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Escrever, por quê? Um texto sobre tempos bicudos

snoopy

Se existe uma expressão que me tem procurado várias vezes, desde que me propus a escrever, é o tal do porquê. Com frequência maior que o razoável, surgem-me questionamentos acerca dos motivos para se fazer ou não algo. São dúvidas que surgem em diferentes momentos, por variados motivos e, não raro, vêm do convívio com os amigos, de alguma conversa ou pergunta direta.

Dentre essas questões, uma me intriga em especial, provavelmente pela minha incapacidade em respondê-la: por que escrever?

Em mais de um momento e por mais de um motivo, essa pergunta já me atazanou o juízo, fez perder a fome, o sossego, a concentração e, ainda assim, não tenho uma resposta. Sinto que escrever é como colher palavras: tal qual frutos no campo, elas estão disponíveis para quem as queira usar; entretanto, perecem. Imagino se isso possa estar relacionado à massificação das ideias, que a bem da verdade são a raiz de tudo quanto se escreve.

Enfileirar as letras, utilizar a gramática e criar um estilo que lhe seja próprio parecem-me as partes menos dolorosas do processo de criar um texto. O complicado é ter o que dizer. Talvez nem isso seja o mais difícil. Quem sabe o cerne de toda escrita seja a coragem de dar forma ao entendimento. E mais: creio que o fundamental seja assumir as próprias opiniões, sendo fiel, verdadeiro, justo, compassivo e, ai sim, viver de acordo com o que se acredita.

Convenhamos: numa época de padronização do pensamento, em que as pessoas tendem à superficialidade nas relações, discursos, atitudes e valores, encontrar quem queira refletir é cada vez mais raro. Numa de suas letras, o cantor Almir Sater – por cuja música eu sou absolutamente fascinada – diz “muita gente dá lição com cultura de almanaque”. Não discordo. E nem digo que estou isenta. Talvez esse seja o ponto em que volto à pergunta que originou todo o texto: por que escrever?

Sinceramente, leitor, não sei. Continuo sem conseguir acessar essa resposta. Tenho alguns motivos que movem, como a necessidade de organizar o raciocínio, a inquietude da mente e algo como um “transbordar de vida” que me impele a colher palavras e colocá-las dispostas de uma maneira mais ou menos inteligível.

Escrever me faz bem. É a vida tentando virar arte, de um jeito pouco linear e muito pessoal. É o pensamento  atrevido e irrequieto querendo a todo custo ser página. É uma personalidade que do lado de cá da tela não se contém e pula a janela, foge da mente, se esvai pelos dedos, digita e se expõe. São as palavras, esses grilhões tão efêmeros quanto bolhas de sabão, aos quais nos atrelamos voluntariamente.

E se é verdade que tudo já foi feito, dito, pensado e escrito, perdoe-me o leitor por entregar mais do mesmo. São tempos bicudos.

Sobre Fernanda Coelho

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