Início / Literatura / Resenhas de Livros / Resenha | O que há de estranho em mim, de Gayle Forman

Resenha | O que há de estranho em mim, de Gayle Forman

Ao internar a filha numa clínica, o pai de Brit acredita que está ajudando a menina, mas a verdade é que o lugar só lhe faz mal. Aos 16 anos, ela se vê diante de um duvidoso método de terapia, que inclui xingar as outras jovens e dedurar as infrações alheias para ganhar a liberdade.

Sem saber em quem confiar e determinada a não cooperar com os conselheiros, Brit se isola. Mas não fica sozinha por muito tempo. Logo outras garotas se unem a ela na resistência àquele modo de vida hostil. V, Bebe, Martha e Cassie se tornam seu oásis em meio ao deserto de opressão.

Juntas, as cinco amigas vão em busca de uma forma de desafiar o sistema, mostrar ao mundo que não têm nada de desajustadas e dar fim ao suplício de viver numa instituição que as enlouquece.

Resenha

Coincidentemente uma semana antes de ler O que há de estranho em mim, eu havia assistido ao filme “A Ilha – Uma Prisão sem Grades (2008)” e o assunto “Acampamento de Recuperação” ainda estava reverberando aqui pelos meus sentidos, e possivelmente por isso a história deste livro tenha mexido tanto comigo.

Bit é uma adolescente de 16 anos que se pode dizer rebelde. Não usa drogas nem faz nada absurdamente grave, mas vem tendo notas baixas na escola, fica até tarde da noite na companhia dos amigos de uma banda de rock e, o pior de tudo, não se dá bem com a madrasta, a nova esposa do pai, depois que sua mãe desapareceu numa crise psicótica. Acaba por sempre responder de qualquer jeito quando interpelada em casa e passa a sensação de quem está “perdendo os trilhos da vida”.

Seu pai não sabe bem como lidar com tudo isso e teme que a filha tenha o mesmo desfecho que a mãe. Assim resolve enviá-la para um acampamento de recuperação de adolescentes, uma clínica que promete devolver os filhos com toda a postura de quem tem responsabilidades e maturidade. Infelizmente não é bem isso que acontece.

Na clínica, Bit percebe que aquilo ali não é exatamente o que seu pai e a sociedade pensam. Xingamentos, isolamento, trabalho forçado e bônus para as que deduram as falhas das outras são algumas das atrocidades que ela presencia naquele ambiente.

Aos poucos, Bit consegue fazer amizade com algumas internas e, juntas, elas pretendem provar que não são desajustadas e que a clínica é que pode enlouquecê-las. Não há limites quando se tem um propósito e um bem elaborado plano nas mãos!

O livro em si não é baseado em fatos, mas no final do livro a autora deixa uma nota, citando as tais clínicas, que ela teve oportunidade de conhecer quando trabalhou na revista Seventeen. Na nota, ela diz que a parte triste disso tudo é que muitos jovens realmente precisam de ajuda, de fato possuem problemas, e que as clínicas deveriam proporcionar ajuda verdadeira. Muitos jovens de fato precisam. Esta observação que gerou o estopim para que ela criasse esta obra.

Na obra de Gayle podemos vivenciar o dia a dia destas garotas internas de uma forma quase visceral. Chega a ser interessante o quanto pode haver por trás de uma atitude, a princípio incompreensível, de um jovem. Quantas vezes não entendemos onde ele ou ela quer chegar com aquela postura, com aquela fala, com aquelas escolhas. Em O que há de estranho em mim, pude perceber que os motivos podem estar entranhados nas sensações destes jovens de tal forma que eles entendem que há somente uma saída, isso quando enxergam uma saída.

Não é um livro assustador, o leitor não vai encontrar – ainda bem – cenas que geram asco ou mal estar, o que pode sugerir o fato de se tratar de uma clínica que usa de atos obscuros para lidar com os jovens. Mas ele aborda de tal forma que faz com que o leitor pare uns instantes e analise os jovens que conhece, ou o jovem que foi. Faz com que a gente chegue a se perguntar: o que há de estranho em mim?

Há muita emoção nestas páginas. Alguns momentos de tensão me deixaram com as mãos úmidas, outros momentos de cálidos sentimentos me fizeram sorrir. Enfim, não é possível passar incólume por estas páginas.

Quem já conhece Gayle Forman sabe, sua escrita é fluída e envolvente. É quase como se a história simplesmente acontecesse diante de seus olhos. Em O que há de estranho em mim não é diferente. A história te abraça e você tem vontade de dar a mão para Bit, V, Bebe, Martha e Cassie, o grupo de amigas que “botam pra quebrar”…

A edição da Arqueiro está excelente, sem ressalvas. É um livro feito para se ler “numa sentada só”. Sem dúvida alguma, vale muito a pena conhecer esta história!

Sobre Nadja Moreno

Blogueira amante de livros. Sempre em busca do mais e melhor, em tudo.

Leia Também

Resenha | O Par Perfeito, Livro 3 – Trilogia A Pousada, de Nora Roberts

Mesmo sendo conhecido como o mais durão dos irmãos, Ryder Montgomery deixa as mulheres aos …

Resenha | O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin

Há quem diga que o feiticeiro mais poderoso de todos os tempos é um homem …