Início / Literatura / Resenha | Ninfeias Negras, de Michel Bussi

Resenha | Ninfeias Negras, de Michel Bussi

Giverny é uma cidadezinha mundialmente conhecida, que atrai multidões de turistas todos os anos. Afinal, Claude Monet, um dos maiores nomes do Impressionismo, a imortalizou em seus quadros, com seus jardins, a ponte japonesa e as ninfeias no laguinho.
É nesse cenário que um respeitado médico é encontrado morto, e os investigadores encarregados do crime se veem enredados numa trama em que nada é o que parece à primeira vista. Como numa tela impressionista, as pinceladas da narrativa se confundem para, enfim, darem forma a uma história envolvente de morte e mistério em que cada personagem é um enigma à parte – principalmente as protagonistas.
Três mulheres intensas, ligadas pelo mistério. Uma menina prodígio de 11 anos que sonha ser uma grande pintora. A professora da única escola local, que deseja uma paixão verdadeira e vida nova, mas está presa num casamento sem amor. E, no centro de tudo, uma senhora idosa que observa o mundo do alto de sua janela.

RESENHA

Dizer que o gênero de Ninfeias Negras é “somente” thriller policial é diminuir o impacto da obra. Não que thrillers policiais não sejam bons. Me entenda bem. Este é, na verdade, meu gênero literário predileto. Porém, Ninfeias Negras consegue extrapolar o gênero e trazer algo que o destaca dos demais.

Não é comum histórias de assassinatos se centrarem na investigação, no investigador (não raro cheio de manias e com sérios problemas conjugais) e na descoberta da motivação. Porque todo crime tem uma motivação. Pois bem, a centralidade da obra de Bussi escapa deste lugar comum com maestria. A motivação está ali, roçando os dedos do leitor a cada página virada. Mas como está escondida! Mas como ela nos engana! Mas mais do que o crime e a investigação, toda a obra está deitada num manto de arte que envolve o leitor.

O enredo se desenrola em Giverny, na Normandia. Lugar real, berço de, ninguém mais ninguém menos que Claude Monet. O Monet do Impressionismo. Olhando imagens da cidade, em alguns momentos fica difícil distinguir o que é uma foto, e o que é um quadro de Monet. Impressionante, sem intenção do trocadilho.

Jardins de Monet, em Giverny

Neste cenário de obra de arte, uma morte estranha acontece. Estranha por caber em sua descrição tantas teorias quanto a imaginação criativa do povo local poderia vislumbrar. Em meio à morte trágica daquele homem, o leitor se vê às voltas com Laurenç Sérénac – o investigador, Sylvio Bénavides – seu meticuloso assistente, Stéphanie Dupain – a bela professora, Jacques Dupain – o suspeito marido ciumento, crianças de 11 anos, uma idosa e seu cachorro curioso. Todos personagens indispensáveis à trama, todos personagens únicos, mas que exercem mais de um papel neste enredo genial.

A narrativa transita entre a visão da velha senhora, em primeira pessoa, e acontecimentos envolvendo os demais personagens, em terceira pessoa. A fala da velha senhora é direta e claramente direcionada ao leitor – ou aos leitores – e ela se comporta claramente como aquelas velhas senhoras que toda pequena cidade tem aos montes: que sabem de tudo que acontece e porque acontece e que possuem sua própria visão detalhada da coisa toda. Durante a leitura é impossível não desejar sentar-se no banco da praça com ela para ouvir suas histórias. E que histórias ela teria para contar.

“Desta vez, não estou na janela espiando. Isso mostra, vejam vocês, que, apesar das aparências, não passo o dia só vigiando o entorno. Enfim, não só.”

Bussi surpreende apresentando uma obra que faz jus ao plano de fundo escolhido – arte Impressionista. A montagem da história, o desenrolar e o desfecho impressionante transformam Ninfeias Negras numa obra de arte da literatura. Nada é o que parece, tal qual a ilusão que temos ao olhar muito de perto um quadro. É preciso que se afaste e se olhe de longe e perceba a harmonia de cores e pinceladas precisas. Assim é Ninfeias Negras. Desista de traçar conjecturas enquanto lê. Permita-se, antes, absorver todos os detalhes, todas as nuances, notar cada detalhe e, no fim, olhar de uma certa distância e perceber que você estava enganado o tempo todo. Que nada era o que parecia ser.

O título, Ninfeias Negras, também é baseado na história real de Claude Monet, que pintou uma série de quadros de seu jardim de nenúfares, as belas ninfeias, em Giverny. Embora muitas cores tenham sido usadas por Monet para compor seus quadros de ninfeias, pode-se dizer com certeza de que preto não foi uma delas (será?). No livro há uma lenda sobre Monet ter pintado, já no final de sua vida, um novo quadro com ninfeias negras retratando seu fim. Fica a dúvida se este relato faz parte da ficção ou da realidade retratada nestas páginas.

Ninfeias – de Monet

No final não há uma reviravolta. O desfecho me lembra um hábito que tinha quando criança, de dobrar um pedaço de papel diversas vezes e ir fazendo pequenos recortes e aberturas nele, tantos quantos coubessem naquela pequena dobra. Depois, ao abrir, me deparava com uma criação linda, simétrica, quase que como uma toalhinha bordada por mãos hábeis. O final da história é assim. Estava ali o tempo todo, mas só permitindo ser vislumbrada após desfazer todas as dobras.

Desnecessário dizer que a Arqueiro, mais uma vez, faz jus à obra em sua publicação. Sem dúvida, uma obra impressionante, um quadro a ser revelado, uma história que não é o que parece ser. Indispensável.

 

Giverny é uma cidadezinha mundialmente conhecida, que atrai multidões de turistas todos os anos. Afinal, Claude Monet, um dos maiores nomes do Impressionismo, a imortalizou em seus quadros, com seus jardins, a ponte japonesa e as ninfeias no laguinho. É nesse cenário que um respeitado médico é encontrado morto, e os investigadores encarregados do crime se veem enredados numa trama em que nada é o que parece à primeira vista. Como numa tela impressionista, as pinceladas da narrativa se confundem para, enfim, darem forma a uma história envolvente de morte e mistério em que cada personagem é um enigma à…

Ninfeias Negras

Capa & Diagramação
Narrativa & Diálogos
Enredo
Personagens
Revisão

Excelente!

Desnecessário dizer que a Arqueiro, mais uma vez, faz jus à obra em sua publicação. Sem dúvida, uma obra impressionante, um quadro a ser revelado, uma história que não é o que parece ser. Indispensável.

Sobre Nadja Moreno

Blogueira amante de livros. Sempre em busca do mais e melhor, em tudo.

Leia Também

Resenha | O Par Perfeito, Livro 3 – Trilogia A Pousada, de Nora Roberts

Mesmo sendo conhecido como o mais durão dos irmãos, Ryder Montgomery deixa as mulheres aos …

Resenha | Anjos – A Facção Iconoclasta, de Wudson Silva

O livro inicia por narrar os dias que antecederam a investigação sobre a morte de …