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Resenha | Castro

Diante da tarefa de escrever uma biografia de Fidel Castro, o quadrinhista alemão Reinhard Kleist escolheu como estratégia apelar para a ficção. As formas como este autor usa um enredo fictício de moldura para contar uma história real é, com certeza, um dos pontos mais interessantes de Castro, um livro notável por muitos motivos. Castro - imagem 1 (R. Kleist)

A trama gira em torno de dois personagens centrais. O primeiro é Fidel Castro, figura histórica que dispensa apresentações e o tema central do trabalho; o objetivo do projeto como um todo é oferecer uma perspectiva sobre sua trajetória singular, passando de criança rebelde a intelectual engajado, de revolucionário a líder político. Naturalmente, abordar este personagem significa traçar um relato da revolução cubana como um todo, visitando momentos marcantes da história do país e acontecimentos com repercussões internacionais – como a famosa crise dos mísseis de 1962 e a morte de Kennedy, para citar apenas dois exemplos. É uma narrativa complexa, cheia de pequenos desdobramentos, e que, nas mãos de Kleist, se torna uma leitura perfeitamente clara e sempre interessante.

O segundo personagem é Karl Mertens, um jornalista alemão que viaja a Cuba para entrevistar Fidel Castro em 1958. Depois de aprender um pouco da história do então guerrilheiro e de conhecer em primeira mão parte da situação do país, Karl vê na luta dos revolucionários cubanos uma causa profundamente inspiradora. Ele decide ficar para acompanhar esse conflito de perto e acaba nunca mais voltando a sua terra natal.

Karl é uma criação do próprio Reinhard Kleist e podemos dizer que ele cumpre ao menos três funções ao longo do livro. Em primeiro lugar, ele é nosso principal narrador e a porta de entrada do leitor para esta história. O autor trabalha de diferentes maneiras para que nós nos identifiquemos com o ponto de vista deste personagem e, como regra geral, todas as informações que recebemos nos são oferecidas por ele; são fatos e ideias que ele próprio vivenciou ou recolheu durante sua longa pesquisa. Nosso acesso a Fidel Castro é, assim, mediado pelo relato deste jornalista. Poder-se-ia argumentar que este fato é o responsável pela sensação de “agradável e irônica distância” em relação ao biografado que Volker Skierka (pesquisador que colaborou com Kleist neste projeto) aponta no prefácio. Castro - Imagem 2

Em segundo lugar, em diversas ocasiões Karl e seus amigos cumprem o papel de ilustrar a situação dos cidadãos comuns no país revolucionário. Suas vitórias e mazelas diárias retratam faces da Cuba deste período que jamais visitaríamos se acompanhássemos apenas o ponto de vista de Castro, que vive sempre em um cenário muito específico.

Por fim, o jornalista também é um personagem em si mesmo, com uma trajetória dramática específica que enriquece a narrativa geral do livro. As ideias e os fatos que ele nos descreve estão longe de compor um relato distanciado; representam, na verdade, um reflexo dos desejos, aspirações e desenganos de um indivíduo particular. É um testemunho da habilidade de Kleist enquanto escritor a forma como ele, precisando de um mecanismo para compor a estrutura desta biografia, criou uma trama original e cativante por mérito próprio.

Dessa forma, a história pessoal de Karl ajuda a dar unidade ao livro como um todo e a cada capítulo individualmente. Em resumo, o primeiro capítulo é aquele em que tanto o jornalista quanto o leitor são seduzidos pela revolução e por seu líder. É um relato sobre ideais e sobre pessoas – uma em particular – que lutam por uma causa aparentemente impossível enquanto enfrentam um inimigo claro: o governo cubano de então, encarnado principalmente no presidente Fulgencio Batista. Ao final, Karl sente que faz parte desse cenário e decide permanecer em Cuba; assim como o leitor, devidamente fisgado, sente necessidade de ver como a trama irá prosseguir.

O segundo capítulo mostra a ascensão de Castro como figura política enquanto as esperanças revolucionárias são progressivamente distorcidas até resultarem em uma vida marcada por restrições. Os ideais do início são, ao final deste trecho, palavras de ordem e discursos políticos. Essa mudança tem muitos impactos na vida do jornalista, mas um é particularmente dramático e ilustra bem a unidade deste segmento: basta comparar a fala da personagem Lara no sexto quadro da página 145 com sua atitude nas páginas finais.

A nível de tema, é interessante notar que diferentes formas de medo cumprem um papel central nesse processo, criando rachas internacionais e até dentro do movimento revolucionário. O próprio autor comenta em entrevista ao site da editora britânica SelfMadeHero como, em sua visão, os numerosos atentados à vida de Castro são importantes para compreender suas decisões como governante; e um personagem parece resumir esta ideia ao afirmar, na página 223, que “o medo é o inimigo mortal de qualquer revolução”. Assim, um esforço que era essencialmente popular, coletivo, termina em um sentimento de isolamento e abandono. Castro - Imagem 3

O terceiro e último capítulo encerra o relato mais amplo sobre a revolução, chegando a mostrar a renúncia oficial de Fidel Castro, ao mesmo tempo em que narra o clímax da história pessoal de Karl, o momento que define os rumos do resto de sua vida. É instrutivo observar como o autor adia esta cena decisiva o máximo possível, aproveitando para fechar a obra pouco depois de o leitor receber o impacto emocional destes acontecimentos. O prólogo e o epílogo, por sua vez, sintetizam a transformação de Castro ao longo do enredo. Na abertura, vemos o revolucionário no auge de sua luta política, declarando em um palanque que o povo cubano não irá se sujeitar aos imperialistas que tramam o seu fracasso. No fechamento, o líder aposentado fala diretamente com o leitor, amigável, comentando informalmente suas ambições, seus esforços e seus resultados. Um exemplar de “Dom Quixote” descansa sobre o criado-mudo.

Se Kleist demonstra grande maturidade e competência ao organizar a estrutura de Castro, seu domínio da narrativa visual também aparece aqui com clareza. Um exemplo simples dessa habilidade é a forma como ele usa uma onomatopeia no terceiro quadro da página 20 para, em meio à confusão de uma rua movimentada, guiar o olhar do leitor até um carro de polícia. Em meio a tantos layouts dignos de nota, também vale a pena mencionar como, ao longo da obra, Castro passa a ser frequentemente retratado em composições emblemáticas, claramente simbólicas, refletindo o crescimento de sua força política. As páginas 203, 230 e 236 contam com exemplos particularmente claros desta estratégia. Inclusive, no quarto quadro da página 254, quando o livro já assumiu um tom mais pessimista, esse mesmo tipo de imagem é usado de forma irônica: enquanto o narrador fala em consequências devastadoras para a economia cubana, vemos um enorme Fidel Castro rodeado por bandeiras repetir com confiança uma exclamação que aparece ao longo de toda a obra – “venceremos!”

CapaFruto de extensas pesquisas e de um trabalho artístico exemplar, Castro é mais um projeto de Reinhard Kleist que certamente merece atenção. Foi lançado no Brasil em 2011 pela editora 8Inverso, que também publicou outras obras do mesmo autor ao longo dos últimos anos. O leitor tem muito a ganhar com este livro, seja ele um interessado no tema, na linguagem dos quadrinhos em si mesma ou, simplesmente, em boas histórias.

Se o leitor tiver curiosidade de conhecer um pouco mais do processo criativo por trás desta biografia, recomendo a entrevista do autor mencionada mais acima (http://www.selfmadehero.com/news/2011/08/the-reinhard-kleist-interview/). Também pode ser interessante visitar o site do quadrinhista e conferir amostras da arte de um projeto anterior, chamado Havanna. Este livro – que, infelizmente, continua inédito o Brasil – é fruto de uma visita de Reinhard Kleist a Cuba em 2008 e, de certa forma, foi o ponto de partida para este trabalho sobre Fidel Castro (http://www.reinhard-kleist.de/?lang=en&section=2&subsection=1). Para encerrar, copio o link para um texto em português que descreve a maior parte da carreira deste artista tão competente (http://www.goethe.de/kue/lit/prj/com/cfc/cfk/int/pt7836899.htm).

Sobre Igor Z. Cerqueira

Pessoa que escreve com inclinação pessoal para quadrinhos e cinema. Também toca gaita.

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  • Magnífica resenha, parabéns Igor!

  • Tamires Fernanda

    Minha Nossa que resenha otima,eu particularmente não sou muito fã de Biografias mas essa obra foi feita de quadrinhos, uma maneira bastante legal para chamar os leitores para as biografias.

    Abçs 🙂

  • Lais Cavalcante

    Eu nunca fui muito fã de biografias, mas não dispenso uma boa e pelo jeito que o autor montou e mostrou a vida de Fidel Castro, é bem difícil não ficar interessada e ainda mais quando relacionado a quadrinhos rs Fiquei bem curiosa para conhecer esse livro!

  • Olá Igor!! Super interessante poder ler esta resenha e poder conhecer um pouco mais sobre este livro que ainda não conhecia, e apesar de não ser um gênero que não estou muito acostumada creio que seria uma leitura em suma super interessante. Dica anotada =)

  • Bianca Martins

    A arte deste livro esta realmente mto linda!
    Adoro biografias, mas está n me interessou mto..mas pelo fato de ser do Fidel msmo, pq se fosse de outra pessoa com certeza a leria, ainda mais com essa arte linda!
    Qm sabe lendo mais sobre o Fidel eu n me interesse me ler esta biografia?…n sei ..

  • Achei demais a biografia com quadrinhos, quase que não entendo a resenha, é tanta coisa que minha cabeça ficou confusa, mas achei bem interessante a ilustração, eu leria o livro sem problemas algum, mesmo não sendo fã de carteirinha de biografias.
    Beijos Igor, ThayQ.