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Eu e a Dona Expedita

Se você é psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta, apaixonado por essa área do conhecimento humano, ou se – no mínimo – conhece alguém que o seja, por favor, não leia essa crônica. Se você é conhecido de algum pai de santo, se faz despacho ou algo do gênero, eu peço, não leia esse texto. Porém, se você não se importa de ver que lê os escritos de uma doida varrida, vá em frente. Vou falar um pouco sobre uma personagem que mora comigo, embora eu, tecnicamente, more sozinha.

Desde que aceitei a inevitável presença da Isaura em minha vida, outros inquilinos me apareceram: a Dona Expedita e o Seu Manoel. Na verdade, só a Dona Expedita e a Isaura é que moram aqui. O Seu Manoel aparece de vez em quando, mas estou vendo a hora de ele se mudar pra cá.

A Dona Expedita é uma senhorinha já bem vivida, que sabe que casa, louça, poeira, roupa pra lavar, roupa pra passar, tudo isso vai estar aí pra sempre. Mas a minha imagem no espelho e as minhas lembranças…

Ela era filha de pais muito rígidos e morava na roça em seus tempos de menina. Casou-se aos dezesseis anos, teve nove filhos (todos homens), enviuvou e veio pra cidade. Os filhos já criados, netos encaminhados, ela começou a se aventurar pelas ruas, pelas feiras e pelo “forró dos velhos”, como ela gosta de dizer. Foi lá, inclusive, que ela conheceu o Seu Manoel.

Ditinha – seu apelido para os dias de bom humor –  usa os cabelos presos num coque bem feito no alto da cabeça. Os fios prateados e a pele enrugada conferem-lhe aquela aparência frágil e condescendente dos idosos. Mas não se engane: a velha é uma peste. Tem um humor ácido, fala palavrão, não tem muita paciência com frescura, nem com chilique. Usa uma bengala que é uma arma: dê bobeira perto dela, vá encher-lhe a paciência, pra ver se não leva uma bengalada na canela! E o mais engraçado de tudo é a cara de inocente que ela faz. “Desculpe, querida. Já estou velha e não consigo controlar bem essa bengala”. Aí você se vira para ir embora e só ouve o risinho abafado.

Eu e Dona Expedita, normalmente, nos damos bem. Também não gosto de frescura, nem de gente desanimada e reclamona.  Adoro quando ela me explica que as prioridades podem não ser tão óbvias e me divirto quando a gente sai pra caminhar. Nosso papo é bom, nós reparamos nas coisas e nas pessoas, rimos e ela me conta um monte de histórias.

Isso, entretanto, não significa ausência de desentendimentos. Ditinha, infelizmente, é analfabeta. Já tentei ensiná-la, mas ela nunca quer aprender. Prefere que eu leia pra ela, com a desculpa de que “seus olhos já não são os mesmos”. Eu desconfio que ela tenha preguiça mesmo. Acontece que, quando a Isaura fica muito furibunda comigo e eu – fraca que sou – resolvo fazer uma faxina, o circo está armado. E a situação é sempre pior se eu estiver lendo algo de que a Dona Expedita goste. Ela fica fula da vida e começa a aprontar: esconde o avental de joaninhas da Isaura, me faz tropeçar na bengala, esconde os panos de chão, derrama mais sujeira na casa, fura os sacos de lixo e outras maldades dignas e um saci. Eu vou passando pela casa e vendo as artes dela. Estou dizendo: a velha é uma peste! Vai muita conversa e promessa até ela se acalmar. Às vezes, eu preciso ler até as quatro horas da manhã, pra ela finalmente me perdoar.

Alguns acessos de fúria são tão intensos que eu preciso apartá-la da Isaura. Não se enganem: entre nós, mortais, existe essa coisa de idade. Mas, no que tange as entidades imaginárias, é tudo diferente. Já separei brigas intermináveis das duas. A Isaura não respeita cara de velha e a Dona Expedita é forte. Estou vendo a hora que ela vai começar a soltar aqueles poderes do Mortal Kombat. É um quebra pau dos infernos. Eu vou passando com os baldes e me desviando dos tapas e das coisas que uma joga na outra.

É claro, Ditinha e Isaura não brigam o tempo todo. Algumas vezes elas entram em acordo e eu levo a pior. A Isaura passa por mim e solta: “casa empoeirada, não?” Eu olho para a Dona Expedita com cara de cachorro que caiu da mudança, à procura de um pouco de apoio. Ela responde: “não precisa me olhar desse jeito: a Isaura tá certa”. Daí eu me recolho à minha insignificância, ponho uma música alta e encho a casa de água – como sempre.

É exatamente nesse momento que me aparece o seu Manoel, com seu terno xadrez, chapéu de palha, lenço no bolso e barba bem feita. O cheiro de colônia se espalha pela casa e ele sorri. Dona Expedita, a depender do seu humor, lhe sorri de volta ou manda por raio que o parta. Eu, particularmente, torço pra que ele a chame pra ir ao cinema ou à sorveteria – antes que ele perceba algo que precise de um pequeno reparo e eu me ferre de vez.

Beijinhos,

 

Sobre Fernanda Coelho

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