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O Carcará Fala – Parte 01

Meu nome é Severino de Andrade, conhecido por Carcará.  Como eu ganhei esse codinome, eu conto em outra ocasião, é uma puta história.

Faço parte da equipe que tenta salvar o que restou da Floresta Amazônica. Nem me perguntem como entrei nessa roubada.

Somos uma equipe bem distinta. Uma combinação de talentos como gosta de dizer Carlos Falcão, vulgo Pensador. Eu apelidava todo mundo, só pra irritar.

Pensador é um típico CDF. O cara usa camisas de algodão e a gandola abotoada até o colarinho. E é incrível como ele mantém suas botas limpas nesse chiqueiro que se tornou a parte da floresta atingida pelas minas nucleares. O tipo de recruta que eu adorava detonar nos meus tempos de Exército.

Mas eu tenho o maior respeito pelo cara. Respeito, porque que sei do que ele é capaz. Acho que do nosso pequeno “grupo salvador”, só eu sei. Eu o vi em ação.

Quando eu olhava para o Pensador, eu sentia meus cabelos da nuca se arrepiar. O cara tinha um olhar sem foco, parecia que ele tava olhando pra todos os lados ao mesmo tempo e analisando todo mundo, um tipo de visão periférica constante. Uma vez, Susan, nossa médica, disse que se sentiu nua, enquanto suturava um ferimento à bala no Coronel, nosso comandante de campo. Ela disse que Pensador parou atrás dela e ficou observando enquanto ela extraia a bala e costurava o cara. O olhar dele parecia dissecar as pessoas. Seu olho esquerdo pulava, quando isso acontecia. Ele dizia que não havia nada que não devesse aprender, e observar era o melhor método.

Nos primeiros dias da nossa missão na Floresta Amazônica, ficamos acampados perto do que já foi o Grande Rio. Ainda fora da Zona de Exclusão. Estávamos aguardando a chegada do Coronel. Ele havia ido buscar nosso mais novo integrante. Um indiozinho que seria nosso guia durante a missão.

O nativo não tinha nada de “indiozinho”. Ajagunã, que em sua linguagem quer dizer: Guerreiro Forte, era um cafuso. Uma mistura de Negro e Índio. Tinha quase 2 metros de altura, forte pra caralho e vestia apenas uma calça, que dizia ele, arrancada de um soldado do Exercito Brasileiro, na porrada. Era todo tatuado com pinturas de guerra indígenas (brasileiras e africanas) e carregava um facão que mais parecia uma espada. Ninguém acreditava que ele caberia nos Exotrajes.

A essa altura, eu já tinha sacado que toda aquela devastação e morte mexiam muito com Pensador. Ele estava visivelmente perturbado com a visão da destruição, causada pelas minas na Floresta. Corpos humanos e de animais calcinados,  o solo petrificado, os rios secos e envenenados. Uma poeira escura era levada pelo vento, cobrindo de negro o que restara da floresta deixando tudo sombrio como uma tumba. Uma visão desoladora.

Grande parte da floresta era agora dominada por um grupo comandado por um antigo general da FARC, conhecido na região apenas por General. Eles eram assassinos, traficantes, mineiros, guerrilheiros e todo tipo de escória que você puder imaginar.

Eles dominavam a exploração do Ouro Amazonense. Depois das explosões, grandes jazidas de ouro foram expostas quando os rios e seus afluentes secaram. O problema era que o ouro fica na Zona de Exclusão, o que torna o metal altamente radioativo.

Os mineiros, na maioria escravos capturados nas cidades e vilas vizinhas, tinham uma expectativa de vida de no máximo dois anos… Isso se trabalhassem protegidos por roupas isolantes. Que na maioria das vezes apresentavam defeitos.

Estávamos em uma aldeia, aguardando… Enquanto eu estava de guarda, Susan e Pensador prestavam serviços médicos aos nativos quando fomos pegos de surpresa por uma equipe de escravagistas comandados por um filho da puta chamado Feitor, ex Sendero Luminoso.

Enquanto eu, Susan e Pensador nos escondíamos, recebemos ordens de não nos expormos, assistíamos aos desgraçados ateando fogo nas cabanas, aterrorizando os miseráveis do lugar.

Os homens que podiam ser aproveitados no garimpo eram levados, os mais velhos eram espancados ou simplesmente mortos. Algumas mulheres também eram seqüestradas, para o “divertimento da tropa”.

Nossa missão era de extrema importância, de modo que recebemos instruções do Coronel para não nos envolvermos nas disputas locais. Depois de escondermos Susan em um dos buracos usados como depósito de suprimentos, eu e Pensador nos mantivemos a distancia, observando.

Foi aí que deu merda. O Feitor e seus capangas tentavam estuprar uma garotinha que não devia ter mais que 14 anos, seus pais tentaram protegê-la e foram brutalmente assassinados. Suas cabeças foram praticamente separadas do corpo pelo facão do Feitor. A garota foi jogada dentro de um jipe e todos partiram em direção ao Buraco, lugar onde se reuniam as tropas do General.

Eu ouvi um rugido e Pensador saltou como um raio, de dentro da mata onde nos escondíamos. Correu até a clareira onde nosso helicóptero estava camuflado e foi logo vestindo seu Exotraje. Surpreendi-me ao ver tanta agilidade num “traça-livros”.

O Exotraje era o que havia de mais moderno em vestimenta de combate. Seu tecido pode estancar qualquer ferimento na hora, mudar de cor através de um processo chamado Camuflagem Eletro cromática, havia também os músculos artificiais, nossos capacetes recebem mapas e mensagens multimídia, óculos com visão de raio-x para enxergar através de paredes e através de qualquer espectro de luz e mais uma porrada de arma e recurso escondido. E eram isolantes radioativos.

Pra chegar ao Buraco, os mercenários teriam que dar uma volta de 150 km, já que não podiam passar pela Zona de Exclusão. Um cara não dura meia hora por lá, sem proteção isolante. O plano do Pensador era usar nossas motos para cortar caminho pela área mais radioativa do planeta, e pegar o comboio de tocaia.

Eu que não ia entrar numas de tentar deter o cara, mas também não ia com ele. Sou um soldado que já passou por combates ferozes e tão sangrentos que eu nem gosto de lembrar, mas não sou idiota. Enfrentar aqueles mercenários sem um plano de ataque era suicídio. Acendi um cigarro e vi sua moto sumir, levantando aquela poeira negra e densa por trás dele.

Enquanto ajudava Susan com os nativos, Coronel chegava com o índio. Se existia um sujeito que não demonstrava emoção nenhuma em combate, era o Coronel. Extremamente frio e calculista, era conhecido por executar sua missão a qualquer custo não importando os meios, muitas vezes questionáveis, aplicados para isso. Um soldado perfeito.

Mal deu tempo de explicar o ocorrido, e fui incumbido, aos berros, para ir atrás e trazer Pensador de volta de qualquer maneira. Foi a primeira vez que vi o cara alterado desse jeito. Parece que Carlos Falcão era mais importante pra missão do que eu havia sido informado. Pelo que eu entendi, não havia missão sem ele.

Continua…

Por Arisio

PS: Texto originalmente publicado na edição online de Extremezine!

Sobre Arisio

Sou Analista de Sistemas Sr, apaixonado por quadrinhos, filmes e tecnologia. Sou motoclista e adoro pegar estrada com minha moto e amigos.

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  • Tiago Vilas Boas

    Boa tarde amigo, gostaria de pedir para que voc~e remova a imagem acima do logo carcará pois esse logo é de nosso time de paintball de campinas-sp e gostari de deixar frizado qu esse logo já está registrado em cartório então venho repetir para que você retire a imagem o mais rápido possivel grande abraço até mais, qualquer duvida entre em contato comigo mesmo meu email é tiagomullervb@yahoo.com.br……….

    • Certo amigo, já foi retirado, espero não ter causado nenhum problema para você e sua equipe.

      Na verdade, como não temos fins lucrativos, as pessoas normalmente costumam avisar e solicitar que citemos a fonte da imagem, com alguma legenda ou observação. Mas já foi retirado, desculpe qualquer coisa, e continue nos visitando e comentando nossos textos.

      Um abraçi