Início / Literatura / Resenhas de Livros / Resenha | O Homem do Castelo Alto, de Philip K.Dick

Resenha | O Homem do Castelo Alto, de Philip K.Dick

O professor e escritor inglês Adam Roberts, em seu livro, Science Fiction, analisa que a ficção científica não se projeta somente no futuro, ela também relata uma história sobre o presente e, principalmente, sobre o passado que deu origem a esse presente. E um dos mais célebres escritores de ficção cientifica, Philip K. Dick, reforçou essa análise em seus livros, principalmente em O Homem do Castelo Alto – titulo original em inglês, The Man in the High Castle – (304 páginas, R$ 44,90), que a editora Aleph traz em uma nova versão, com ótima tradução de Fábio Fernandes.

Capa da edição da Aleph

Obra-prima de Dick, escrita em 1962, o livro agraciado com o Prêmio Hugo de Melhor Romance, é uma ficção de História Alternativa, um filão que está com um bom momento no mercado nacional. Extrapolando a linha do tempo, o autor narra os efeitos no cenário mundial da vitória na Segunda Guerra Mundial dos países do Eixo, a Alemanha nazista e o Japão imperial. O romance tem como ambientação os Estados Unidos – no ano de 1962, 15 anos depois que os Aliados capitularam na Segunda Guerra Mundial -, que praticamente não existem mais e foram divididos entre os alemães e os japoneses; a costa oeste pertence ao império nipônico e a costa leste ao Reich nazista. É nesse cenário bipolar – uma analogia à Guerra Fria – que um livro clandestino escrito pelo homem do Castelo Alto toma conta da imaginação das pessoas por descrever a nossa história, quando os Estados Unidos e os aliados venceram a Grande Guerra.

Cada um dos personagens apresenta um aspecto de um mundo aonde a Humanidade chegou mais cedo a Lua, os nazistas fizeram uma corrida espacial que os levaram até Marte e Vênus, uma realidade assustadora onde os negros e os judeus foram quase todos exterminados – o Holocausto foi quase completo, os poucos judeus se escondem com novas identidades e a África fora exterminada, os que sobreviveram se tornaram escravos. Entrelaçados pelos ditames do milenar I-Ching, cuja leitura leva cada um dos personagens principais a seguir seu destino e a meditar sobre: Hawthorne Abendsen, o escritor do livro proibido; Robert Childan, o negociante de artigos do “american way of life”, vendidos como souvenirs de luxo, envolto em ser aceito pela rígida sociedade japonesa, o casal de judeus camuflados, o fascista disfarçado de caminhoneiro, entre outros, todos caminham pra uma surpreendente e fantástica conclusão.

Philip Kindred Dick (1928-1982) explorou o tem da realidade alternativa na maioria de seus livros, pouco reconhecido em vida, suas várias adaptações para o cinema o tornaram tanto conhecido, aclamado pelo público como pela critica. Dick inspirou, para citar alguns, Blade Runner – O caçador de Andróides, O Vingador do Futuro, Minority Report – A Nova Lei, O Pagamento e O Homem Duplo, sempre explorando o tema realidade e humanidade, preferindo pessoas comuns que não são os donos da verdade como protagonistas que heróis poderosos e orgulhosos de outras ficções.

 O Homem do Castelo Alto, outrora publicado no Brasil pela José Olympio em 1971 e pela Brasiliense em 1986, é um livro instigante e questionador, que vale a pena ler, reler e refletir.

Sobre Cadorno Teles

Leia Também

Resenha | 1+1 – A Matemática do Amor, de Augusto Alvarenga e Vinícius Grossos

“Não lembro muito bem como eu e o Bernardo nos conhecemos. Até onde sei, ele …

Resenha | A Terra Inteira e o Céu Infinito, de Ruth Ozeki

Uma vez, um velho Buda falou: Para o ser-tempo, parado no cume da montanha mais …