Mundo Cão

Mundo Cão foi publicado no longínquo ano de 1991 e, mesmo não sendo uma obra- prima, é uma dessas publicações que não envelhecem com o tempo. Os temas abordados em seus dez pequenos contos são, ao menos aqui no nosso Brasil, intensamente atuais, pois tratam, por exemplo, do excesso de burocracia que, por vezes, “travam” nossas instituições públicas. A falta de educação e civilidade das pessoas, a falsa moralidade, a incapacidade quase crônica de respeitar o espaço público (em nosso país, tem-se a falsa ideia de que “público” significa que “não tem dono” quando, na verdade, significa que é “coisa de todos”), a indelicadeza das autoridades que se comportam como se estivessem acima dos outros, a intolerância, a apelação dos programas populares de TV e outras coisas do gênero permeiam o trabalho de seu autor, Miguelanxo Prado. Algumas das mais emblemáticas histórias são:

Hot-Dogs”: um conto onde o autor eleva, a níveis absurdos – embora críveis -, o desrespeito que alguns donos de cachorros cometem, diariamente, com o espaço público e os habitantes das grandes cidades, levando seus animais para evacuarem por toda a cidade, sem terem o mínimo de bom senso, ou a educação, de limparem seus dejetos, evitando, assim, o emporcalhamento das vias.

Um cara desligado”: lembra-nos do excesso de burocracia em atividades simples que, nas mãos de alguns maus funcionários públicos, tornam-se uma verdadeira via crúcis, quando uma equipe de desligamento de energia elétrica se recusa a religar a eletricidade recém-cortada de uma casa, com a justificativa de que ela não é a equipe de “ligação” de energia. Ao dono da casa, ainda sobra sopapos desferidos pelos imbecis após sofrer um ataque de irritação como qualquer pessoa normal teria.

Dura lex, sed lex”: trata de um espinhoso assunto que aflige nosso tempo: o egoísmo. Neste mundo, onde a maioria das pessoas só se preocupa com suas próprias vidas, Prado nos lembra que, às vezes, quem ajuda os outros pode se dar muito mal. Uma pena, mas que, muitas vezes, acaba sendo verdade.

M. Prado parece ter alguma mágoa especial contra burocracia, pois, em “O burocrata”, um inspetor insiste em cobrar impostos e taxas de três bruxas que tentam fazer um despacho encomendado. É uma das mais engraçadas.

Telejornal das oito”: critica o excesso de sensacionalismo dos jornais e programas ao estilo dos apresentadores Datena e Ratinho. Aqui, o resultado obtido em suas três páginas é fantástico.

Já em “Ratoeiras”, um rapaz tem a casa infestada por ratos, procura ajuda das autoridades sanitárias e tudo o que consegue é ser jogado de uma repartição pública para outra. Os ratos tomam conta de sua casa. O número de suas reclamações aumenta até que chama a atenção das autoridades sanitárias que – Pasmem! – ele procurou beemmm antes. E, sabem o que acontace? O pobre rapaz é multado em algumas centenas de reais por “incitação e propagação” de epidemias e entre outras coisas. É o cúmulo do desmantê-lo do (des)serviço público.

Chega a ser triste verificar que pouca coisa mudou, se é que não piorou, depois de mais de vinte anos do seu lançamento.

Título: Mundo Cão (Abril Jovem) – Edição especial

Autor: Miguelanxo Prado (roteiro e desenhos).

Preço: Cr$ 400,00 (preço da época)

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Março de 1991

Sobre Lenilton

Pai do Dudu e fundador do blog Gibiscuits.

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