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Eu experimentei

Olhando fotos recentes e outras tiradas há um ano, mais ou menos, fiquei espantada ao ver a mudança em meu rosto. Não, eu não fui atropelada. Não, eu não fiz nenhuma cirurgia estética. Nem peeling, nem botox. Nem nada disso. O que aconteceu comigo foi que eu Experimentei. E nada nessa vida poderia ter feito tanta diferença.

O leitor já deve estar acostumado com minhas conclusões absurdas, e provavelmente já sabe que darei início aos argumentos. Acompanhem o raciocínio.
Em primeiro lugar, experimentei romper com uma situação insustentável. Isso, por si só, já trouxe um quê de leveza totalmente inesperado. Todavia, esse foi apenas o primeiro passo – um dos maiores, mas não o maior. O passo gigantesco de verdade foi dado pra dentro e tornou-se o que fez a diferença real nas fotos.
Experimentei enxergar-me com olhos curiosos, como se fosse um livro novo, com uma história que se torce sobre si mesma, mudando os parágrafos e capítulos, trazendo ao leitor o real significado. Uma história que só se mostra para os que realmente desejam conhecê-la. Experimentei aceitar as partes boas e não julgar as ruins. Ousei me olhar nos olhos, dizer “Prazer, estranha” e tratar de me conhecer.
Pratiquei o desapego. Das roupas velhas, das lembranças usadas, do que eu achei que tivesse sido ou o que  gostaria que fosse. Desapeguei-me do não tão bom e já bem velho “eu não consigo”. Livrei-me do que me segurava, do que me atrasava e do que me atracava. E, principalmente, desapeguei-me de mim, da imagem que fazia de mim mesma, dos conceitos antigos e de tudo o que acreditava ser verdade. Duvidei sinceramente de cada uma de minhas certezas, para encontrá-las novamente – mais vivas, refeitas e polidas.
Experimentei experimentar – comidas, músicas, lugares, roupas, maquiagem, o que fosse. Experimentei ser companhia para mim mesma. Experimentei ouvir o que eu tinha pra dizer, sem me censurar. Ousei dirigir, pegar a estrada, calibrar pneu, procurar endereço e aderir ao uso do telefone celular.
Testei assumir a responsabilidade pelos acontecimentos em minha vida e desse fato surgiu um melhor ainda: assumir Somente a parte que me cabe.
Provei a inigualável sensação de autonomia que vem com o “faço porque quero“, “visto porque gosto” , “escuto porque me apraz”, “escrevo porque me deu na telha”. Tomei a liberdade de não exigir das pessoas algo que elas não podem oferecer e, em alguns casos, tenho sido subversiva o suficiente para não esperar absolutamente nada.
Muitas dessas coisas não aparecem nas fotos. Foram elas, entretanto, que me permitiram um sorriso de verdade, olhos realmente brilhantes e uma cara de felicidade bem resolvida. E isso sim, a câmera fotográfica  consegue captar.

Sobre Fernanda Coelho

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