltou para dentro do alçapão encontrado na velha fábrica que servia de refúgio para os imperialistas. O túnel possuía uma altura de um metro e meio, e largura de igual tamanho. Era escorado por uma aparentemente sólida estrutura de madeira. O soldado acendeu a lanterna e mal começara a rastejar pelo túnel, quando uma forte explosão lhe arremessou para frente. Mordred perdeu os sentidos, e quando voltou a si, estava mergulhado na mais completa escuridão. Tateou pelo caminho em busca da lanterna e a encontrou um metro à sua frente. Ao acendê-la, percebeu que o túnel atrás de si havia desabado, provavelmente devido ao bombardeio polonês. Seus amigos estavam definitivamente perdidos. Só lhe restava seguir adiante, rastejando pelo caminho.

Perdeu a noção do tempo que permanecera ali. Rastejou em silêncio, chorou, praguejou contra os poloneses, contra o império, contra o mundo. Parou várias vezes, pensando em abandonar-se no caminho. Sentia-se morto e enterrado.

Num destes momentos, algo estranho aconteceu.

A luz da lanterna não mostrava fim algum do túnel. Chegou a tentar adivinhar quais motivos fariam alguém construir um túnel tão longo, e com medidas tão limitadas. Desistiu. Não importava o motivo, o que importava era que aquele era o único caminho para uma possível salvação, afinal, ele deveria ter uma saída. Ou não?

Arrastou-se por mais alguns metros. Uma brisa morna passou por seu rosto e renovou seu ânimo. Ar! Havia então uma saída próxima.

Subitamente a lanterna apagou-se.

Deu leves pancadas no aparelho. Apertou o compartimento das baterias. Era impossível que elas tivessem acabado, pois sua carga normalmente duraria meses. Sentiu um medo avassalador percorrer seu corpo.

Da escuridão total, ouviu uma voz que dizia:

– Mordred… Mordred…

Sacou a pistola que trazia à cintura e clicou no botão que a deixava pronta para disparo.

– Q-quem está aí? – murmurou sem confiança.

– Mordred… Mordred…

Instintivamente apontou a pistola para a escuridão à sua frente. Um violento tapa invisível arrancou a arma de sua mão. Gemeu sentido dores com se tivesse socado uma parede de concreto.

– Quem está aí? QUEM? – o pânico apertava-lhe a garganta.

– Tu estás morto, Mordred. Morto, novamente… – disse a voz vinda de lugar algum, agora reconhecidamente masculina.

– Q-Quem?…

– É um destino digno de ti. Morrer como um rato. E não é a primeira vez.

– N-não entendo… Não entendo!

– Entenderás.

Dedos frios e invisíveis tocaram seu rosto de cima a baixo. Mordred sentiu cada um deles como pinças de gelo queimando sua carne. O frio era insuportável. Gritou em agonia e contorceu-se no estreito corredor. A dor se prolongou por instantes infinitos, e quando cessou, sua mente estava inundada por imagens, sons e cheiros que jamais sentira na vida.

Viu um imponente castelo. Sabia que o dono dele era um rei forte e leal e, ao mesmo tempo, sabia que odiava aquele homem. Viu também uma mulher amarga, que invariavelmente trajava negro, dizer-lhe coisas terríveis. Viu a si mesmo aceitar e compactuar com propósitos vergonhosos. Lembrou-se de executar o plano de Morgana, espalhando a poeira da gruta pela biblioteca que era sempre frequentada por Merlin. Quando o mago dera o primeiro passo dentro do ambiente, fora irremediavelmente capturado na armadilha e desaparecera numa nuvem de enxofre. Sem a proteção de Merlin, viu o pai mergulhar em uma crise após a outra: primeiro o desaparecimento de seu tutor, depois a descoberta da traição de Guinevere e Lancelot, e, por fim, o combate mortal contra o próprio filho, combate este que custara a vida de ambos. Teve plena consciência do traidor que era. Descobriu que era Mordred, o lendário filho traidor, fruto de uma zombaria do destino, que unira seu pai Artur Pendragon e sua mãe Morgana Le Fay, ambos irmãos, ambos pecadores, todos vítimas de um dramático e insensato plano de vingança.

Mordred viu a si mesmo em várias outras vidas. Pobre, rico, astuto, ignorante, homem, mulher, velho, criança, mas com um ponto em comum entre todas as passagens.

Uma morte horrível, seguida do esquecimento.

O soldado perdido chorou. Chorou por pena e vergonha de si mesmo. Chorou até que não lhe restassem mais lágrimas. Quando tudo o que podia se ouvir era o murmúrio de sua respiração irregular, a voz invisível novamente se fez presente.

– Tens compreensão de tudo agora, homem amaldiçoado.

Mordred encolheu suas pernas e tentou inutilmente cobrir-se com seus braços. Queria que a voz desaparecesse, mas ela não se calou.

– Participaste de uma trama sórdida, que te custou a eternidade. Pensavas que farias acordos com as trevas e elas te deixariam partir sem dano algum? Tua alma foi maculada, pois buscaste a marca do traidor.

– E-eu… Eu não sabia!

– Claro que não sabias. Eras um tolo presunçoso.

– Eu quero morrer! Quero esquecer!

– Ainda podes. Mas tenho outra coisa em mente.

– Quem está aí? Eu enlouqueci?

– A semente da loucura está plantada em ti desde tua primeira passagem por esta terra. E ela foi regada por tua sombria mãe.

– M-minha mãe? Como assim?… – as lembranças das vidas anteriores se amontoam na mente de Mordred, confundindo-o. Num esforço, ele tenta organizar suas ideias para não ser tragado pelo turbilhão que gira alucinadamente dentro de sua cabeça. – MORGANA! Sim, eu lembro! Oh, Deus… quero esquecer isso tudo…

– Não podes esquecer. Muito pelo contrário, deves lembrar-te. É aí que reside tua única chance.

– Chance de quê?

– De salvar-te. De recuperares a tua alma. De quebrares o ciclo.

– Eu faria QUALQUER COISA!

– Escuta, Mordred, filho de Artur. As ações perniciosas que engendraste juntamente com tua mãe custaram muito ao mundo. Artur é uma alma iluminada. Iluminada como poucos. Tuas ações privaram o mundo de todo o bem que ele traria à Grã-Bretanha, iniciando uma série de eventos que hoje desembocam na desastrosa existência do império do qual vestes o uniforme. Um império baseado no sangue e na devastação. Uma abominação que consumirá o mundo numa guerra como nunca se viu antes.

– O que eu posso fazer? Não posso fazer nada!

– Tens uma missão. Desta vez, uma missão que busca reparar tua grave falta. Deves encontrar Artur e protegê-lo.

– Encontrar o rei Artur? Como?

– Os deuses são caprichosos. Assim como as ondas vêm e vão, as almas também. Não só tu retornaste, mas Artur também.

– Retornou? E onde ele está?

– Ele está na capital de teu império. Dormindo junto a outros infantes.

– Infante? Quer dizer, uma criança?

– Eu disse que os deuses são caprichosos. Sim, Artur é uma criança. E tu és o adulto que deve protegê-lo até a hora certa. Deves protegê-lo com a tua vida, se necessário. Só assim tua dívida estará paga e poderás descansar.

– Quem é você, afinal? É o meu inconsciente? Estou louco?

– Já fui chamado de louco, mas sempre pelas minhas costas. Os homens geralmente eram sábios em não me provocar.

– Já chega. Diga-me quem é ou acabe logo comigo aqui mesmo…

– Tuas ameaças me fariam rir, caso eu ainda possuísse algum senso de humor. Mas está bem, se isso te fará levantar e prosseguir com tua missão, eu digo-te meu nome… sou Merlin, de Caer-Fyrddin.

– Merlin… é claro…

– Ousa duvidar?

– Se é realmente Merlin, ou seu espectro, por que não vai você mesmo salvar Artur? Não possui poderes fantásticos?

Um vento gelado rodopia no túnel, levantando poeira e cascalho. Mordred protege os olhos com as mãos, enquanto uma figura fantasmagórica surge atravessada no caminho, com as costas apoiadas na lateral de madeira. O soldado aos poucos vai conseguindo definir a figura, que tremeluz como um holograma na escuridão do local.

O homem extremamente magro e sem roupas está preso por grossas correntes que envolvem seus braços, pernas e pescoço. Sua aparência é de abandono total.

– Levei centenas de anos para reunir as forças necessárias para despertar a ti e a outros. Mais do que isso não poderei fazer, pois meu pai é muito severo em seus castigos, hahahahaha…

A risada macabra preencheu o túnel. Mordred levou as mãos aos ouvidos tentando bloqueá-la, mas era inútil.

– Meu tempo se esgota. Segue adiante, Mordred. Redime teu nome e tua alma agora ou aceita teu cruel destino imortal. Avança e encontrarás a saída. É só o que tenho para ti.

E dito isto, o fantasma desapareceu, deixando o soldado atônito.

Ainda incrédulo, Mordred rastejou por mais meia hora quando, por fim, encontrou a saída do túnel maldito. A saída era ocultada por um grande galpão, situado a mais de seis quadras do cerco polonês. Correu e afastou-se da cidade, conseguindo reunir-se com o exercito imperial no dia seguinte, febril e alucinando.

Seis dias depois foi providencialmente enviado de volta à Inglaterra após os médicos do regimento atestarem que não estava em seu juízo perfeito, pois não conseguia dormir e ficava horas falando coisas sem sentido, relembrando coisas vividas certamente por outras pessoas. Suas ordens lhe diziam para aguardar em Londres pelo trâmite dos documentos que dariam sua dispensa do serviço militar.

Mal desembarcara no porto de Londres decidiu seguiu as pistas que Merlin havia implantado em sua mente até alcançar Artur na Unidade Materna de Hampstead.

Conseguira usar suas credenciais militares para entrar na unidade sob pretexto de procurar um parente perdido. Com alguma agilidade localizara o bebê. A criança não tinha pais conhecidos e havia sido abandonado no posto médico cinco dias antes. Estava destinado ao orfanato estatal, de onde, se sobrevivesse, seria fatalmente encaminhado à carreira militar na adolescência.

Ainda sob o manto de suas credenciais, conseguira escapar da unidade levando a criança. Por se tratar de um militar, ninguém suspeitou de sua visita num horário incomum, porém quando saiu do local percebeu que o toque de recolher já havia soado. Devia procurar abrigo imediatamente, caso contrário seria detido e interrogado. E neste caso achava pouco provável alguém acreditar em sua história.

Mal havia percorrido duas quadras de distância da unidade materna quando seu uPAN vibrou com uma ligação. Estranhou de imediato, pois o aparelho era novo e ninguém possuía aquele número. Com as mãos tremendo, atendeu a chamada.

– Quem é? – perguntou nervoso.

– Sou uma amiga. Estou aqui para ajudá-lo.

– Não sei quem está falando. Vou desligar.

– Não faça isso, Mordred.

Ao ouvir seu “novo” nome, parou estático em plena calçada.

– O que disse?

– Mordred. Eu disse “Mordred”. É o seu nome, não é?

– N-não… Quero dizer… é…

– Eu sei de tudo. Estou aqui para ajudar a resgatar o bebê.

– Como saberei que posso confiar em você?

A mulher do outro lado da linha disse um nome. E Mordred esqueceu completamente as dúvidas quanto a sua falta de sanidade.

Percorreu vielas e becos apressadamente, constantemente desviando o caminho para escapar dos postos de fiscalização e das patrulhas aéreas que, com seus holofotes, vasculhavam cada canto da cidade. Sequestro já era um crime grave o bastante. Não precisava acrescentar resistência à prisão ou, quem sabe, a morte de algum policial ou militar.

***

                As lembranças pesavam na mente de Mordred. Os últimos dias haviam sido estarrecedores, sua vida havia dado uma reviravolta. Mas, estranhamente, algo em seu interior dizia que agora ele estava desempenhando o papel que lhe cabia. Ele não conseguia afastar a sensação de que finalmente estava realizando uma tarefa que já havia sido adiada por tempo demais. O bebê em seu colo seria levado para longe do império. No mínimo ele o estava salvando de uma vida militarista como a sua, e isso já o fazia sentir bem. Por outro lado, se ele não estivesse louco, estava desempenhando um papel fundamental no futuro do mundo. Estava contribuindo para o surgimento de uma alternativa à opressão fascista do governo do Imperador Max Dittrich. Lembrou-se da lenda de Artur, aquela que afirmava que ele voltaria quando seu povo mais precisasse. Rezou para que as lendas fossem verdadeiras.

Já podia ver o Tâmisa duas quadras abaixo. Segundo o uPAN, seu contato devia estar logo ali, aguardando com um barco.

Seu sorriso de satisfação foi arrancado de seu rosto quando um jato planador pousou verticalmente na rua à sua frente. O holofote da aeronave cobriu-o com luz da cabeça aos pés.

– Patrulha urbana: Erga os braços e permaneça onde está – ordenou a voz metálica vindo dos autofalantes externos do veículo.

Mordred levantou os braços devagar. Sua mente fervilhava.

Dois homens saltaram do planador. Um terceiro permaneceu no assento do piloto. Os dois militares caminharam até Mordred e o olharam inquisitivamente. Um deles carregava um fuzil nas mãos.

– Quero ver seus documentos, agora – exigiu o mais velho dos militares, um sargento de meia idade.

– Estão no meu bolso. Aqui em cima – respondeu Mordred.

– O que está fazendo nesta área proibida? – perguntou o sargento, revistando os bolsos de Mordred. Na revista encontrou o uPAN e a holoidentidade do fugitivo.

– Esqueci a hora e quando percebi já era hora do toque de recolher. Estava cortando caminho pra casa. Não quero problemas.

– Ninguém quer. Mas às vezes são inevitáveis – retrucou o militar inserindo a holoidentidade do fugitivo no leitor portátil que começou imediatamente a listar uma série de informações sobre Mordred – Hm, então é um soldado?

– Sim, senhor.

– E chegou há pouco… Polônia, hein? Deve ter sido dureza… Baixa médica…

– Foi bem difícil, senhor.

– E o que tem na bolsa?

– Como?

– O que tem na bolsa?

– Apenas roupas, senhor.

– Numa térmica?

– É para protegê-las da chuva.

– Sei. Abra-a.

Mordred baixou os braços sob o olhar vigilante dos dois militares. Descansou a bolsa térmica sobre o asfalto. Amaldiçoou-se por ser tão tolo a ponto de não portar nenhuma arma. Respirou fundo e hesitou.

– Abra a bolsa, soldado – insistiu o sargento.

O ronco do rasante de um planador atraiu a atenção de todos. O piloto do planador militar imediatamente dirigiu o foco do holofote para o intruso e todos puderam ver que não era uma aeronave do governo. Aproveitando a distração, Mordred saltou sobre o soldado que portava o rifle. Ambos rolaram pelo asfalto.

O sargento procurou pela pistola em sua cintura. No momento em que a encontrou, foi jogado ao chão por outro rasante da nave desconhecida. Mordred era mais forte que seu adversário. Conseguiu dominá-lo e, sem retirar o rifle de suas mãos, virou- o para o sargento e disparou uma saraivada de tiros que atingiu o homem em várias partes, matando-o instantaneamente. O piloto do planador acionou imediatamente o comunicador e convocou reforços.

No chão, o soldado tentava recuperar o rifle. Mordred deu-lhe uma coronhada tão violenta com o cabo da arma que sentiu o maxilar do homem deslocar-se. O soldado desmaiou.

Possuído por um renovado espírito de luta, Mordred correu para a aeronave militar antes que o piloto pudesse decidir entre partir em segurança ou tentar deter o adversário. Saltou sobre a aeronave, enfiando o cano do rifle para dentro da cabine, impossibilitando que o piloto pudesse fechar a porta. O cavaleiro reencarnado acionou repetidas vezes o gatilho da arma, fuzilando o piloto.

O planador civil pousou imediatamente, logo adiante da aeronave militar. Mordred sacou o rifle e esperou por algum sinal de hostilidade, mas foi surpreendido pela saída de uma bonita mulher morena, de cabelos encaracolados e corpo curvilíneo, que acenou para ele com gesto de urgência.

– Venha! Não vai demorar para que os reforços cheguem aqui!

– Quem é você?

– Sou seu contato! Guinevere!

Mordred correu e saltou para o asfalto. Com passadas largas chegou até a bolsa e apanhou Artur cuidadosamente. O menino chorava assustado com os tiros, mas estava bem. Levantou-se e correu para o planador de Guinevere.

Olharam-se com estranha familiaridade. Embora pudessem dizer que nunca tinham visto um ao outro, compartilhavam um elo que extrapolava a normalidade. Imediatamente relembraram sua convivência na época de Camelot e todo o rancor que existia entre eles, mas também lembraram-se das palavras de Merlin. Lembraram-se de que estavam em uma jornada de redenção.

– Entre. Vamos! – ordenou Guinevere.

Mordred entrou e logo tomou o assento mais próximo. Aninhou Artur em seu colo e fixou o cinto de segurança. Guinevere tomou o lugar do piloto e partiu aceleradamente. Com destreza manobrou por entre os prédios baixos, afastando-se do local do conflito. Fez vários rasantes buscando colocar obstáculos entre a sua aeronave e as patrulhas que cortavam o céu. Com extrema habilidade, conseguiu afastar-se e deixar as luzes de Londres cada vez mais para trás. Por fim puderam respirar mais aliviados.

– Para onde agora? Merlin só me disse onde Artur estaria – perguntou Mordred.

– Ele me deu instruções para buscá-lo e leva-los para a França – respondeu Guinevere.

– O que tem na França?

– Mais alguém em busca de redenção. Alguém que pode nos ajudar.

– Sabe quem é?

– Claro. Você o conhecia como Lancelot du Lac…

Seria uma reunião bem estranha, admitiu Mordred. Ele respirou fundo, buscando relaxar depois das últimas horas de tensão. Olhou para o bebê em seu colo e o acariciou ternamente.

– Não vou falhar contigo desta vez, pai.

FIM?

Sobre Alex Nery

Comecei escrevendo fanfics Marvel/DC e hoje escrevo contos de terror, suspense, ação e humor. Sou fã de Stephen King, Bernard Cornwell, Anne Rice e Neil Gaiman, entre outros. Também acho que o Batman dá surra no Capitão América, e com folga.

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