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Labaredas – Parte 01


O Sol do meio-dia brilhava em seus cabelos claros, brilhava também nos coturnos bem engraxados, sentada no chão do pátio ela ouvia as conversas animadas e mentirosas dos outros adolescentes, contando façanhas que nunca aconteceram, era o primeiro dia de aula depois das férias de julho.

O sinal tocou e Marcela se levantou o mais lentamente que pôde, enquanto os outros quase corriam para as salas em grupos animados, ela ficava para trás, sozinha… quando entrou na classe todos já estavam acomodados, sua carteira estava reservada na última fileira entre seus amigos metaleiros, nem precisava pedir, eles sempre colocavam a cadeira dela entre eles, dois de um lado, dois de outro, como se precisassem protegê-la.

Ouviu os comentários bestas, as risadinhas, nada disso importava, sabia o que diziam sobre ela, diziam que ela tinha relações sexuais com seus quatro amigos, talvez ao mesmo tempo, deixe que falem, aquilo combinava muito mais com sua pose de mal do que a realidade de ser tão virgem quanto uma maldita princesa Disney antes do felizes para sempre.

Quando chegou à escola no início do ano, procurou por gente que não fosse tão chata, que não fizesse tantas perguntas, se aproximou dos “metalzinhos”, como gostava de chamá-los, eles eram quase tão estranhos quanto ela, mas no fundo eram só meninos bonzinhos, no início eles e os outros meninos investiram tentando conquistá-la, quando souberam que era inacessível se contentaram em espalhar boatos

O sinal para a saída tocou e ela foi quase correndo para o único lugar legal da escola, a biblioteca, abriu a porta já gritando:

– Alice! Alice! Cadê você? Volte do país das maravilhas para conversar comigo!

Riu da própria piada besta, ainda estava sorrindo quando ouviu uma voz de homem:

– Um minuto, por favor…

Ficou gelada, não era uma voz de menino, o que era aquilo? Sua resposta surgiu do meio das prateleiras, era alto, forte, negro, lindo… um homem de verdade, não os meninos que ela via todo dia..

Detestou saber que estava de boca aberta olhando o primeiro botão aberto da camisa dele, ele fingiu que não percebeu, é talvez não tivesse percebido, e começou a falar antes de ela ter tempo de fechar a bonita boca.

– Alice foi transferida, agora sou o bibliotecário daqui, posso ajudá-la?

– …

– Tudo bem?

– …

Marcela virou e saiu, não confiou na sua voz, seu papel já estava sendo ridículo demais, não ia completar o quadro com gagueira, mas amanhã ela estaria preparada, ele saberia que ela não era só uma menina boba… e muda.

Aquele dia demorou a passar e o dia seguinte também, enquanto intermináveis professores ministravam intermináveis matérias, ela fazia intermináveis desenhos e ouvia seus amigos com intermináveis desculpas sobre os boatos que tomavam a escola como uma praga.

Finalmente o sinal, tirou a jaqueta que cobria a blusa decotada, ajeitou a saia curta e passou a manga da jaqueta nos inseparáveis coturnos com bico de metal, olhou para o lado e viu várias bocas abertas, aquilo não era nada, só crianças, tinha que ver que efeito causava em um homem de verdade.

Entrou na biblioteca, ele estava verificando alguns livros no balcão, levantou os olhos com o barulho da porta e sorriu para ela:

– Voltou?

– Sim, na verdade sempre gosto de vir aqui, eu era muito amiga da Alice…

– Deu para perceber, espero que não tenha ficado muito decepcionada.

– Isso depende…

– Depende do que?

– De você claro.

– Vou fazer de tudo para ser um substituto à altura…

Riram juntos

– Então o que gosta de ler?

– Terror, aqueles da prateleira do fundo.

Dizendo isso, dirigiu-se para o fundo da biblioteca, ele foi logo atrás dela.

– Ei! Você está olhando para minha bunda?

O sorriso que surgiu nos lábios dele causou uma pontada no seu sexo, e ela sorriu de volta

– Gostou?

– Sem perguntas difíceis, por favor, sei que tem só 15 anos.

– Como sabe que tenho 15 anos?

– Vi sua ficha…

– Ah que chato, pensei que tivesse poderes extra-sensoriais ou coisa assim, e você qual sua idade?

– Tenho 26.

– O que gosta de ler?

– Gosto de terror também, suspense…

Ainda bem que não disse poesia…

– E poesia.

Se ele fosse esperto não iria mais falar de poesia depois da decepção que viu nos olhos dela, mas ele não era.

– Se você visse minhas poesias ia gostar delas…

– Vou indo.

– Ei, calma, só porque disse que gosto de poesia?

Tá, ninguém é perfeito…

Outro dia de aula, aula de matemática, fazia desenhos no caderno, ouvia seus amigos contando sobre um show de rock qualquer, ela só balançava a cabeça, só conseguia pensar no seu bibliotecário… às vezes sorria sozinha com seus pensamentos impuros, e seus amigos, que não estavam acostumados com seus sorrisos, ficavam se olhando e tentando entender alguma coisa, sabiam que ela estava diferente, mas ela sempre foi tão estranha e tão misteriosa, eles nunca iam saber, continuavam somente próximos à ela e esperando a oportunidade de ver suas coxas quando ela cruzava as pernas, coisa que ela fazia com mais freqüência recentemente.

A aula terminou, quando Marcela estava na porta o professor a chamou:

– Marcela, pode vir aqui um minutinho?

Ela foi sem dizer nada, como costumava fazer.

– Suas notas na minha matéria estão péssimas

– É, eu sei, não entendo nada de matemática.

– Não tem segredo, posso te ensinar depois da aula, hoje mesmo tenho alguns minutos, depois que você entender o começo acaba entendendo todo o resto.

– É, pode ser, faria isso?

– Claro… o que eu não faria por uma menina como você

Como “você” soou estranho naquela boca feia que cheirava a cigarro.

– Feche a porta, e sente aqui do meu lado com o caderno.

Ela obedeceu, assim que sentou ao lado dele sentiu mãos subirem por suas coxas e irem em direção ao sexo que estava tão ardente ultimamente, levantou de um pulo.

– Que é isso?

– Ah querida, eu já soube que você é uma menina levada, sei que aqueles quatro não dão conta de você, você precisa de um homem de verdade.

Dizendo isso ele avançou com o corpo gordo e enorme agarrando-a pela cintura, ela sentiu a carteira no bolso interno do blazer, pegou a carteira, se afastou e deu um chute com seu coturno na canela do tarado, gostaria de ter chutado o saco dele, mas ela não tinha espaço nem tempo.

Saiu correndo guardando a carteira dentro da mochila, sem saber direito porque, ainda ouviu os murmúrios:

– Sua cadela! Você ia gostar! Agora vai repetir de ano…

Mesmo não querendo, as lágrimas molhavam seu rosto, o ódio e a vergonha eram imensos, ela tinha causado aquilo, gostava de provocar, nunca negou os boatos maldosos, mas agora percebeu que não dava conta das conseqüências. Foi para a biblioteca, não podia sair na rua naquele estado com o lápis preto dos olhos todo escorrido pelas bochechas, e na biblioteca estaria deserto como sempre estava naquele horário.

 

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Continua…

 

Por Silinha

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.