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Pagando por Sexo

Se você ainda não leu Pagando por Sexo, Paying for It no original, deve fazê-lo imediatamente. Compre, empreste ou roube, mas leia-o.  Lançado em Agosto último, já é para mim sério candidato a melhor lançamento do ano. Com certeza o mais polêmico. É de autoria do canadense Chester Brown, um conhecidíssimo artista underground na América do Norte, ganhador de quatro prêmios Harvey e ilustre quadrinista em seu país de origem (faz parte do Canadian Comic Book Creator Hall of Fame). Chester Brown é talentoso, bem sucedido, articulado… E doido. Bem, troquemos a palavra doido por estranho.

Chester Brown

CHESTER BROWN

Chester Brown é um cara estranho, muito estranho… Um estranho no ninho por assim dizer. Diferente de quase todos – eu disse QUASE todos – ele não esconde seus “desvios” enquanto escancara os alheios, nem mesmo enaltece suas qualidades, algo tão comum nos seres humanos.  Ao contrário, ele abraça e sem nenhum cinismo confessa suas transgressões. Ele despe-se quase que por completo neste álbum auto biográfico onde desfila suas aventuras sexuais com prostitutas. Mas engana-se quem acha que Chester Brown é pura e simplesmente um imoral libertino. Nada disso, é apenas um tímido e deslocado social que não vê alternativa mais fácil para obter prazer sexual. Tenho amigos assim, pessoas com real dificuldade de se relacionarem em termos românticos principalmente por timidez e vamos lá, um pouquinho de baixa auto-estima.

Chester Brown no início da história, sua história, é chutado pela namorada com a qual divide o apartamento. Os dois tem uma conversa onde ela confessa estar sentimentalmente envolvida por outro homem, e bem ao estilo menos emotivo que o nosso jeito latino e sangue caliente, nosso canadense aceita não só o fim da relação mas também continuar morando junto da ex, afinal não quer pagar um aluguel sozinho.

Espanta-me o pragmatismo de Chester com relação as coisas ao seu redor. Ele é racional até em situações limite, como quando ouve a ex e o novo namorado transarem no quarto ao lado e confessa não ter sentido ciúme, para nós brasileiros isso é um tanto surreal, mas no livro, conhecendo Chester, isto se torna crível. Ele parece um homem de outro planeta. Sabem o que faz? Decide não ter mais namoradas e não investir mais em relações românticas, pois elas são fantasias inatingíveis no mundo real: amor eterno, monogamia, paz entre casais? Nada disso é possível, então pra que mentir pra si mesmo? Se no fim tudo acaba em sexo, melhor pular o capitulo inicial, o meio e ir direto pro fim.

Mas não pense que nosso analítico Chester não tem seus medos. Ele tem sim e estão todos no livro. Como quando decidido a pagar por sexo tem todas as paranoias que rondam a primeira vez em que decidimos visitar o submundo. Ele teme, treme e foge. Eis aí sua humanidade tão negado a principio.

Sincero e aberto sobre sua vida, afinal ele não se envergonha do que faz já que não vê mal algum, ele conversa livremente com seus amigos, os quais são bem mais “normais” em relação ao assunto: eles o criticam e a todo instante tentam mudar sua opinião em relação ao amor romântico. Dessas conversas saem momentos deliciosos do livro. Não porque são argumentos irrefutáveis mas por que nos faz pensar: será a prostituição algo tão danoso como crê  nossa hipócrita sociedade? Deveria ela ser legalizada e regulamentada ao invés de combatida? O estado tem o direito de legislar sobre o corpo do individuo? Amor romântico e ciúmes  são sentimentos naturais ou imposições culturais de nossa sociedade? Chester tem sua opinião formada, seus amigos tem as deles e você certamente ao terminar de ler este livro terá a sua.

Onde Comprar: Cia. dos Livros | Saraiva | Americanas

Sobre Lenilton

Pai do Dudu e fundador do blog Gibiscuits.