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Mingau de Leite – Uma crônica sobre a memória do amor

De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe – linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar – cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.

Sobre Fernanda Coelho

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