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Resenha | Brasyl, de Ian McDonald

Três personagens, três histórias, três Brasis. Ligados através do tempo, do espaço e da realidade.

Edson é um empresário de celebridades, tentando sair das favelas de São Paulo em um futuro não muito distante. Um encontro aleatório o fez cair no mundo perigoso da computação quântica, sem ter para onde fugir em um Brasil em que cada rosto e centavo é rastreado.

Marcelina é uma produtora de TV que sai pelas ruas do Rio em busca do sucesso que lhe trará fama. Quando uma ideia para um programa a faz rastrear os traços do mais infame goleiro do futebol brasileiro, se envolve em uma antiga conspiração que ameaça não só a sua vida, mas também a sua alma.

Padre Luís é um missionário jesuíta que vasculha as profundezas da Floresta Amazônica do século XVIII em busca do padre renegado que tenta estabelecer um império. Mas o que ele encontra aí põe em cheque a sua fé e a própria realidade.

Resenha

Em Brasyl somos “jogados” em um caleidoscópio de situações e gêneros, somos introduzidos a uma mistura ficcional onde nos é apresentada três narrativas aparentemente distintas do Brasil: o passado no Século 18, o presente em 2006, e um futuro próximo em 2032. Sendo que, os nossos “presente” e “passado” não são necessariamente esses apresentados no livro.

– Pois, padre, o Brasil não é igual a outros lugares. O senhor vai descobrir que pouca coisa acontece aqui sem estímulo.

O livro nos trás a historia de três personagens situados em diferentes cidades Brasileiras. Uma numa São Paulo futurista cyberpunk; outra num Rio contemporâneo, envolto em noticiários sensacionalistas e reality shows de gosto duvidoso; e, por fim, uma no passado, indo de uma Salvador escravocrata a uma floresta amazônica selvagem e misteriosa. São enredos distintos, mas que estão interligados através do tempo, de realidades e de universos distintos. Havendo esta interligação, as possibilidades se tornam consequências. Mas seria possível um universo interferir no outro? Seria possível viajar entre estes universo? Quem conhece esta verdade? E quem controla isso? Estas e outras dúvidas são respondidas durante o livro.

Na realidade paralela do presente, vemos Marcelina, uma uma produtora de TV que também é capoeirista, procura a ideia perfeita de um programa sensacionalista, e mantém um caso com um colega sem saber se sente amor; na realidade do futuro, vemos Edson, um homem que de dia é empresário, de noite é uma travesti rainha de baile funk e, nos fins de semana, tem um fetiche homoerótico de super-herói com seu Sr. Pêssego, um professor de física, e ainda é apaixonado por uma cientista especialista em física quântica; e na do passado, vemos Luis, um padre jesuíta irlandês, que ao mesmo tempo é um espadachim assassino que depois vira um general de guerra, ao lado de um cientista francês bon vivant. Ufa! Realmente, são três realidades bem distintas. 

O leitor mais atento perceberá, sem que o autor precise nos dizer, que cada realidade possui certas diferenças comparado ao nosso mundo real. O que me deixou meio preocupado, achando que fosse um erro de pesquisa do autor britânico ou uma liberdade exagerada, mas depois vemos que faz todo o sentido na história. Podemos citar as duas seguintes:

  • O Rio de 2006, onde Marcelina busca Barbosa, não é o nosso Rio, é um Rio onde Barbosa ainda tá vivo, no nosso ele morreu em 2000;
  • E, no Brasil de 1732, onde Luis chega e vê negros e índios jogando algo parecido com o futebol, não é o nosso, pois só se tem notícias deste esporte em nossa terra por volta de 1875.

A realidade física consiste em todos esses universos fantasmas empilhados um ao lado do outro: o multiverso e – na menor, mais breve e fraca das escalas – as portas entre os universos se abrem.

Brasyl não é um livro fácil, o autor escreve de uma forma que muitas vezes nos deixa um pouco perdido, tendo que reler e prestar melhor a atenção no que tá lendo. Além da linguagem um pouco mais difícil que o normal, o autor se utiliza de vários vai-e-vens no enredo, o que gera certa dificuldade de leitura. E nem muito menos é um livro de Ficção Científica convencional, foge um pouco dos clichês. Talvez nos faça lembrar um pouco de Matrix e seu mundo virtual.

O Ian McDonald, mesmo sem ter morado no Brasil, fez uma pesquisa impressionante. Eu esperava um livro cheio dos famosos estereótipos e clichês gringos, como violência, bundalelê e um país no meio da selva amazônica. Mas, apesar de ter alguns dos clichês clássicos, eles foram muito bem trabalhados, gerando uma miscelânea cultural fantástica, onde vemos de tudo que existe em nosso país: favela, capoeira, futebol, tv, índios e floresta amazônica. Lendo alguns poucos livros sobre o Brasil disponíveis em inglês, ele conseguiu captar com precisão impressionante o espírito do povo brasileiro. Fez incríveis observações críticas sobre a importância que nós damos atualmente à beleza, ao futebol e à televisão.

Ganância, vaidade, voracidade, brutalidade e desprezo pela vida são vícios de todas as grandes nações do mundo. No Brasil elas são virtudes corretas e praticadas com zelo.

Com relação ao design gráfico da obra, na capa belíssima vemos um Rio de Janeiro com prédios futuristas (apesar da cidade do futuro vista no livro ser São Paulo), e na contra-capa vemos uma imagem envelhecida do mesmo Rio de Janeiro. Já no miolo do livro, vemos outra ideia genial: As três histórias são diagramadas de formas diferentes! Ou seja, cada realidade possui uma história contada com tipografias e estilos diferentes. E, ainda, no final do livro encontramos um glossário, uma lista de livros utilizados como referência pelo autor e uma playlist do livro.

Playlist de Brasyl

Finalizando, Brasyl não é um livro sobre o “nosso” Brasil, mas consegue mostrar a “nossa” realidade. Definitivamente é um livro que todos os brasileiros precisam ler. Não é um livro fácil, mas é um livro fascinante.

O homem que ri sempre pode vencer o homem com raiva porque o homem com raiva é burro, age com raiva, e não com malícia.

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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