
O que pensaríamos de um livro com o titulo de coração? Seria um romance daqueles que o sentimentalismo piegas se confessa aos olhos do leitor? Ou seria uma narrativa em que o autor relata seus amores e suas perdas? Diferentemente das narrativas ocidentais em que ação e a trama são concentradas no enredo, a japonesa enfoca principalmente os sentimentos e o romance Coração (Kokoro, tradução do japonês de Junko Oto, 279 páginas, R$ 30,00) publiacado pela Globo Livros, é amostra dessa abordagem narrativa, numa obra que com certeza será uma ótima introdução para a literatura japonesa.
Escrito pelo pioneiro do modernismo japonês Natsume Soseki, autor que influenciou gerações de escritores, de Akutagawa Ryonosuke a Oe Kenzaburo, tão importante para os japoneses que de 1984 até 2004, seu rosto esteve estampado na nota de 1000 ienes. Seu talento era tão amplo, que da sátira ao sisudo, do coloquial simples ao ornamentado, tudo passava pela suas mãos. Parecia que Soseki era capaz de escrever sobre tudo e com uma qualidade brilhante. .
Publicado em 1914, dois anos depois da morte do último imperador Meiji e dois anos antes de sua morte, nos fascículos no jornal Asahi Shimbun, com o titulo Kokoro, sensei no isho (Coração: o testamento de professor), a obra segue o tema do período maduro da literatura do autor, onde o relacionamento amoroso das pessoas é sempre colocado junto ao egoísmo. Constrói a sensação no âmago do ‘coração humano’ em seu sentimento simulacro aos rumos da modernização japonesa na era Meiji:
“Agora nesse momento estou para rasgar o meu próprio coração, para banhar com meu sangue o seu rosto. Eu ficaria satisfeito se, no momento em que meus batimentos cessarem, você estiver gerando uma nova vida em seu coração”.
A história narra a relação entre as emoções de um jovem da geração Taisho (1912-1916) e um homem mais velho da geração Meiji (1868-1912), o livro se divide, de maneira bem simples, em três partes. A primeira, “o professor e eu”, narra a amizade desse jovem, “eu” com o “professor”, que apesar de sugerir uma vasta experiência de vida, não a revela ao jovem amigo. A segunda, “meus pais e eu”, o jovem parte da capital japonesa para sua cidade natal, em função da doença do pai, e iniciando a descrição de suas relações familiares. Na última parte, “o professor e o testamento”, numa coincidência temporal com a morte do imperador Meiji, “eu” deixa, o pai doente para retornar a Tóquio receber a carta-testamento do “professor”, e onde, enfim, revela sua história, incluindo disputas familiares por herança e um triangulo amoroso. Vemos que o livro de Sosek traz uma tonalidade impar em seus personagens, a amizade e o amor são tons cosméticos para a solidão, dois homens de diferentes gerações explorando os kokoros. Uma análise das motivações psicológicas e sócias de diferentes gerações que afetam a maneira como os personagens se comportam.
A tradução direta de Junko Ota, que também assina as notas, emprestando credibilidade à autenticidade da língua, sem dúvida impecável. o livro ainda possui prefácio de Roberto Kazou Yokota e posfácio de Shoji Shibata, professor de literatura japonesa da Tokyo University of Foreign Studies. Yokota mostra como o livro possui certa atualidade em sua leitura: ”(…) um mergulho na condição humana, muito além dos exotismos, nacionalismo e choques culturais superficiais.(…) Soseki não parece escrever para o inicio do século XX, escreve para qualquer modernidade, inclusive a nossa. Permanece e permanecerá atual enquanto enfrentamos os mesmos dilemas, enquanto compartilhamos dos mesmos sentimentos, enquanto sofremos impactos semelhantes”.
A linguagem delicada, lenta com uma economia precisa de idéias e palavras. A história simples de Sensei, sua esposa, do jovem e sua família estabelece um quadro básico sobre o qual Soseki tece as emoções que são o verdadeiro foco do livro. Um trabalho, como já dissemos, brilhante, recomendado para quem deseja sentir a exploração que Soseki faz do comportamento humano e da influencia de uma geração que desaparece com a vinda de uma nova, a que chamamos de moderna.
Onde Comprar: Cia. dos Livros





























Gostei muito da resenha,ainda mais o livro.
Gosto publicamente da cultura japonesa e acho que esse tem tudo a ver comigo.
Não conheco praticamente nada da cultura japonesa e muuito menos da literatura, mas parece ser um livro muito bacana, principalmente quando é descrito por uma resenha tao legal e bem feita.
bjus