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As Crônicas do Último Cavaleiro – Capítulo 01

O cavaleiro avançou lentamente pela planície deserta, o silêncio quebrado apenas pela marcha do cavalo contra o chão rochoso e o tilintar da armadura sobre a capa desbotada cujo

brasão a muito passara do ponto identificável, não que o homem sentado na cela realmente se importasse sendo ele o único de sua ordem ainda vivo depois da campanha no norte. Sentia a garganta seca e os olhos pesados depois de viajar por tanto tempo em direção ao último feudo do sul, tinha esperanças de os defensores terem sido mais bem sucedidos lá. Carregava nos ombros as lembranças dos companheiros caídos em combate mas seu coração estava tão seco quando sua língua. O cavalo bufou e ele deu tapinhas no pescoço do animal para tranquilizá-lo.

– Sim, também estou cansado companheiro, só mais um pouco e acampamos. O cavalo balançou a cabeça como se concordasse e ele se permitiu sorrir pela primeira vez em dias. Marcharam em silêncio por mais um par de horas antes do cavaleiro forçar sua montaria a parar. Ficando em pé nos estribos forçou a vista e apurou os ouvidos protegendo os olhos com a mão. O ruído calmo era quase inaudível mas fez seu coração bater mais rápido. Sentou na cela contendo um gemido de dor quando as articulações maltratadas reclamaram do esforço. Puxou levemente as rédeas e guiou o cavalo em direção ao som, enquanto se aproximavam o som se tornou mais audível e o cavalo agitando as orelhas acelerou de forma espontânea, com energia renovada o animal troteou seguindo o som enquanto o cavaleiro se ocupava apenas em permanecer na cela.

– Um riacho, louvado seja o Senhor. De um golpe deslizou da cela e andou até a beira do riacho aos tropeções, arrancando as luvas com os dentes caiu de joelhos e formando uma concha com as mãos bebeu desesperadamente a água fresca e cristalina. O cavalo baixou gentilmente o pescoço e bebeu longos goles a seu lado.

– Beba o quanto quiser meu amigo, você merece. O cavalo resfolegou satisfeito enquanto o cavaleiro sentava a beira da água aproveitando para lavar o rosto, depois suspirou vendo as nuvens passar no céu.

– Acampamos aqui. A noite caiu lentamente sobre a planície enquanto o cavaleiro planejava seu acampamento, por motivos de segurança resolveu não fazer uma fogueira que poderia denunciar sua posição a quilômetros de distância. Contentando-se com rações frias e água fresca ajeitou a capa surrada da melhor forma possível para dormir. O sono veio de forma agitada, depois de meses passados nos campos de batalha os gritos e gemidos dos feridos haviam gravado-se em seu espírito e mesmo no meio do mais completo silêncio ele ainda os ouvia junto com a recomendação do grão-mestre para seguir o mais rápido possível até o barão com a mensagem que poderia mudar o destino da guerra contra o tirano rei Guilherme. O velho e sábio homem havia morrido para dar a ele a chance de escapar com a mensagem por isso ele não podia falhar, precisava chegar ao centro do poder dos rebelados e comunicar sua mensagem ao barão antes que fosse tarde. Com esses pensamentos ainda girando em sua mente ele escorregou para a escuridão e a inconsciência embalado nos gemidos dos feridos em combate.

O cavaleiro não soube dizer se na manhã seguinte foi o cavalo ou os instintos apurados de soldado que o despertaram para a presença de outro ser humano próximo a seu improvisado acampamento aproximando-se pelas costas, entreabriu os olhos mantendo as pálpebras levemente fechadas e alcançou sua espada deslizando a mão lentamente para fazer o menor ruído possível. Então com um fôlego levantou-se com a arma desembainhada para a surpresa de seu oponente.

– Amigo ou inimigo? Perguntou o cavaleiro impondo na voz um tom firme de comando. O homem usando uniforme dos arqueiros do sul e com a aljava e o arco a tiracolo levantou as mãos em frente ao corpo em posição defensiva e falou de modo apaziguador.

– Acalme-se cavaleiro, não tenho intenção de ferir ninguém.

– Mesmo? Então por que carrega esse arco? O arqueiro sorriu.

– Certo, talvez não hoje. Como se chama? Já faz dias que não vejo nenhuma alma viva por essas planícies. Ainda mantendo a espada em prontidão o cavaleiro respondeu seco.

– Me chamo Mauric, e você? Quem o enviou? O arqueiro assentiu levemente com a cabeça antes de responder.

– Sei o que quer dizer mas não sou um dos homens do rei, me chamam Javal e venho dos feudos do oeste. Será que o Sir poderia abaixar essa arma? Espadas me deixam um pouco nervoso, principalmente quando apontadas contra mim. Hesitante o cavaleiro abaixou sua espada sem tirar os olhos do arqueiro que também baixou as mãos e deixou-as penduradas ao longo do corpo.

– De onde o senhor vem Sir?

– Do norte. Respondeu ele sentindo a garganta arranhar.

– Norte? Meus sentimentos, muitos homens bons tombaram lá pelas notícias que correm no reino. O cavalheiro assentiu gravemente.

– Todos tivemos nossa cota de destruição, soube sobre o oeste. O arqueiro suspirou.

– Realmente, estava viajando rumo ao sul antes de encontrá-lo Sir, vejo que vai na mesma direção. O cavaleiro embainhou a espada e a prendeu na cintura ainda vigiando os movimentos do arqueiro pelo canto dos olhos.

– Tenho uma missão a cumprir no sul.

– Entendo e se quer meu conselho devia viajar rumo ao leste, nessa direção você chegará ao abismo negro, ir para lá não é boa idéia principalmente nessa época conturbada. O cavaleiro se voltou para o acampamento e começou a remexer nas sacolas de viajem, em minutos retirou uma refeição fria e se pôs a comer sentado sobre a capa.

– Conheço todas as histórias das emboscadas e mortes violentas do lugar, mas não tenho tempo para um desvio tão longo. Se eu seguir primeiro para leste e depois voltar para o sul vou perder dois a três dias de viajem e tempo é uma coisa que não tenho para gastar à toa. O cavaleiro parou para encarar seu interlocutor e o notou olhando sua parca refeição com inveja.

– Perdoe-me a grosseira arqueiro, por favor, sente-se e coma não tenho nada além de rações mas é melhor do que passar fome. O arqueiro tirou o arco do ombro, depois sentou-se cruzando as pernas e esticando os ombros doloridos.

– Acredite-me Sir, na minha situação atual este é um verdadeiro banquete, agradeço sua generosidade. Terminou fazendo uma mesura e atacando a comida com vontade, o cavaleiro sorriu antes de colocar mais alimento na boca. Comeram em silêncio por alguns minutos antes do arqueiro falar.

– Se está mesmo disposto a arriscar talvez eu possa ajudá-lo, poucas pessoas sabem sobre a passagem por fora do abismo, é bastante íngreme e difícil de ver se você não a estiver procurando com cuidado.

– Uma passagem? Perguntou o cavaleiro.

– Sim, por ser pouco conhecida é mais segura, não tanto em termos de caminho mas pelo menos evitamos possíveis emboscadas de homens fiéis ao rei. Eu serei seu guia com prazer. O cavaleiro considerou a questão, secretamente ele sabia que corria sério risco de morrer na tentativa de atravessar os abismos e sabendo que o oeste já fora tomado pelas tropas de Guilherme imaginava que encontraria resistência naquele lugar. Se houvesse um caminho alternativo que lhe poupasse o tempo dos enfrentamentos… Também considerou a possibilidade desse desconhecido o guiar direto para uma armadilha.

– Se formos por esse caminho em quanto tempo atravessamos o abismo? O arqueiro franziu a testa considerando a questão antes de responder.

– Sem nenhum incidente grave em um ou dois dias. O cavaleiro ficou em silêncio novamente, Javal sabia que o homem lutava em seu íntimo entre a desconfiança e o senso de dever. Por fim ele se pronunciou mais uma vez e Javal percebeu que o dever estava acima de sua própria segurança, essa era uma característica que ele sempre admirava nos cavaleiros.

– Vamos fazer isso, partimos o quanto antes. O arqueiro sorriu e depois comeu o último bocado de sua refeição finalizando com um gole de água fresca.

– Muito bem, verá que em pouco tempo estará no feudo com sua missão cumprida e deliciando-se na volúpia das donzelas do sul e eu garanto meu amigo, o próprio rei Guilherme daria seu trono pelos lábios de uma daquelas lindas moças.

-Então talvez devêssemos colocá-las nas linhas de frente. Respondeu Mauric arrancando uma gargalhada do arqueiro. O cavaleiro olhou para trás uma última vez com uma promessa silenciosa nos olhos, depois os dois homens partiram rumo aos desafios que os esperavam no abismo negro e no caminho do feudo do sul, o quartel-general dos rebeldes.

Continuará…

Sobre HollowNando

Programador analista de sistemas, escritor nas horas vagas e entusiasta da literatura.