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As Crônicas do Último Cavaleiro – Capítulo 02

Passava do meio dia quando os dois homens se aproximaram do abismo negro, o cenário a sua frente diminuiria a coragem de qualquer pessoa. Um imenso buraco no solo rochoso, no lado esquerdo picos escarpados se erguiam ameaçadores até se perderem na camada de nuvens que até onde o cavaleiro podia lembrar sempre estiveram ali, aquela distância os picos pareciam prontos para tragar os mortais da existência terrena e naquele dia as nuvens estavam escuras contribuindo para aumentar a sensação de ameaça. Olhando para frente próximo a borda do precipício o solo irregular serpenteava em subidas e descidas com pedras pontiagudas cobrindo o chão e imensas rochas recortadas. Um terreno mais plano convidativo para a travessia e um ponto ideal para emboscar os desavisados seguia desviando dos obstáculos e em meio a tudo isso erguiam-se esporadicamente gigantescas colunas de rocha sólida como pilares de alguma construção monumental. Os dois homens desmontaram ao mesmo tempo e pararam frente ao abismo.

– Vamos descansar um pouco e depois seguimos pelo seu caminho. Disse o cavaleiro, o arqueiro ajeitou a arma nos ombros claramente desconfortável.

– Realmente quer fazer isso? Perguntou Javal espiando pelo canto dos olhos, o cavaleiro assentiu.

– Viemos até aqui, não vou voltar atrás agora. O arqueiro suspirou e sorriu.

– Admiro seu senso de honra Sir mas devo dizer que isso é loucura. O cavaleiro também deixou um pequeno sorriso deformar o rosto.

– Acredite-me, em circunstâncias normais pensaria duas vezes antes de atravessar esse lugar amaldiçoado, mas agora a pressa força-me a ser menos cuidadoso. Conto com sua ajuda.

– E a terá, mesmo assim não gosto disso. O cavaleiro segurou o ombro do homem antes de se dirigir as sacolas de viajem, recuperou parte da comida e a dividiu em duas porções estendendo uma para o arqueiro.

– Para quanto tempo você ainda tem mantimento? O cavaleiro fez um rápido cálculo mental antes de responder.

– Para duas pessoas racionando em quantidades pequenas eu diria que para dois dias no máximo.  Comeram em silêncio tomando goles da água do riacho que já começava a pegar o gosto de couro curtido dos cantis, os dois cavalos pastavam a vegetação rala que crescia em tufos na beira do abismo, os homens deram água aos animais racionando para enfrentar a dura travessia. Algum tempo depois ajeitando as celas partiram rumo ao picos escarpados, demorou mais algumas horas até o arqueiro puxar as rédeas forçando sua montaria a parar. O cavaleiro parou a seu lado vendo um caminho aberto na rocha. O arqueiro desmontou e afagou seu cavalo.

– A partir daqui vamos a pé, é arriscado para os cavalos andarem com um homem montado. O cavaleiro desmontou girando os olhos pela paisagem que se desenhava. Em um acordo silencioso os dois homens puseram-se em marcha seguidos pelos animais que resfolegavam nervosamente. O cavaleiro estendeu a mão para a cabeça de seu cavalo.

– Sei como se sente companheiro mas precisa ser corajoso agora. O animal ficou mais calmo ao ouvir a voz do dono.

– Acho estranha a sua maneira de falar com o cavalo, e mais estranho ainda o fato dele parecer entender. O cavaleiro assentiu.

– Ele descende de uma estirpe nobre de grandes guerreiros, esse aqui já viu muita coisa e salvou minha vida muitas vezes.

– Acredito em você Sir, posso dizer o mesmo desse meu companheiro aqui. Seguindo pelo caminho em uma curva que os aproximava perigosamente do penhasco uma ave passou precipitando-se pelo céu, o cavaleiro apertou os olhos para poder vê-lo melhor.

– Um abutre? O arqueiro parou para olhar e falou de forma sombria.

– Algum viajante desprevenido com certeza deve ter virado um banquete digno de um rei lá embaixo.

– Isso significa que não estamos sozinhos. O arqueiro assentiu.

– Estamos seguros por enquanto, vamos nos apressar. Mais alguns abutres se uniram ao primeiro enquanto o cavaleiro retomava a marchar, em um deslize da pata do cavalo uma porção de rochas se soltaram de plataforma onde estavam e rodopiaram perdendo-se no espaço, o cavalo assustado empinou sobre as patas traseiras forçando o cavaleiro a segurar as rédeas com força para acalmá-lo.

– Oooouuaaa… calma rapaz. O cavaleiro contornou o cavalo para ver melhor o que tinha acontecido e o trecho desabado vez sue coração falhar uma batida.

– Tudo bem? Perguntou o arqueiro.

– Sim, foi só o susto. O homem concordou com a cabeça.

– Tome cuidado, esse caminho é traiçoeiro.

– Entendi. Seguiram com cuidado mais algumas horas, o caminho serpentava hora em passagens largas hora em estreitas plataformas perigosamente suspensas sobre o abismo onde a passagem devia ser feita com cuidado redobrado e o mínimo erro causaria a morte certa. Outras seções eram protegidas com um corrimão natural de rochas. O vento uivava contra as pedras o que forçava os dois viajantes a erguerem as vozes para se comunicar. Paravam de tempos em tempo para descansar e tomavam um pouco de água para logo depois seguirem adiante no caminho. Era quase o fim da tarde quando o eco de passos e o som de cavalos chegou aos ouvidos dos dois homens amplificados pela formação do penhasco. Amarraram os dois cavalos em uma seção larga do caminho e seguiram um pouco adiante onde o caminho fazia uma curva acentuada. Buscaram a melhor posição escondidos por rochas e espiaram para baixo vendo uma grande multidão de homens e carroças seguindo pelo caminho do abismo. Não foi difícil identificar os estandartes vermelhos com o brasão real tremulando ao vento.

– Deve haver algumas centenas deles. Disse o arqueiro, o cavaleiro grunhiu uma resposta cobrindo melhor a armadura com a capa surrada para que o reflexo não os denunciasse.

– Para estarem na nossa frente eles devem ter vindo do oeste. O cavaleiro concordou.

– Estão indo para o sul. Os dois homens seguiram a movimentação com os olhos, o caminho estava bloqueado pelas rochas em uma formação que só poderia ter sido feita pelo homem, o exército parou.

– Não tem como passar. O cavaleiro pediu silêncio com um gesto e os dois homens observaram uma carroça ser posicionada em frente as rochas, ela estava coberta por uma lona cinzenta. Alguns soldados correram para ela e tiraram à lona revelando seu conteúdo, um enorme cilindro de metal, o cavaleiro prendeu a respiração e sussurrou de forma estrangulada.

– Que o Senhor tenha piedade de nossas almas. O arqueiro o encarou seriamente antes de desviar os olhos novamente para a ação que se desenrolava no abismo. Os cavaleiros e homens a pé se afastaram da carroça. Depois outro homem se aproximou dela com uma tocha, encostou-a no cilindro de metal e saiu correndo, segundos depois eles ouviram um estampido e o obstáculo de rocha explodiu levantando uma nuvem de pó para o céu, o som amplificado pareceu com um trovão explodindo e ecoando por toda a região. O arqueiro tentou se afastar mas foi impedido pelo cavaleiro que segurou seu braço, sobre o som de trovão relinchos de cavalos eram distinguíveis.

– Que instrumento do demônio é aquele? Perguntou o arqueiro, o cavaleiro permaneceu em silêncio com as mandíbulas travadas enquanto os homens do rei cobriam o cilindro e se apressavam para remover os escombros sob as ordens de um cavaleiro armado que parecia ser o líder o exército.

– Aquilo é nova arma do rei, a arma que causou a destruição do último feudo do norte e nossa derrota na batalha contra o exército de Guilherme. Foi construída para destruir fortalezas, eles chamam de canhão.

– Deus, como nos defendemos contra esse tipo de poder?

– Impedindo que eles o utilizem. Falou o cavaleiro gravemente, afastando-se da borda Mauric levantou e seguiu de volta para onde estavam os cavalos.

– Esse é o conteúdo de sua mensagem? Perguntou o arqueiro seguindo o homem que parou para encará-lo.

 – Compreende por que devo chegar ao feudo do sul a todo custo? O arqueiro assentiu.

– Vamos nos apressar. Javal começou a andar mas parou ao notar que o cavaleiro não o estava seguindo, virou para o homem estava de costas olhando na direção do abismo.

– Precisamos atrasá-los, existem muitas pequenas aldeias no caminho que apóiam os rebeldes e que serão arrasadas se não fizermos nada.

– Somos dois contra centenas e aquelas coisas, viu as carroças, devem ter no mínimo seis daqueles canhões como você os chamou, precisamos de um ótimo plano ou terminaremos mortos e o sul estará perdido. O cavaleiro voltou-se para o arqueiro.

– Vamos pensar em alguma coisa, quanto tempo até o fim desse caminho?

– Um dia e meio. O cavaleiro suspirou resoluto.

– Faremos em um, e pensaremos em um plano nesse meio tempo. Quando chegaram ao local onde haviam amarrado os cavalos retornaram a marcha agora muito mais urgente.

Sobre HollowNando

Programador analista de sistemas, escritor nas horas vagas e entusiasta da literatura.