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O Carcará Fala – Parte 02

Vesti meu Exotraje e segui atrás de Pensador. Nossos uniformes e veículos se comunicavam. De modo que, através de Satélites, sabíamos a localização de todo mundo.

Depois de meia hora, rodando pela Área de Exclusão, localizei a moto de Pensador camuflada. Desci e fui seguindo, guiado pelo GPS. Já era noite, e agora já me encontrava em plena Floresta Amazônica, cercado por árvores gigantescas em um terreno semi-alagado.

Embora o GPS me indicasse a direção de Pensador, eu não imaginava como ele teria passado por ali. Não encontrava sinais, pegadas ou qualquer outro indício de movimentação pela mata. A não ser que ele tivesse se balançado como um macaco pelas árvores, o que eu descartei de imediato. Confiei no meu equipamento e segui na direção indicada com muita dificuldade.

Mais meia hora de caminhada e alcancei o que seria um acampamento. Eram o Feitor e seus homens. De onde eu estava escondido, contei uns seis.

Eles deviam estar aguardando o restante do comboio, já que apenas um jipe e um caminhão estavam estacionados.

Preparei-me para a ação. Estava com minha SIG-Sauer P-226 9mm. Podia ser uma arma antiga, mas me salvou a vida tantas vezes que eu não consigo me lembrar. Do meu antebraço esquerdo, saltava uma lâmina feita de uma liga de fibra de Carbono-titânio, praticamente inquebrável e de corte afiado. Podia cortar, literalmente, quase tudo com ela. Eu a chamava de Clementina, em homenagem á minha mãe.

Analisando os dados do meu Exotraje, verifiquei que Pensador estava a uns cinco metros da barraca central, mas a uns quatro metros do solo. Claro, estava em um galho de uma árvore enorme.

Tentei contato pelo rádio, mas ele não respondia. Tratei de me posicionar e através das lentes de visão noturna, consegui vê-lo. A partir daí, tudo me pareceu surreal demais.

Pelos gritos que ouvi de dentro da barraca, o Feitor e seus soldados estavam se divertindo com a garota seqüestrada. Bando de amadores, ninguém estava de guarda. O que facilitou a vida de Pensador. Como uma onça ele saltou. Em uma das mãos, uma faca militar da mesma liga da Clementina, na outra uma pistola taiser. Essa arma lançava projéteis carregados de eletricidade, que dependendo da voltagem, tostavam um cara em segundos, sem fazer barulho.

Com um único salto, ele cobriu a distancia que separava a barraca da árvore. Nem eu nos meus melhores dias conseguiria um desses. Uma vez dentro da barraca, eu só consegui ver os clarões provocados pelo taiser e alguns poucos gritos de agonia, sem falar do forte cheiro de carne queimada e esguichos, que deviam ser de sangue, espirrando nas paredes.

Então o Feitor saiu voando pela entrada da barraca. Já que não deu tempo de fazer nada, tudo aconteceu em segundos, fiquei na minha. Se fosse preciso eu estava pronto pra salvar a pele do CDF. Mas eu não achei que ele fosse precisar.

O Feitor era um homem marcado pela violência. Cheio de cicatrizes, estava claro que ele já havia sobrevivido a inúmeros combates. Mas diante de Pensador, vendo sua morte naqueles olhos furiosos, naquele momento sua verdadeira natureza estava exposta. A de um covarde.

Retirando seu Exotraje, Pensador claramente o havia desafiado para um combate corpo a corpo, já que com os músculos artificiais da roupa, ele ficava no mínimo umas quatro vezes mais forte que um homem normal e uma simples faca nunca perfuraria a fina, mas inquebrável, cerâmica que reveste nossos uniformes. Enquanto o Feitor armado de um facão de mata olhava assustado para a barraca marcada de sangue e fedendo a churrasco, Pensador calmamente tirava seu Exotraje peça por peça. Se sua intenção era aterrorizar o sujeito, posso garantir que ele havia conseguido.

– Hora de morrer, animal. Rosnou Carlos. Foram as únicas palavras ditas por ele.

Como todo bicho acuado, o Feitor atacou. Então eu vi algo que me deixou perplexo. Pensador se abaixou, desviando do ataque desesperado, e girando com um único golpe da sua faca cortou os ligamentos dos dois joelhos do Feitor, que caiu se apoiando nas mãos.

Tendo a certeza de ter perdido a luta, o Feitor, largou seu facão e olhou para Pensador, claramente implorando pela sua vida.

Pensador, com um olhar que congelaria o inferno, nada falou. Agarrou o Feitor pelos cabelos com a mão esquerda e puxou para trás, deixando a jugular exposta. Então, começou a enfiar sua faca na garganta do infeliz. E foi aos poucos, empurrando pescoço adentro, bem devagar, até que toda a lâmina sumisse e varasse na nuca. Os golpes usados por ele eram exatamente como os meus. Parecia que eu estava me vendo lutar.

Foi uma morte lenta e dolorosa. Enquanto estrebuchava em agonia, o Feitor tentava gritar e se afogava no próprio sangue. Demorou pelo menos uns 5 minutos pra parar de se debater.

Isso foi cruel até mesmo pra mim.

Então eu vi o motivo de tudo isso, Pensador entrou na barraca novamente e saiu carregando o pequeno corpo da jovem que tentara salvar. Claramente torturado, quebrado e abusado. Agora, ele chorava. E aquele assassino cruel que há pouco eu via matar sete homens, simplesmente havia sumido.

Ele olhou em minha direção. Mesmo escondido e usando o traje para me camuflar, senti que ele me olhou nos olhos. Virou-se e entrou na mata, carregando o corpo da garota. Certamente iria enterrá-la.

A faca de Pensador permaneceu cravada na garganta do Feitor. Claramente um recado. Agora, o General saberia da nossa existência.

Entre nós, nunca falamos a respeito sobre aquele episódio. Desde então temos uma forma de parceria estranha e respeito mútuo.

Algum tempo depois, iria descobrir como Pensador, um CDF daqueles, havia desenvolvido técnicas de combate com faca Krav Maga*, que só eu no grupo dominava, entre outras habilidades físicas.

Bem, agora que o General sabe da nossa existência, só podemos esperar o pior. E estamos prontos.

FIM

*Nota: Krav Magá ou Krav Maga (em hebraico קרב מגע: “combate próximo/fechado”) é um sistema de defesa pessoal.

Por Arisio

Sobre Arisio

Sou Analista de Sistemas Sr, apaixonado por quadrinhos, filmes e tecnologia. Sou motoclista e adoro pegar estrada com minha moto e amigos.