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Resenha | Outros Reinos, de Richard Matheson

Famoso por sua série Meia-noite, o escritor Alex White, que adotou o nome Andrew Black, decide narrar uma experiência que beirou o surreal e aconteceu há 64 anos. A história inimaginável que ocorreu quando ele ainda era jovem é a mais pura verdade e mudou sua vida para sempre. Aos 18 anos, White, jovem soldado norte-americano, é ferido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Em vez de voltar para os Estados Unidos, ele se muda para Gatford, na Inglaterra, tentando escapar de seu pai e de seu passado. A bucólica aldeia inglesa parece o lugar ideal para que sua alma e seu corpo fechem as cicatrizes de guerra. Mas dizem que as florestas ao redor da cidade são habitadas por espíritos levianos e até malévolos.  Isso deve ser história da carochinha. Não é mesmo?

Outros reinos apresenta uma trama onde a fantasia parece realidade, e os medos, anseios e arrependimentos do protagonista se misturam com os do leitor.

Resenha

Decidi por este livro ao ler que o Richard Matheson era o autor de Eu Sou a Lenda, aquele filme pós-apocalíptico de zumbis do Will Smith, mas depois que descobri que ele também era o autor de Em Algum Lugar do Passado e Amor Além da Vida, fiquei maravilhado e muito empolgado. Queria muito ler um dos livros do cara que escreveu os livros que inspiraram dois filmes que estarão sempre bem guardados na minha mente e no meu coração.

Aqui vale um adendo para apresentar estes dois filmes, “Em Algum Lugar do Passado” é um filme de 1980 que se tornou um grande clássico romântico. A história faz um bela mistura de romance e fantasia, e é sobre um jovem (Christopher Reeve) que ao ver uma mulher em uma fotografia antiga (Jane Seymour) faz uma viagem ao passado, a fim de conquistá-la. Assisti algumas vezes em minha infância, na sessão da tarde, e em todas fiquei com lágrimas nos olhos.

Já o outro filme é a belíssima viagem visual “Amor Além da Vida” de 1998, nesta obra Chris (Robin Williams) morre em um acidente e vai para o Paraíso. Perturbada com a morte de seu amor, Annie (Annabella Sciorra) comete suicídio e vai parar em um lugar destinado àqueles que cometem suicídio. Chris então passa a buscar por Annie, mesmo sendo avisado de que ela não poderia reconhecê-lo. Ou seja, é uma bela história de amor onde o cara, literalmente, atravessa o inferno em busca de sua amada. (ah, também chorei muito nesse. 🙂 )

Como podem ver, o Matheson era um autor que misturava muito bem temas e estilos diversos, muitas vezes mesclando o tema sobrenatural com o amor (digo “era”, porque infelizmente ele morreu ano passado). E levando estes aspectos em consideração, e também alguns livros de terror escritos por ele, imaginei que talvez tivesse em mãos uma obra tão diferente e interessante quanto as outras… e não me enganei.

Em Outros Reinos, o escritor Alex White (também conhecido como Arthur Black) conhece Magda Variel, uma viúva ruiva e atraente que, segundo rumores, é bruxa. Ela o alerta a se manter afastado da floresta e do perigoso reino encantado que o cerca, mas Alex se mostra cético quanto a tudo o que ela e seu amigo Joe lhe dizem, e não consegue evitar o local. Afogado em tantos mistérios, ele encontra o amor e o perigo, em um triângulo amoroso pra lá de inusitado…

O enredo é bem interessante, e trata de um triângulo amoroso um tanto quanto inusitado entre uma bruxa, um ex-soldado e uma fada! É uma mistura curiosa entre suspense, terror, fantasia e romance. E em certo momento, como todo bom terror, tem uma pintadinha de erotismo para apimentar a história.

– Ah, Alex, por favor – disse ela. Parecia mesmo magoada. – Ainda está com medo? Tenho idade para ser sua mãe. Não vou violentá-lo. Ou machucá-lo de qualquer forma. Quero apenas que veja o quanto este colchão é confortável.

A história é narrada por Alex aos 82 anos (em 1982), e ele levou mais de 60 para criar coragem e contar acontecimentos que, segundo ele, são totalmente verídicos. Os acontecimentos narrados acontecem em 1918, quando ele tem 18 anos, e acabava de ser dispensado da primeira guerra, devido a um ferimento narrado no início da trama. Ele decide ir a pequena e desconhecida Gatford, no interior da Inglaterra, terra natal de um grande e misterioso amigo que ele conheceu na guerra. Na verdade, neste ponto percebemos que Alex pretende mesmo é fugir da convivência com seu terrível pai, o Capitão Bradford Smith White, da Marinha dos Estados Unidos. Como ele o chama durante quase todo o livro.

Chegando no bucólico vilarejo, ele começa a perceber que o minúsculo local possui misteriosas e sinistras histórias as quais ele começa a adentrar sem perceber. Aqui começamos a ser introduzidos num folclore muito curioso sobre um reino de pessoinhas pequenas que vivem na floresta, o Reino das Fadas. Em seguida, ele acaba descobrindo que tal floresta além de abrigar os seres chamados de Fadas, também abriga uma bruxa, que, posteriormente conhecerá e começará a ter um relacionamento, até conhecer uma linda fadinha chamada Rhutana. A partir daí, o que já era estranho começa a ser mais estranho ao decorrer da leitura, tudo com um pouco de terror, humor e romance. 

Com relação a forma de narrar, ainda não havia lido algo assim, o autor criou um personagem que na narrativa virá a se tornar um escritor de sucesso, então durante toda a narrativa ele dialoga com ele mesmo e com o leitor sobre algumas palavras/frases utilizadas em determinadas passagens do livro, corrigindo-as e/ou comentando. Podemos interpretar como uma conversa bem-humorada do narrador com ele mesmo e com o leitor.

Já a leitura em si, fluiu tão agradavelmente que li em muito pouco tempo. Provavelmente porque o autor conta a história da sua vida com uma informalidade, que parece contar para um amigo seu. Achei que o terror, a fantasia e o romance ficaram muito bem balanceados durante todo o livro. Inclusive, algumas partes assustadoras nos dão o medo na medida certa de querer continuar lendo. E as reviravoltas? Como todo bom livro, este possui as mais chocantes, mas apesar de nem serem tão surpreendentes assim, nos empolgam da mesma forma.

O desfecho do livro é aquele que você já imagina que vá acontecer, por ser inevitável, mas torce para que não aconteça.

Então perguntei:
– Vou perder tudo a partir de agora?
Balançou a cabeça. Abriu um sorriso bondoso.
– Não – respondeu. – Tudo que lhe é caro sempre permanecerá dentro de você.

Com relação a capa, ela é belíssima, uma excelente composição do preto com o dourado do título em auto-relevo se dissolvendo (talvez uma referência a uma certa pepita de ouro presente o livro). A diagramação também ficou excelente, tornando a leitura muito fácil de ser realizada.

No geral, o livro segue a mesma linha dos outros de Matheson, é recheado de amor, tragédia e elementos sobrenaturais. Tudo balanceado com muito bom humor. Um deleite para os fãs do gênero fantasia.

Sobre Cleson Cruz

Sou potiguar com muito orgulho, pai e marido. Engenheiro Eletricista e Designer Gráfico de formação. Gosto muito de música e cinema. Sou viciado em séries de tv. E leio muito quadrinhos e livros desde a minha tenra infância.

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