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O Favor de Badbh – Parte 01

O Favor de Badbh

       O ar na aldeia recendia à terra molhada, esterco e madeira queimada, mas o mal tempo não era exatamente um impeditivo para os ferreiros e demais artesãos, ainda mais na iminência de guerra. Não contra alguma tribo vizinha, como de costume, mas contra aqueles homens cobertos de bronze que vinham do sul e subjugavam todas as nações em seu caminho com a espada e prodigiosos engenhos de guerra. Havia sido decidido que atacariam esses intrusos antes que avançassem para além da floresta.

       As frondosas árvores ancestrais dificultavam a chegada da luz aos que na floresta viajavam e forneciam o abrigo que os homens das tribos, em óbvia desvantagem numérica, precisavam para lutar com táticas de guerrilha sem jamais dar-lhes batalha franca. Quase todo homem apto a lutar naquelas paragens conhecia a floresta melhor do o corpo da própria esposa, pois dela obtinham seu sustento pela caça e coleta enquanto as mulheres e uns poucos outros homens cuidavam dos pequenos rebanhos, e culturas, além de fazerem serviços domésticos variados sem sair da aldeia. Se a antiga floresta podia lhes dar vida, poderia perfeitamente ajudá-los a tirar a de seus inimigos se os deuses assim desejassem.

     Arlen entrou na oficina do velho Caradoc a passos rápidos e depositou o pesado fardo de lenha próximo à forja, era o último, e agora ele poderia finalmente ir para perto do altar de pedra. No dia seguinte, quando o negrume da noite se derramasse sobre o mundo, ele e um grupo pequeno emboscariam os homens do sul que os batedores haviam detectado, e seguiam a mesma trilha que a caravana anterior. Esta havia sido aniquilada.

     Com sorte a maioria dos inimigos seria degolada durante o sono, e o que restasse deles dificilmente poderia opor resistência aos ferozes guerreiros da tribo. Suas brilhantes armaduras de nada lhes seriam úteis se eles estivessem dispersos e assustados.

      Aquela seria a primeira vez que Arlen pegava em armas contra o inimigo, e ele estava com medo. Não podia deixar os outros notarem isso, mas um momento a sós com as árvores sagradas que rodeavam o altar de seus deuses poderia fazer toda a diferença antes que ele marcasse o corpo com a tintura anil de guerra e partisse para o coração da floresta.

**********

       Uma brisa suave e rasteira soprava rumo ao leste, despenteando seus longos cabelos castanho-claros e fazendo farfalhar as diminutas folhas dos arbustos na clareira. Frondosas árvores que pareciam existir desde o início do mundo projetavam sombras de um cinza profundo sobre a grama permanentemente assentada pelas pisadas de todos que vinham com frequência.

      Arlen não tinha o costume de visitar o círculo de árvores sagradas, mas agora que se encontrava na iminência da batalha, sentia medo, e precisava de algum amparo dos deuses. Em silêncio prometeu à Badbh* que em troca de fúria e destemor, ele se oferecia para segurar para o Velho Druida o próximo infeliz que fossem sacrificar, dedicando suas orações a ela na ocasião. O jovem tinha os olhos fixos no Nemetonº, coberto de cima a baixo por belas imagens entalhadas na pedra, e totalmente sem nexo. Em algum ponto do intrincado desenho ele sabia que havia um pouco de sangue coagulado do último infeliz executado para agradar aos deuses e trazer uma improvável sorte aos guerreiros da tribo. O pobre bastardo parecia patético sem sua espalhafatosa armadura de bronze, e gritara tanto que Arlen julgava ouvir os ecos de seu desespero na clareira primordial até mesmo naquele momento, três dias depois. Tiberius. Esse era o nome dele, segundo afirmava num arremedo de língua do povo de Arlen, gritando também algo sobre seu pai, Clodius, caça-los e matá-los a todos.

     “Os Homens de Bronze tem uns nomes bem ridículos” – Refletiu, com um sorriso tenso, o jovem homem na clareira que representava o centro da vida religiosa de sua tribo, cercado pelas sombrias árvores à que prestavam culto. Permaneceu lá durante minutos que pareceram horas, com uma massa amorfa de medo e raiva daquele povo invasor se agitando compulsivamente em suas tripas, fria e avassaladora, em luta ferrenha com a própria empolgação diante do fato de que em algumas horas seria finalmente um guerreiro. Não seria possível que todos os inimigos tivessem as gargantas cortadas durante o sono, pensou. E para os que fossem lutar ao invés de fugir, afiaria novamente sua espada antes de partir. Pelas suas mãos seriam enviados à Bela Ilha no mar do norte, e então ele ganharia o respeito dos veteranos.

     Foi sugado de volta à realidade por um som que apesar de usual e esperado acabou por surpreendê-lo. Passos. Passos firmes e pesados percorrendo a mesma trilha de lama, grama amassada e ervas daninhas que ele havia percorrido. Aquelas não eram as passadas de uma mãe que vinha implorar o favor divino em prol do filho que iria à guerra. Olhando para trás, se deparou com o homem que viria a liderar seu grupo durante a noite, Caradoc, tal como o ferreiro de que era aprendiz.

     Era um homem com o rosto quase todo coberto por uma hirsuta barba ruiva e cabelos igualmente desgrenhados, com olhos verdes profundos e voz gutural levemente falha de tanto gritar com seus homens, seus três filhos ainda vivos e a esposa. Era um homem possuidor de terras e conhecido por contar histórias prodigiosas de grandes batalhas, saques e mulheres sempre que podia. Suas proezas com espada e machado eram cantadas pelos trovadores até mesmo nas poucas tribos com que a de Caradoc e Arlen ainda não havia guerreado.

    Além do couro fervido, trajava uma escura cota de malha que ia até o meio das grossas coxas e trazia um elmo cônico de ferro embaixo da axila, como era próprio de um chefe tribal rico. O pomo de sua espada se assemelhava a uma cabeça, e o couro que cobria o cabo, mesmo manchado pelo constante manejo, era de melhor qualidade que o dos trajes de guerra de muitos dos que ele comandaria. A empunhadura se projetava da cinta próxima ao cabo de osso esculpido de um longo punhal que um sacerdote poderia tranquilamente esconder nas dobras do manto.

    – Enquanto os outros jovens garantem que terão dores ao nascer do sol devido ao treino obsessivo, eu não esperava encontrar alguém dessa idade descansando e buscando o favor dos deuses – Ele parecia demasiado reflexivo ao proferir tais palavras, chacoalhando a barba molhada ao mover os grossos lábios rosados. – Pelo seu semblante eu não posso definir se já está confiante na própria perícia e vem por respeito aos deuses, ou se acha que vai morrer logo que a luta começar!

     A gargalhada que saiu de dentro dele fez não só fazia a barba chacoalhar, bem como todo o corpo, enquanto a trovoada que era seu riso espantava alguns pássaros pequenos. O homem parecia um bom companheiro para bebedeiras e batalhas, mas também aparentava certa sabedoria, do tipo que vem com os anos.

    Ele se ajoelhou em silêncio diante da árvore mais alta com a cabeça respeitosamente abaixada, o rosto escondido pelo cabelo, e desembainhou sua espada num movimento ágil e brusco. A lâmina reluziu à luz pálida e matinal que banhava a clareira por um momento e terminou por jazer deitada na grama, paralelamente à árvore e ao dono. Arlen se levantou e deu as costas ao recinto sagrado, dando à Caradoc um momento a sós com os deuses e se embrenhando no curto trecho de floresta que se interpunha entre a aldeia e o altar de pedra cercado pelas árvores sagradas.

     – Lembre-se, garoto, o medo é o que nos mantem vivos, mas apenas a bravura conquista glórias – Disse o homem ajoelhado ante a árvore. O jovem regressando à cidade convivia com essa máxima desde o momento em que aprendera a compreender palavras, então não deu muita atenção. Ainda estava com a mente naquilo que o experiente guerreiro lhe havia dito antes. “Pelo seu semblante eu não posso definir se já está confiante na própria perícia e vem por respeito aos deuses, ou se acha que vai morrer logo que a luta começar!” – Mesmo utilizando toda a sua capacidade de reflexão, Arlen também não saberia responder qual das duas opções melhor se ajustava a seu estado de espírito.

*********

      As grossas linhas de tintura azul anil se enrolavam em seus braços como serpentes, terminando precisamente nas costas das mãos. O grosso saiote de lã escura, que ia até pouco além de seus joelhos, ondulava a cada uma de suas largas passadas junto ao grupo.

      A última tocha havia sido apagada havia pouco, e tinham que se movimentar com muito cuidado: Salvo por esparsos feixes de pálida luz da lua que conseguiam passar pelas copas das árvores, não havia iluminação alguma, e o criterioso silêncio dos homens tornava perceptíveis quase todos os inúmeros ruídos da floresta. Em algum lugar uma coruja piava desatinadamente; e a movimentação dos esquilos fazia as folhas das árvores restolharem. Um vento obstinado soprava na direção contrária, o que seria de grande ajuda caso os guerreiros do sul trouxessem cães consigo. Era também possível ouvir um córrego que corria não muito distante dali, onde eles haviam enchido os odres, não muito tempo atrás.

     A maioria daqueles homens sabia se movimentar por aquelas paragens com discrição devido aos anos em que haviam caçado por lá, e conheciam cada obstáculo no caminho. Arlen não era exceção. Já que seu pai era um aleijado, caçar era um de seus afazeres desde os quatorze anos de idade. Ele se sentia grato por isso ao silenciosamente ultrapassar as grandes e salientes raízes de um velho carvalho, sem maiores complicações. Alguns dos homens mais jovens, como ele, não haviam chegado a se aventurar tanto em suas caçadas, e enfrentavam atrozes dificuldades.

    O Caradoc guerreiro andava à frente do grupo, cinquenta ao todo, contando também ele. Quando os dois primeiros guardas foram avistados, chamou dois de seus comandados para abatê-los: Eram Aodh, um dos mais novos, e um velho que todos conheciam como Olho de Águia por um motivo mais que óbvio. Em poucos segundos, ambos jaziam imóveis no chão, um com uma flecha no olho, e o outro com o pescoço varado por semelhante projetil, cuja ponta ensanguentada emergia logo abaixo do pomo de adão.

     Após os arqueiros recuperarem suas flechas e destituírem os inimigos mortos de qualquer prata e outros objetos valiosos (Olho de Águia se viu de posse de um fabuloso bracelete de ouro e Aodh tomou para si um exótico punhal curvado, sem sequer imaginar que este viesse do longínquo oriente), mais duas duplas de batedores foram enviadas para fazer semelhante serviço nas redondezas de onde estava.

     Entre eles, estava Arlen, que foi acompanhado por um veterano caolho tão ruivo quanto Caradoc, que trazia nas costas um machado em nada diferente dos que se usa para partir lenha. Seguiram silenciosamente pelo flanco esquerdo de onde se acreditava haver um grupamento inimigo. Arlen trazia na mão direita o próprio arco, longo e de madeira clara, com uma seta delgada de ponta escura firmemente segura entre polegar e indicador da esquerda. Se ouvisse ou visse qualquer coisa potencialmente perigosa poderia disparar a flecha num piscar de olhos.

       O caolho tinha nas mãos uma espada curta de ferro escuro e denteado que parecia ter enfrentado inúmeros embates, e seu olho restante por vezes refletia a luminosidade pálida da lua. Era uma figura para se temer dentro ou fora do combate.

       Andaram por relativamente pouco tempo até depararem com outra dupla de vigilantes. O mais baixo deles segurava uma tocha, e o mais alto, um bonito arco ligeiramente mais curto que o de Arlen. Suas armaduras e a falta de luz impediam qualquer constatação adicional a respeito de suas respectivas fisionomias, mas estavam seguindo um rumo que em segundos os poria de costas para Arlen e o Caolho. Estes, porém, usavam seus elmos, o que dificultava uma execução à distância, e nenhum dos batedores presentes era tão bom arqueiro quanto Olho de Águia ou Aodh.

      Arlen se viu obrigado a recorrer à sua faca de caça, e por esse motivo deitou o arco e a flecha que tinha em mãos num amontoado de folhagem seca antes de tirar a arma da bainha de couro. O sibilar de ferro liso raspando em couro era um som demasiado baixo para ser notado pelos dois inimigos, que já iam se afastando, então ele e seu parceiro os seguiram, pisando cautelosamente enquanto se aproximavam novamente.

     Com um movimento ágil o jovem chutou a parte de trás do joelho do vigia estrangeiro e ergueu se queixo com a mão esquerda enquanto levava a lâmina à garganta do infeliz. O que ia ser um grito acabou por extinguir-se antes mesmo de começar de fato enquanto a vida do homem se esvaia num longo esguicho de sangue que acabou por apagar a tocha e impedir que o fogo se alastrasse pelas folhas secas. Caolho tapou a boca do soldado mais alto e enfiou a espada curta por baixo de seu braço, tendo que segurá-lo com força enquanto ele estrebuchava.

     No fim disso, Arlen estava enojado e desorientado com a absoluta rapidez com que duas vidas simplesmente deixaram de existir. Ele e o parceiro estavam à poucos metros de uma árvore com sete talhos de faca paralelos que representava um marco para os conhecedores da floresta, o que os fazia saber exatamente em que sentido deveriam andar. Ele disse ao Caolho que o esperasse enquanto ia buscar o arco, então voltou para onde deixara a arma, vomitando logo que se viu fora de vista. Aquilo simplesmente não era para estar acontecendo, já que desde sempre e ele sabia que viria a matar homens, mesmo que fosse em escaramuças com tribos vizinhas. Sentia-se enjoado, apesar de ter acabado de se livrar de tudo o que comera durante o dia. Não sem algum esforço, obrigou-se a acreditar que aquela reação era pelo fato de aquilo ter sido um assassinato e não o fruto de coragem e força no campo de batalha.

    Um calafrio medonho percorreu sua espinha só de pensar em quantas gargantas indefesas mais viria a cortar ainda naquela noite. O enjoo piorou, mas ainda assim Arlen escondeu um dos corpos em meio aos arbustos enquanto seu parceiro fazia o mesmo com o outro. Então prosseguiram.

Continua…

* Uma das três deusas da guerra e morte que compõe Morrigan, e é responsável pelos atos sanguinários no campo de batalha *

º Altar de pedra em que era feitas oferendas aos deuses º

Sobre Leonardo A.

Very, very messed up.

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