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Como uma luva de veludo moldada em ferro de Daniel Clowes

Você já ouviu falar de “snuff movies”? É necessário conhecer ao menos a definição “wikipédiana” do termo para podermos adentrar no universo sufocante de “Como uma luva de veludo moldada em ferro” do genial Daniel Clowes.

Tudo começa com uma lenda que surgiu nos já longiquos anos 70 de filmes que mostravam cenas reais de assassinatos, tudo gravado, segundo a lenda, com requintes de crueldade. Claro que logo o cinema se apropriou da lenda e fez disso uma “nova” fonte de ideias para filmes diversos de terror. Ainda hoje o cinema produz  bons filmes sobre o tema, tais como 8 mm, Sem Vestígios e Temos Vagas. Bom, a essa altura você está se perguntando: esse texto não deveria ser sobre quadrinhos? E tem toda razão de perguntar isso, mas nossa estória começa pra valer dentro de um cinema, sacou?!

Nosso personagem Clay  Loudermilk, que não é a Capitu, mas também tem olhos de ressaca, encontra-se em uma pequena sala de cinema e ao assistir um filme absolutamente desconsertante, revê uma ex-namorada, seu grande amor,  atuando nele. Decide então ir à sua procura para descobrir o motivo de sua partida, e como foi se meter em filmes tão estranhos (os tais snuff movies). Encontra respostas e um local onde começar sua busca (a cidade de Gooseneck Hollow) dentro do banheiro do cinema (isso mesmo, dentro do banheiro), dica fornecida por uma espécie de guru sabe-tudo-cheirador-de-pum e olha que as esquisitices ainda nem começaram de fato.

O problema de Clay parece bem simples, basta ir do ponto “A” ao ponto “B” e encontrar sua ex, certo? Seria, se no meio do caminho não tivesse uma pedra… ou várias. Tipos dos mais estranhos, bizarros e simplesmente absurdos cruzam seu caminho. Não é brincadeira, desafio qualquer um a encontrar outra obra em quadrinhos com tantos tipos bizarros quanto esta. Temos policiais sádicos, seitas sexistas, grupos paramilitares feministas, malucos por conspirações, todos os tipos de deformidades físicas e um desfile de lendas urbanas americanas que nos obriga a prestar atenção em todos os detalhes e entrelinhas da trama.

O sentimento que permeia toda a estória é o de solidão. Todos estão largados no mundo, é claustrofóbica a sensação intensa de angústia nos olhos dos personagens , uma sensação que transforma o bizarro e surreal assombrosamente próximo da realidade, onde milhões de pessoas levam suas vidas à base de antidepressivos. Retrato triste do nosso tempo em que a tecnologia avança cada vez mais, enquanto nós, humanos, estamos cada vez mais sem norte.

Por fim a loucura insana que permeia sua volta acaba por engolir o pobre Clay, e nada em sua jornada termina como esperado. A velha máxima que diz: Quando você olha pro fundo do abismo, o fundo do abismo olha de volta para você. Mas se o solitário e perdido Clay não encontra o que procurava, nós, leitores, encontramos muito mais do que esparávamos.

Estória pra se ler mais de uma vez.

Triste, bizarra e imperdível.

 

SERVIÇO:

Título: COMO UMA LUVA DE VELUDO MOLDADA EM FERRO (Conrad Editora) – Edição especial

Autores: Daniel Clowes (roteiro e arte).

Preço: R$ 33,00

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Fevereiro de 2002

Sobre Lenilton

Pai do Dudu e fundador do blog Gibiscuits.

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    massa
    Sempre curti muito os "Mitos" dos Snuff movies e Tambem não conhecia essa publicação da Conrad
    Parabens pelo Texto!!!

  • Lenilton,

    Li esta história há algum tempo. Sem dúvida nenhuma é um dos quadrinhos mais bizarros que já li. Mas é ótimo, talvez eu nunca tenha visto antes dela uma narrativa tão surreal contada de forma tão competente. Sim, eu realmente recomendo, desde que o/a leitor/a que deseje se aventurar no texto de Clowes seja alguém com uma boa capacidade de abstração. Não sugiro este material para os realistas. Sua resenha está ótima. Parabéns!

  • Lenilton,

    Parabéns pela resenha: fiquei muito interessado em ler o livro/gibi após sua análise. Gosto de filmes de terror e o tema snuff movie é prato cheio para a criação de histórias bem elaboradas…