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Rala, superego, que meu id vai passear!

Superego querido,

Você que fica aí entocado em algum lugar escondido da minha própria cabeça, se insinuando vez em quando (ou vez em sempre), me censurando e deixando muito claro o que eu não devo fazer em hipótese nenhuma, sob pena de sanções terríveis, prepare-se.

Não é uma ameaça, meu pequeno déspota interno, o que vou te fazer. É antes um aviso justo de uma pessoa que, por um tempo enorme só lhe deu ouvidos: ponha as barbas de molho, superego, que meu Id anda querendo passear. Sim, essa parte inconsequente, que você deu um jeito de trancafear, de alguma forma andou descobrindo um jeitinho de pôr o nariz de fora. E aí, meu amigo, você já sabe, a confusão está armada!

Vez e outra, quando você está desavisado, ele vem na pontinha dos pés e me sugere que pire, faça algo errado, só pra variar. Vou te contar uma coisa e você acredite: meu id tem uma voz macia, leve e convincente. Ele é muito mais gentil que você, com essa sua cara sisuda. E mais: ele é engraçado! Quando ele se vai, deixando um monte de caraminholas espalhadas pelo caminho, me ponho a rir sozinha. Ele é tão divertido!

Bem. Aí você aparece, trazendo logo uma vassoura, pá e material de limpeza, junta todas as possibilidades que, tão caprichosamente o meu id espalhou, me olha com uma cara de reprovação e me põe de castigo. E o pior de tudo: eu vou! Bufando de raiva, mas vou.

Sei que nesse exato momento você deve estar aí esfregando as suas mãos, sentado em uma poltrona de espaldar alto e rindo da minha cara.

E é exatamente por isso que vou te avisar mais uma vez: amarre as calças, superego querido, que meu id anda passeando por aí. E mais: existe uma chance que eu o deixe livre de vez em quando!

Beijinhos,

Sobre Fernanda Coelho

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