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Saci e os Tempos Modernos

Já vai longe o tempo em que o Saci perdia tempo trançando crina de cavalo, fazendo as cozinheiras perderem o ponto do bolos e assustando os viajantes. Já passou a época em que ele ficava por aí assoviando, fumando cachimbo e colocando cinza em comida. Sim senhor. O mundo evoluiu e o Saci, esperto que é, acompanhou todas as mudanças.

Ele aproveitou tudo o que a modernidade trouxe de novo e associou às inovações, suas antigas travessuras. O resultado? Uma gama infinita de traquinagens que beiram a crueldade. Sim, porque se antes ele achava engraçado esconder enxadas, agora ele descobriu o prazer de esperar os últimos quinze minutos de um download enorme para provocar uma queda de energia.

O Saci ainda mantém os velhos hábitos – esconder, estragar, bagunçar e rir da nossa cara – mas agora essas atividades estão mais refinadas, por assim dizer. Se antes ele estragava os arreios e sumia os freios dos cavalos, agora ele aprendeu a sumir as chaves dos carros. Se ele se divertia fazendo vendaval em dias de varal cheio de roupa limpa, agora ele dá um jeito de soltar graxa nas roupas dentro da máquina de lavar. O danado aprendeu a descobrir quando as pessoas estão ansiosas por uma ligação e dá a dica para os operadores de telemarketing, só para ver a decepção estampada no rosto da criatura que pega o celular no susto.

Ele descobriu um jeito de estragar as impressoras exatamente quando você mais precisa delas; de sumir com todas as canetas disponíveis num raio de cinco quilômetros, quando se precisa anotar um recado urgente; de provocar engarrafamentos históricos e puxar o freio de mão de todos os carros na frente do mais atrasado da pista. O safado aprendeu a colocar o pé na frente das mulheres quando elas saem com saltos novos, de fazer as unhas recém-pintadas se encherem de bolhinhas, de bagunçar os cabelos recém-escovados e de sumir as melhores roupas quando se quer sair.

Engana-se, é bom que se diga,  quem pensa que suas atuações estão restritas ao ambiente doméstico. Num banco, ele é responsável pelas diferenças de caixa; nas ruas, ele montou Escolas de Formação de Flanelinhas; nas escolas… bem, nas escolas ele não faz nada, porque a criançada em si já deixa todo mundo doido. Ele some relatórios, acaba com o papel das bobinas nos momentos mais inapropriados, trava os computadores, entre outras maldades.

Existe, entretanto, um lugar onde ele adora ficar: enfermarias em geral. Ah, leitor querido, você não imagina o que um Saci é capaz de fazer em uma enfermaria. Ele dança ciranda entre as camas e vai aprontando: aperta os botões das bombas de infusão, de maneira que todas apitem ao mesmo tempo; belisca as crianças, de maneira que todas chorem em uníssono; joga pó de vômito para cima, de maneira que as pobres (e já descabeladas) enfermeiras tenham que se dividir entre um e outro pobrezinho que está botando os bofes pra fora. Não bastasse isso, ele solta os curativos (ou molha), obstrui acessos venosos, esvazia os frasquinhos de medicação (de maneira que só fiquem faltando cinco gotas para inteirar a dose) e faz as pessoas pedirem algo exatamente quando você está terminando de contar a quinquagésima terceira das sessenta e quatro gotas de uma medicação. E ri, como ri, esse infeliz.

O mais incrível de tudo é que quando ele se cansa da brincadeira, vai embora sem quê nem porquê. Aí as impressoras voltam a funcionar, as canetas aparecem, as crianças voltam a comer, os computadores destravam, a chave do carro aparece e a vida segue, serena e tranquila, como se ele nunca houvesse aprontado.

Eu, todavia, não me deixo enganar. Sei que ele é persistente e que fica à espera do momento mais engraçado para agir. É por isso que, quando eu passo por um redemoinho, fico imaginando: ah, se eu tivesse uma peneira aqui… prendia esse danado e ia ter sossego.

Beijinhos,

 

Sobre Fernanda Coelho

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