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Resenha | Eu, Christiane F., a Vida apesar de tudo, de Christiane V. Felscherinow

imagesChristiane Vera Felscherinow, mais conhecida como Christiane F., nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 20 de maio de 1962. Ficou famosa ao dar o depoimento de sua vida aos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck, que, na ocasião de seu julgamento por uso de drogas, preparavam uma grande matéria sobre a juventude alemã para a revista Stern. Esse depoimento acabou sendo a base para o livro que viria a se tornar o best-seller nº 1 da Alemanha – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo –, o qual narra a trajetória de três adolescentes que se prostituíam numa estação de metrô para poder comprar drogas. O livro foi publicado em várias línguas e, no Brasil, recebeu o título de Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída… Trinta e cinco anos depois da edição original, Christiane V. Felscherinow retorna àqueles tempos que se seguiram à publicação do livro e às diferentes etapas de sua vida até os dias de hoje: dos anos felizes na Grécia à sobrevivência na prisão, do combate ao vício aos encontros com seus ídolos do rock, da aparição de um anjo da guarda aos momentos de felicidade com seu filho Phillip.

RESENHA

Quando li Eu, Christiane F., 13 anos drogada e prostituída, eu não tinha nem isso de idade. Meu irmão quem me emprestou e eu era tão bobinha ainda que, certo dia, me vendo com o livro nas mãos minha mãe me disse: “Nadja, este livro é muito pesado para você, minha filha”, olhei dela para o livro e de novo para ela e pensei: pesado? Mas é um livro tão pequeno! Fui entender o sentido do “pesado” um tempo depois.

Christiane F. me marcou. Se bem me lembro foi o primeiro livro com tema definidamente adulto que li, e nunca mais o esqueci. Prova é que, logo no início das páginas deste segundo volume de sua biografia, lê-se uma passagem entre Christiane e Detlev que quando vi, enxerguei novamente todas as ruas, becos, o Zoo, as escadarias cheirando a urina… revivi todas as sensações vividas há mais de 25 anos. Mais uma magia da leitura. Te dá uma memória incrível!

Na primeira biografia o livro termina deixando para o leitor mais esperançoso uma sensação de: Ufa! Curada! Mas é uma biografia, e não um romance, certo? E a vida real não é um conto de fadas. Christiane não é uma heroína. É uma mulher de carne e osso, virtudes e defeitos. Tal qual cada um de nós. Portanto não, não há milagres. Novamente a história é dolorida, trágica e frágil. Assim como no primeiro, há momentos que em nos compadecemos de Christiane e em tantos outros a vontade é de dizer: “Bah!!! Ela não tem jeito mesmo”. É o mundo do vício, do organismo que não obedece à coerência no seu mais alto grau de simplicidade.

Christiane vive situações únicas depois que publicado seu livro. Agora ela tinha o dinheiro proveniente das edições e também do filme baseado em sua história (ah, mais um marco de Christiane F. em minha vida: primeira vez que um filme baseado em um livro me decepcionou). Dinheiro este que gerou uma dicotomia, pois ela soube economizar e guardar bem para não perder tudo e novamente ter de viver à míngua, mas ao mesmo tempo lhe faltou sabedoria em conseguir se controlar e não usá-lo para comprar drogas. Ele foi sua salvação e a oportunidade de novamente estar sob domínio…

Dentre todas as coisas vividas por ela e contadas nestas páginas, as mais aterrorizantes, pelo menos para mim, são relacionadas a Phillip, seu filho. As páginas são escritas com muita verdade e desprendimento, em momento algum Christiane parece falar para gerar pena ou piedade, nem mesmo fala como se quisesse se justificar. Não. Somente conta, expressa e retrata os fatos. E esta transparência me fez sentir muita tristeza quando alguns fatos aconteceram entre ela e seu filho. Talvez por conta de eu ter um filho com poucos anos menos idade que Phillip, mas senti na pele as dores dela. Triste de verdade.

Falando em vício e drogas, penso que este livro demonstra duas faces. Primeiro, a trágica realidade dos viciados, que na maioria das vezes não conseguem nunca mais se livrar das consequências de seu vício, mesmo que permaneçam limpos por anos. A marca nunca mais sai, como uma cicatriz ou tatuagem. O seu corpo muda. Suas necessidades e pensamentos mudam. E não há nada que se possa fazer quanto a isso. A outra face é de que, apesar disso tudo, um viciado ou ex-viciado é um ser humano além do vício. Por mais marcado que esteja, por mais transformado que tenha sido, ele é, antes de viciado, um ser humano. São muito mais do que o vício e todos precisam enxergá-los como tal.

Enfim, biografias são complexas porque não cabe julgamento por parte do leitor. É a vida contada. E cada um conta a sua como acha mais coerente. Posso dizer que esta é verdadeira, clara e real, mesmo com as passagens despretensiosas contadas por Christiane do período pós publicação do primeiro livro e que resolveu enveredar pela carreira de cantora. Os encontros que ela narra tem um quê de ilusão, surreais. Mas ela conta com tanto desprendimento que sim, parece até um fato corriqueiro.

A edição da Bertrand Brasil é impecável, como sempre. Sem erros, sem falhas. A inserção de fotos coloridas no meio da história deram uma proximidade com Christiane que achei fabuloso. Quase acredito que se a encontrar pelas ruas, ela irá me olhar e iremos nos cumprimentar!

Sobre Nadja Moreno

Blogueira amante de livros. Sempre em busca do mais e melhor, em tudo.

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  • Eu adoro o filme, sempre quis ler o livro, e agora quero muito ler esse também! Por que você não gostou do filme?

  • thayna ta

    Não gosto muito de biografias, mas a dessa Christiane a vida dela parece ser bem trágica, realmente biografias na maioria das vezes nem sempre tem finais felizes, como relatam fatos reais… e não gosto muito de pessoas que fazem as coisas para que outros sintam pena e piedade.
    Nunca ouvi falar sobre o filme, mas já vi essa capa rondando várias vezes na internet.
    Beijos Nadja, ThaynáQ.

  • Nunca li o primeiro livro, mas lembro-me que este foi o unico livro que meu irmão leu em toda a sua vida, obrigado pela professora, mas segundo ele a história era incrivel e ele nunca conseguiu abandona-lo como fazia com os outros.
    Tive vontande de ler, porém o livro foi roubado da biblioteca da escola, e nunca o achei para comprar. Acredito que um livro como esse serve de exemplo para os nossos jovens que vivem a vida de maneira perigosa, que se jogam no vicio e até na prostituição, a estória funciona como um choque de realidade.

  • Nadja!
    Quando li Eu, Christiane F., 13 anos drogada e prostituída, fiquei totalmente chocada porque tinha a mesma idade que ela e de tão inocente que era, nunca imaginava que pudesse existir tal realidade. Anos depois o reli e continuei chocada, agora pela pouca idade da protagonista e estar envolvida em tantas situações impossíveis.
    Agora tenho vontade de ler Eu, Christiane F., a Vida apesar de tudo; porque como falou, é a vida dela real.
    Obrigada.
    cheirinhos
    Rudy