João!


Antes de tudo, meu caro leitor deve estar se perguntar porque este simplório conto tem como título simplesmente João e não Pedro, ou até mesmo Flávio, ou qualquer outro nome. Ora, essa é fácil! Porque João é o nome daquele que narro aqui. E não somente João, mas João Albuquerque, bancário, professor de matemática, homem de família que nunca cometeu adultério (acredite, esse tipo de informação é valiosa nos dias de hoje). Seguindo a minha falta de respeito com a linearidade narrativa, decidi começar este causo pelo fim e não por seu devido começo. Digo causo porque é uma forma atípica da região do centro-oeste, mais precisamente de Goiás. Ao leitor atento acabo de dar algumas pistas. Revelei o que João fazia (inclusive seu sobrenome), da mesma forma que lhe disse, leitor apressado, sua profissão e localidade. Vamos aos fatos!

Meu início se dá então da mesma forma e revolta dos modernistas; para dar um ponto final em toda regra, abro aqui uma exceção.

–  O meu menino! Tenho pouco tempo de vida, gostaria de vê-lo.

Não! Isso não é uma tragédia Shakespeariana! E não espere uma novela descarada como fazia Bukowski, embora isso já seja óbvio. A informação que devo dar é simples: João não teve filhos. Não porque não quisesse, mas porque sua mulher não pôde tê-los. O garoto que o velho enfermo mencionava era um jovem que o admirava tal como um verdadeiro pai. A criança morava perto de sua casa e tudo começou com algumas lições de matemática, se converteu em amizade e no mais tardar, tudo aquilo se transformou em um laço fraterno. O velho João e sua, agora falecida, esposa pareciam ter ganhado um filho. Parece que Deus não é tão cruel assim como todos pensam. Era o que eles sempre acreditaram e que com a vinda do menino tudo foi concretizado. Entra em cena o garoto que nenhuma ligação tinha com a etimologia da palavra “garoto”. Ele agora era um rapaz, advogado, conhecido por Doutor Otávio. Porém, a família o chamava de Otavinho e, seu João, simplesmente de meu menino.

–  Ora, ora… Quanto tempo meu filho!

–  Vim correndo pai. Como o senhor está?

–  Não muito bem; os anos já não me fazem tão bem como antigamente.

O que o Senhor João dizia era bem verdade. Antigamente os anos eram menores e pouco se sentia o peso da idade. Agora a coisa era diferente; João estava doente, sabe-se lá o que ele tinha, mas os mais velhos costumam atribuir a culpa à velhice.

–  É velhice! Diziam todos.

Mas seu João poderia se honrar, pois teve uma digna vida! Voltemos um pouco ao passado. João agora se torna joãozinho e o peso da idade é tão leve quanto uma folha de um arvoredo pousando na bela nascente do Araguaia. Joãozinho era fascinado pela natureza, adorava subir em um dos galhos de uma enorme árvore e ficar ali até o sol se pôr. Às vezes ele trazia consigo um livro de matemática, outras vezes, um pouco de Machado de Assis. O garoto queria ser bom, grandioso. Hoje constumamos chamar essas pessoas de idealistas. Pouco importa o nome que se dá a coisa, pois vale mais seu real significado e valor por meio de suas ações do que sua nomenclatura propriamente dita. Vale ressaltar que joãozinho adorava história, seja ela do Brasil, da Alemanha ou do seu Goiás. Ele sabia o que poucos garotos da sua idade sabiam!

– Bartolomeu Bueno da Silva foi chamado pelos índios de “Anhanguera” que  significa “alma velha” e que foi traduzido pelos jesuítas equivocadamente como “diabo velho”.

Nisso João tinha lá seus doze anos, mas ele sabia coisas que nem seu pai sabia e muito menos os amigos de seu pai! Nesta idade ele descobriu que os brasileiros, mais especificamente, os goianos, idolatravam um verdadeiro vigarista. Na cabeça de João, um cara que simula queimar as águas, queimando na verdade álcool com fogo e sendo adorado como um deus pelos pobres índios nada mais seria do que um vigarista, oras. Quanto a matemática, ele desvendou alguns segredos. Aliás, para ele eram segredos, mas para os demais, como os engenheiros e outros, as coisas eram mais do que óbvias. Quem não sabe que o sistema decimal foi escolhido em referência aos dez dedos das mãos? João não sabia disso, mas ficou fascinado. Ele cresceu, trabalhou no banco, alimentou a família, teve uma vida quase como a de um protagonista bem conhecido de Charles Dickens, mas não digo de tal forma totalmente igual. Tempos se passaram e joãozinho finalmente se tornou João. Bancário em período integral e professor de matemática nos finais de semana. Conheceu uma bela jovem, e como qualquer homem que ama em sua vida, acabou por casar-se com ela. Tinham uma vida estável, algumas discussões aqui, outras ali; mas nada que comprometesse a vida conjugal do casal. Moravam no Setor Sudoeste de Goiás. Nada muito nobre como o Bueno, mas também nem tão miserável como a Vila Redenção. Foi justamente em um barracãozinho colado a sua casa que ele conheceu o jovem Otávio. O presente do garoto remetia ao passado de João e isso fez com que ele investisse na criança. Foi a partir daí que começou uma grande amizade. Otavinho passava mais tempo na casa do seu pai “adotivo” João do que em sua própria casa. Ele adora seu novo pai, pois o outro não passava de um bêbado que adorava agredir a mãe. Otávio aprendeu muito com João e foi o próprio que custeou os estudos do garoto na europa, com autorização dos pais, é claro. Acho que já é hora de voltamos a nossa cronologia narrativa que remete ao presente, embora isso não seja tão determinante assim.

O leitor deve estar se perguntando porque tantas viagens no tempo. Alguns devem estar me acusando (se bem que eu levaria isso como um elogio) de ser um H.G Wells. Quem me dera… Quem me dera! É preciso dizer que João chamou o garoto para se despedir dessa vida? O que eu devo dizer é que João dizia esperar ver seu amigo e filho na próxima. Exato! Mais uma informação preciosa sobre o velho enfermo; ele era espírita. Na verdade essa ideia floresceu de uns anos pra cá, talvez nos últimos cinco anos de sua vida. O fato é que João Albuquerque, bancário, sem filhos legítimos e goiano de nascença acabara de falecer, minutos antes que eu concluisse esse texto. E Otávio, seu amigo e filho adotivo, foi aquele que sentiu o mais pesar desta perda. A esposa de João já era falecida, por isso Otávio era o que João tinha mais afeição. Encerro aqui este conto caros senhores!

Deve estar se perguntando por que não contei uma história de superação, em que os personagens dão a volta por cima e saem vitoriosos servindo de exemplo para os demais preguiçosos. Tudo que tenho a dizer aos leitores é que esta não é uma história hollywoodiana.

Sobre Rafael C. Oliveira

Criador da HQ Conquistadores de Gaia (http://www.conquistadoresdegaia.com/), Admin da Loja de Goiás do Conselho Steampunk (http://go.steampunk.com.br/), membro do Farrazine (http://farrazine.blogspot.com/), redator do rabisquera365 (http://www.facebook.com/rabisquera365/), editor da PapiroDigital (http://www.papirodigital.com/) e vendedor de churros nos fins de semana :) Formspring: http://www.formspring.me/rcdeoliveira Páginas: http://www.facebook.com/conquistadoresdegaia TWITTER: @RC_DEOLIVEIRA

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