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Resenha | Nós, Os Deuses, de Bernard Werber

Após evoluírem em suas vidas como mortais e desempenharem satisfatoriamente a função de anjo da guarda, os alunos-deuses receberam a missão de gerenciar multidões humanas. Para isso, cada um deles é encarregado de cuidar de uma população, ajudá-la a desenvolver instintos de sobrevivência, criar cidades, guerrear e inventar religiões. Entre os escolhidos para essa nova turma de estudantes divinos estão figuras anônimas, como o protagonista Michael Pinson e seus amigos, e personalidades ilustres, como Marilyn Monroe e Édith Piaf. Uma história em que os leitores aprenderão, de forma divertida, sobre mitologia e, além disso, sobre história geral. Por meio do narrador, Werber apresenta uma releitura de episódios importantes da humanidade, descrevendo-os sem citá-los diretamente. Na verdade, ele fornece dicas para que os leitores possam interpretá-los e descobrirem sozinhos do que se trata.

Bernard Werber leva o leitor ainda mais longe na descoberta das espiritualidades e mitologias. No fim dessa extraordinária saga, em que se misturam aventura, suspense e humor, todos vão se perguntar: “E eu, se fosse Deus, o que faria?”

Resenha

Nós, Os Deuses é um livro surpreendente, maravilhosamente rico de informações e reflexões sobre a vida e o ser humano. Com ele podemos aprender sobre mitologia grega, história e até mesmo sobre ciência e tecnologia.

A trama começa com Michael Pinson, um ex-anjo, chegando a um planeta belíssimo e desconhecido. Onde, ao lado de outros 143 alunos-deuses, entre eles diversas personalidades conhecidas e também seus amigos Edmond Wells e Raul Razorback, aprenderão a se tornarem deuses, tendo aula com os principais deuses do Olimpo. O problema é que entre eles existe um deicida, que passa a assassinar um a um a seus colegas. E se não bastasse isso pra perturbar os alunos-deuses, eles ainda se vêem dentro de um jogo, onde todos aqueles que não se destacam são literalmente eliminados da escola.

—Onde estou? — No lugar da Última Iniciação. Chamamos habitualmente isso de “Aeden”. 

— E essa cidade? — É a capital. Chamamos habitualmente de Olímpia.

Um ponto muito positivo no livro é a interação dos personagens principais com figuras históricas bem conhecidas de muitos de nós, como: Julio Verne, Mata Hari, Antoine de Saint-Exupéry, Edith Piaf, Gustave Eiffel, Van Gogh, Joseph Proudhon, Marilyn Monroe e Sarah Bernhardt. Eu gosto bastante desta premissa, pois acho legal colocar figuras que já conhecemos em histórias alternativas. O que também é curioso ver, é que eles continuam seguindo as mesmas linhas de pensamentos de suas vidas anteriores. Apesar de que, no início da leitura fiquei um pouco incomodado com o fato de quase todas essas celebridades presentes no livro serem francesas, afinal de contas existem muitas outras personalidades importantes pelo mundo afora. A princípio me pareceu uma puxada de sardinha, tipo a dos filmes americanos onde o “mundo” é sempre os EUA. Mas o incômodo passou logo, pois a explicação do porquê disso me deixou bastante satisfeito, aumentando grandemente o meu apreço pelo Bernard Werber.

Com relação a escrita do autor, achei bem interessante a narrativa do personagem Michael, intercalando com as partes de uma Enciclopédia fictícia escrita por Edmond Wells, o que deixou a leitura muito mais informativa e ajudou em certos momentos a entender algumas passagens da história, citando eventos mitológicos, históricos e científicos.

9. ENCICLOPÉDIA: DIANTE DO DESCONHECIDO

O que mais assusta o Homem é o Desconhecido. Assim que o Desconhecido, mesmo que adverso, é identificado, o Homem se sente mais seguro. Mas “não saber” dispara seu processo de imaginação. Em cada um surge seu demônio interior, o “pior de si”. Acreditando enfrentar as trevas, ele enfrenta os monstros fantasmagóricos do seu inconsciente. No entanto, é no momento mesmo em que o ser humano encontra um fenômeno novo não identificado que seu espírito funciona melhor, em seu mais alto nível. Ele mantém o foco. Mantém-se desperto. Com todas as suas faculdades sensoriais, ele procura compreender para represar o medo. Descobre, em si, talentos insuspeitos. O desconhecido o fascina e excita ao mesmo tempo. Ele o teme e, simultaneamente, o deseja, na expectativa de o cérebro conseguir encontrar soluções para se adaptar. Enquanto inominada, qualquer coisa dispõe de grande poder de desafio para a humanidade.

Edmond Wells, Enciclopédia dos saberes relativo e absoluto, tomo V.

A história em si é muito envolvente e gostosa de se ler, e sem perceber acabamos tendo excelentes aulas de mitologia, sociologia e filosofia. É muito evidente o quanto que o autor estudou para escrever o livro, o que nos faz ter uma leitura muito confortável de tudo que ele escreve. O detalhamento das características de cada professor-deus é muito rico, ele é apresentado sempre acompanhado de um artigo da enciclopédia de Wells.

O autor conseguiu desenvolver uma trama que pega a religião/mitologia e vai desconstruindo para tentarmos compreender o seu verdadeiro significado e como isso pode mudar o pensamento de um indivíduo ou de grupo, e principalmente de como o poder pode afetar na vida de uma pessoa (ou Deus).

A realidade é o que continua a existir quando se deixa de acreditar.

Um ponto intrigante na história são os mistérios que cercam a ilha de Aeden, e o maior deles é: O que há no alto da montanha? Um mistério que faz com que Michael e seu grupo de amigos, que o acompanha desde vidas anteriores (“O amor como a espada… O humor como escudo.”), tentem soluciona-lo todas as noites, explorando a ilha e indo em direção ao alto da montanha, colocando-os diante de vários perigos mortais. Culminando inclusive com um gancho perturbador para o próximo volume.

E o jogo dos Deuses? FANTÁSTICO!! Fiquei muito empolgado com essa ideia do autor, o jogo é uma mistura de The Sims com Civilization e Age of Empire (ou Age of Mithology). No jogo, cada um dos alunos-deuses deve criar um povo e evoluí-los dentro de um mundo-rascunho. Cada aluno deve usar de seus poderes e influências divinas para ajudar seus escolhidos a evoluírem e darem início a uma civilização vitoriosa, aliando-se ou lutando uns contra os outros. No final de cada disciplina, os melhores são laureados e os piores são eliminados do jogo e da escola.

Mas nem só de jogos e mistérios vive Michael Pinson, ele também acaba se apaixonando por uma das mais conhecidas deusas da mitologia grega, mas será que ele será correspondido? Não tive tanta certeza ao ler a trama, mas acho que no próximo volume teremos a resposta.

Com relação ao projeto gráfico, a capa é belíssima e remete bem a questão mitológica. E a diagramação do texto foi muito bem trabalhada, trazendo uma tipografia suave e confortável de se ler.

Este é um belo e recomendadíssimo livro sobre mitologia, filosofia, sociologia, amizade e religião! E apesar de muito rica em detalhes e cultura, é uma leitura bem acessível a todos, e que te faz pensar bastante sobre quem somos e o que faríamos em cada situação apresentada. E você, se fosse Deus, o que faria?

Acho que o saber não pertence a ninguém. Está à disposição de todos. Nada inventamos, nada criamos, apenas recapitulamos conhecimento já existentes antes de nós, cada qual a sua maneira.

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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  • Ei Cleson, tudo certo??

    Achei a princípio que este seria um livro um tanto quanto arrastado, mas com a resenha entendi que não é bem assim, que bom! Vou adicionar à lista de leitura… 🙂

    Abraços!!!

    • Olá Nadja,

      Não é mesmo uma leitura arrastada, é até empolgante e imersiva, sobretudo pra quem gosta de história e mitologia.

      Abraço