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O Favor de Badbh – Parte 02

Mais três pares de vigias assassinados na surdina e um tempo para contar as barracas e vigias restantes que patrulhavam a área do acampamento inimigo, em uma grande clareira, e os batedores estavam de volta. Os invasores tinham uma vantagem numérica de três para um, mas a maior parte dormia. Os guerreiros da tribo voltaram a avançar.

Uma pequena reserva de arqueiros ficou para trás, escondida entre as árvores com tochas acesas, prontos para uma saraivada de flechas incendiárias caso fosse necessário, e alguns dos arqueiros restantes e homens de pés leves e mãos ágeis foram eliminando os guardas em silêncio para que o resto do grupo pudesse e matar os que dormiam. Muitos ocupavam tendas, mas outros se amontoavam ao redor de fogueiras que iam aos poucos se extinguindo e dos restos das que já não mais queimavam. Arlen estava entre os primeiros a invadir barracas.

Deparou-se com três homens apenas parcialmente protegidos por armaduras incompletas, cada um em seu canto do abrigo de tecido, com as partes mais desconfortáveis da indumentária militar espalhadas entre si. Teve que dar aos cinzentos olhos algum tempo para se ajustarem à escuridão antes de entrar definitivamente na tenda, tomando o máximo cuidado para não fazer tinir nenhuma das peças de armadura que lotavam o chão. Já tinha a faca desembainhada e fê-la deslizar pelas jugulares de dois dos homens antes que o outro se apercebesse da estranha humidade quente que se espalhava pelo chão e empapava-lhe a barba.

Ele fez menção de gritar quando compreendeu a situação, mas Arlen foi mais veloz e tampou-lhe a boca, tentando levar a faca à seu pescoço sem êxito. Envolveram-se numa luta febril sobre a poça de sangue, o recém-desperto se contorcia e tentava impedir a faca de alcançar seu pescoço com uma das mãos enquanto socava com a outra, mas sem conseguir libertar-se do aperto que o impedia de dar o alerta.

O atacante ofegava e mantinha os dentes expostos como um animal raivoso que exibe as presas, mas não diminuía a força que empenhava na luta silenciosa que travavam. Sua mão desarmada se deslocou rápida como um raio para o pescoço do adversário, deixando o peso do próprio corpo aumentar a pressão exercida pelos músculos de seu braço. Sua faca subitamente desviada do pescoço para olho do soldado.

O homem se debatia com desespero crescente, tentando em vão se livrar do aperto na garganta antes de finalmente morrer sufocado, com a ponta da faca do selvagem quase próxima o suficiente de seu olho para arranhar a íris.

O jovem selvagem se levantou vagarosamente, satisfeito com a vitória, e cuspiu um pouco de sangue e pedaços de dente antes de sair da tenda. Ao menos o filho da puta não teve a ideia de fazer barulho com as peças de armadura no chão. Tinha a parte esquerda do corpo quase coberta de sangue, os dedos rígidos, um olho roxo e dois dentes a menos, mas se sentia bem. O repúdio inicial cedera lugar a uma alegria insana quando se viu fazendo mais do que furtivamente deslizar a faca através de uma artéria.

Do lado de fora, alguns cavalos também havia sido mortos, e jaziam ainda atrelados às carroças que puxavam, com os olhos esbugalhados, e boa parte dos homens já invadia a segunda tenda, e em casos especiais até a terceira. Arlen se apressou para não ficar entre os retardatários e se enfiou numa tenda mais adiante, degolando todos os soldados adormecidos antes que qualquer um deles pudesse sentir o vento frio que entrava pela abertura na barraca ou o sangue que se espalhava. Quando rumava para a próxima tenda um som agudo e penetrante, provindo de um daqueles instrumentos de sopro metálicos que os vigias inimigos traziam a tiracolo, se fez ouvir. Em poucos instantes todos gritavam.

Dois homens trajando cota de malha leve e grevas emergiram da tenda em que vira um veterano careca entrar, esbravejando xingamentos estrangeiros, com espadas curtas ensanguentadas nas mãos, tão raivosos quanto aterrorizados. Ambos vinham em sua direção a passos largos.

Ele recuou alguns passos e pegou uma comprida lança de madeira escura e ponta aguçada do chão, arremessando-a no homem da esquerda, para em seguida sacar a própria espada e correr desabaladamente na direção dos dois. Seu alvo desviou com um movimento brusco, perdendo levemente o equilíbrio, e não teve tempo de bloquear a estocada furiosa que o intruso desferiu contra seu peito. O golpe foi levemente desacelerado pela cota de malha, mas cumpriu seu propósito, passando por entre um par de costelas e atravessando pulmão e coração.

Uma golfada de sangue que parecia demasiado escuro sob a luz fraca da lua saiu pela boca do homem enquanto o selvagem tirava a espada de seu peito com pressa, desviando-se de uma cutilada do homem que acompanhava o falecido. O golpe seguinte foi parado pela lâmina de Arlen, adicionando um estrondo a mais à cacofonia brutal que se fizera após o soar da trombeta.

Os olhos verdes do guerreiro do sul se encontraram com os reluzentes olhos cinzentos de seu adversário por um instante em que estudavam um ao outro, então ele atacou. Enfureceu-se ao ver como o maldito saltara para fora da região que seu gladio alcançava e encadeou um novo golpe a partir do ponto em que sua espada já estava.

O jovem selvagem bloqueou este golpe com a faca de caça que agora segurava com a mão esquerda e com a espada cortou o pescoço do homem fundo o suficiente para alcançar uma vértebra, porém sem separar a cabeça do corpo. O inimigo foi ao chão como um grande boneco de pano, com a ferida aberta assemelhando-se a um macabro sorriso ensanguentado.

Lutava-se por toda a clareira.

Aquele que permaneceu sobre os dois pés se achava coberto do vital fluido carmesim, cercado por homens que lutavam. Jogou a faca no chão e equipou-se com um escudo pesado de metal dos invasores que estava jogado próximo aos restos de uma fogueira e partiu para cima do primeiro soldado inimigo que viu. Ele estava de costas e trajava um elmo, então Arlen enfiou a espada por baixo de seu braço, como já havia visto o Caolho fazer.

Não teve tempo de erguer o escudo após se virar quando notou alguém atrás de si e soltou um uivo de dor quando sentiu uma lâmina rasgando sua carne à partir do ombro, só conseguindo saltar para trás quando o corte já passava pelo lado do umbigo. Então bateu no inimigo com o escudo, desestabilizando-o por um curto espaço de tempo enquanto baixava a espada com toda a força contra o ombro do outro, abrindo um corte semelhante e bloqueando o golpe seguinte de seu adversário com o escudo, que reverberou longamente devido à força do golpe.

As espadas se chocaram novamente enquanto os escudos pressionados um contra o outro os impediam de andar para frente e permaneceram juntas, num duelo de força. Arlen conseguiu uma brecha e concentrou toda a força possível num chute que quebrou o joelho do oponente num súbito arroubo de fúria temerária. Caíram. Ele estava por cima, e conseguiu enfiar a espada na articulação que ligava um ombro ao braço da espada. Então, erguendo-se, desferiu uma estocada na barriga do homem que acabara de aleijar, bem a tempo de se meter atrás de uma carroça e erguer o escudo sobre a cabeça.

Muitos não puderam se esconder, pois ainda lutavam, e por isso, morreram.

Os arqueiros, menos que o número que haviam deixado para trás e sujos de sangue, emergiram de entre as árvores e uma chuva de flechas incendiárias iluminou a pequena porção de céu noturno que se podia ver de dentro da clareira, dando fim à primeira das batalhas de Arlen: O número de inimigos restantes era agora inexpressivo; e boa parte deles se rendeu. Dentre os que continuaram a lutar, apenas um foi capturado para servir de oferenda aos deuses, e o resto foi aniquilado.

Muitos homens da tribo também haviam deixado de viver, e estes seriam queimados antes de os sobreviventes do ataque enfim retornarem à aldeia. Os corvos e outros animais daquela floresta se encarregariam dos corpos dos invasores, cujas ossadas seriam abandonadas na floresta como um funesto aviso aos próximos invasores que viessem. Arlen esperava mesmo que da próxima vez em que os homens do sul mandassem caravanas de suprimentos para suas tropas mais ao norte, esses grupos de transporte deparassem com os restos de seus compatriotas.

Que tremessem de cima a baixo ante a fúria dos guerreiros do norte enquanto ele louvava a deusa que o amparara e crescia em força e destreza.

Fim

Sobre Leonardo A.

Very, very messed up.

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