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Resenha | O Manuscrito, de Chris Pavone

Não existe no mundo uma única pessoa que possa comprovar tudo o que está nestas páginas. Mas há uma pessoa que pode chegar perto disso. Há outras pessoas que poderiam, se devidamente motivadas, confirmar certos fatos. Talvez este livro seja a motivação para essas testemunhas, um impulso para revelarem suas verdades, para comprovarem esta história. Mas o autor não é uma dessas possíveis testemunhas. Porque, se o que você está lendo for um livro concluído, impresso, encadernado e distribuído para o mundo, é quase certo que eu já esteja morto.

Resenha

“Um texto anônimo, um segredo mortal, 24 horas para desvendar o mistério”. Com esta chamada instigante na capa, dei início à leitura de O Manuscrito. Esperava uma leitura interessante, mas não imaginava o quanto se tornaria.

Nas páginas de O Manuscrito conhecemos um autor anônimo – tratado realmente como “autor” quando citado – , uma agente literária disposta a levar adiante a proposta do manuscrito, vários agentes literários e aspirantes a agentes que se interlaçam nesta história das formas mais inusitadas possível, um veterano da CIA que não teme chegar às últimas consequências para alcançar seu propósito, um personagem famoso, enigmático e poderoso. Diversos personagens fortes e marcantes, que não sabem, sequer imaginam, o quanto suas vidas podem ser alteradas por conta deste manuscrito. Uma bomba recheada de segredos e traições traduzida em letras!

Este é o primeiro livro de Chris Pavone que leio e pretendo ler “Os Impostores” para interpretar melhor sua escrita. Ela tem uma peculiaridade interessante que, a princípio me incomodou um pouco. Incômodo este que foi eficientemente destruído pela maestria das amarrações que Pavone faz nesta história.

O incômodo se refere ao fato de a fluidez do livro não ser sequencial. Não posso dizer que ele seja fluído, nem posso afirmar que seja engessado. Antes, é uma escrita que intercala estes dois aspectos. Durante toda a narrativa podemos conhecer um pouco mais de cada um dos personagens envolvidos na profunda trama em torno do manuscrito. Quando o autor se propõe a apresentar e contextualizar o personagem, muitas vezes trazendo fatos do passado, a narrativa se torna um tanto morosa, pouco penetrante. Porém quando se volta para os detalhes do manuscrito e toda a rede de intrigas que envolvem o que é revelado nele, tudo se transforma em agilidade e fluidez. Esta sensação de ‘alto e baixos’ me incomodou.

Porém, rogo ao futuro leitor de O Manuscrito, que leia atentamente mesmo as partes menos profundas, marcantes ou interessantes da história. Posso afirmar que tudo tem relevância em algum determinado ponto da trama e foi justamente aí que o autor me ganhou.

Um detalhe. Um simples detalhe, uma palavrinha de duas letras, fazem toda a diferença. E quando notamos o porquê deste detalhe ser tão significativo, a vontade é de reverenciar a sagacidade do autor. Raras vezes temos uma teia tão bem montada e fios tão bem costurados. Gostei muito e gostaria que todos pudessem ler e se deparar com estas peculiaridades deste livro.

Outro aspecto super interessante é o fato de tudo girar em torno dos bastidores do universo literário. O trabalho dos agentes é apresentado de forma a fazer o leitor vislumbrar como é este mundo – guardadas as devidas proporções, visto que aqui é uma literatura policial, claro! Mas dá para ter uma noção de como tudo funciona. Tira aquela áurea imaculada, de florzinhas azuis sobre um fundo rosa, que (acredita-se) é a vida dos agentes literários. 🙂

Os capítulos são simplesmente numerados, começando ainda na mesma página onde o anterior termina. Diagramação interessante para fazer o leitor ir pulando de capítulo em capítulo sem nem mesmo notar. Além disso algumas frases ‘de efeito’ deixadas nos finais de vários deles simplesmente impedem o leitor de deixar o livro de lado…

Ele quase não consegue acreditar como é ruim sua situação, mas depois, claro, fica ainda pior.

Os demais aspectos da diagramação só colaboram com a leitura. Páginas em gramatura e colorido ideais, assim como a fonte. Quando se trata da apresentação de fragmentos do manuscrito a fonte muda e gera uma sensação de: “uau! Vamos ver o que tem aqui”. Bastante instigante.

Enfim, é um livro para ser lido do começo ao fim antes de se registrar qualquer opinião formada. Tudo pode te surpreender daqui a pouco, no próximo capítulo, na próxima página ou logo ali, na próxima linha deste mesmo parágrafo.

Sobre Nadja Moreno

Blogueira amante de livros. Sempre em busca do mais e melhor, em tudo.

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