Penúltimo

– Isso é cara para se comparecer ao fim do mundo? – pensou Marilu, enquanto se olhava no minúsculo espelho do quebra sol, acima do volante de seu carro financiado até o fim dos tempos.

Ela já estava cansada de aguardar os finais – da faculdade, da semana, dos domingos na casa da sogra, do jogo de futebol narrado pelo Galvão e embalado pelos gritos de Chupa! da vizinhança inteira. Já estava cansada de ansiar pelo término do financiamento do carro, e das prestações que fizera para os armários novos da cozinha. A verdade é que Marilu estava exausta!

Olhou-se novamente no espelho, observou que suas olheiras já estavam quase sendo promovidas a “queixeiras”, sacou um corretivo da bolsa e tentou ajeitar o estrago. Começou pelo olho esquerdo. Quando ia corrigir o lado direito, lembrou-se do cachorro da vizinha que havia latido a noite inteira e que era tudo culpa dele, se ela precisava usar seu corretivo novinho da M.A.C. numa quinta-feira pela manhã.

Quinta-feira, dia vinte… Ela estava esquecendo de alguma coisa… vinte de dezembro… Ah, droga! Estava atrasada para a consulta com a nutricionista. Havia perdido dois quilos na primeira semana e engordado três nas semanas seguintes. Deixou o corretivo de lado, engatou a primeira marcha e saiu praguejando até o consultório, certa de que aquela magricela impiedosa da Dra. Alice (recalque, é verdade) chamaria sua atenção para o ganho de peso. O que a nutricionista sabia das coisas, afinal? Ela não tinha dois filhos em idade pré-escolar, que iam a um aniversário cheio de guloseimas por semana. E não tinha um marido muito amado, chamado  Mário Henrique, que fazia a melhor picanha do mundo aos domingos e que a deixava com tanta raiva nos outros dias da semana, que ela explodiria se não comesse um chocolate.

A consulta foi como ela imaginava. Com muito jeito, a Dra Alice pontuou a necessidade de estabelecer um padrão alimentar mais saudável, com a introdução de fibras e alimentos crus, integrais, desnatados, com pouco sódio, naturais e inacessíveis. Explicou que seu índice de massa corpórea estava aumentando e afirmou ter certeza absoluta de que Marilu conseguiria se manter saudável. Afinal de contas, ela tinha dois filhos pequenos e precisava se manter bem para criá-los.

Ah, meleca! Os filhos. Já estava atrasada para a reunião da escola, evento esse que iniciava o período de maior terror na vida de Marilu: as férias escolares. Com quem ela deixaria os dois filhos? Como encaixaria um mês de atividades para os gêmeos? Arrumaria uma colônia de férias, uma babá, um milagre, duas avós, três tias e um atestado médico por insanidade mental. Afinal de contas, não poderia levar os garotos para o Fórum.

Céus! O Fórum! Teria uma audiência complicadíssima naquele dia.

As coisas não estavam indo muito bem, ela pensou. Talvez devesse conseguir uma passagem só de ida para Marte, já que as coisas por aqui acabariam em um dia. Às vésperas do fim do mundo, tudo o que ela queria era o fim daquele fotoperíodo. Estava um trapo. Um farrapo de gente. Morta com farofa. Na lona. Acabada. Só o pó da capa, entre outras formas pra dizer que se precisa de uma ida ao salão urgente.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. Ela ligara para Mário Henrique, avisara que as crianças eram todas dele. Explicou que havia comida na geladeira, roupas no armário dos gêmeos, água no chuveiro, um microondas ligado na tomada e uma esposa ameaçando entrar em autocombustão se não separasse duas horas de prazo para si. Ou três. Ficaria loira, faria as unhas, a sobrancelha, o buço, leria todas as revistas de fofoca do mundo inteiro e quem sabe quisesse uma massagem. Ou não. Talvez ela nem soubesse dizer seu nome completo àquela altura dos acontecimentos.

Voltou para casa. Os gêmeos assistiam Discovery Kids pendurados no lustre da sala. Exagero, ok, mas pulavam no sofá. Havia um prato de brigadeiro na mesa e um Mário Henrique muito concentrado atrás da coluna de esportes do jornal. Foi para o quarto. Quando olhou-se no espelho, quis chorar. O cabelo ficara ótimo, a sobrancelha também. Mas ela passara o dia todo com apenas um lado do rosto sem olheira. Corrigira somente o lado esquerdo. Sentia-se mono-olheira-à-direita. As lágrimas se formaram. Ia desaguar todo o cansaço ali mesmo.

Foi quando sentiu um par de braços a envolver-lhe a coxa. Um dos gêmeos a olhava de baixo pra cima, com cara de adoração e um sorriso de derreter qualquer pessoa.

– Mamãe linda! – ele de derramou em admiração.

E Marilu jogou fora toda sua contrariedade. Com ou sem olheiras, ela era muito amada. E se o mundo acabasse amanhã, como os malucos apregoavam por aí, ela estaria linda, loira e feliz.

– Quem quer acampar na sala? – ela gritou e se atirou para cima dos filhos.

Sobre Fernanda Coelho

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Se você é psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta, apaixonado por essa área do conhecimento humano, ou se - no mínimo - conhece alguém que o seja, por favor, não leia essa crônica. Se você é conhecido de algum pai de santo, se faz despacho ou algo do gênero, eu peço, não leia esse texto.

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