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Resenha | HQ As Barbas do Imperador

A esta altura, o trabalho de Spacca praticamente dispensa simples elogios e recomendações. Depois de roteirizar e ilustrar livros como Santô e os pais da aviação, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil, o célebre D. João carioca – a corte portuguesa chega ao Brasil (1808 – 1821) e Jubiabá (adaptação do romance homônimo de Jorge Amado), este autor paulistano já conquistou lugar de destaque no cenário dos quadrinhos nacionais. Quando um novo projeto com seu envolvimento chega às livrarias, é natural que ele mereça nossa atenção e respeito.

As barbas do imperador foi lançado em 2014 pelo selo de quadrinhos da Cia. das Letras, “Quadrinhos na Cia.”. Trata-se de uma adaptação do livro As barbas do imperador – D. Pedro II, um monarca nos trópicos, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Esta já havia colaborado com Spacca em D. João carioca e assina como coautora deste novo trabalho.

Capa

Certamente teríamos muito a aprender com uma comparação mais pormenorizada entre o trabalho original de Schwarcz e sua nova versão. Ainda assim, neste texto, vou comentar apenas a obra em quadrinhos, levando em conta que esta é um material autônomo. Ao mesmo tempo, não tenho condições de discutir com justiça as informações históricas do texto; por isso, minhas considerações serão principalmente sobre a forma, e não tanto sobre o conteúdo.

Mais do que traçar uma biografia de D. Pedro II, o objetivo do livro é explorar as várias faces da imagem pública (e, mais tarde, histórica) que se construiu em torno deste monarca. Sua história de vida serve como uma moldura geral e como linha-guia para a discussão, mas não podemos dizer que é seu tema central. Evidência disso é o fato de os capítulos frequentemente darem preferência às impressões, opiniões e expectativas de outras personalidades sobre os episódios relacionados ao imperador, dedicando menos espaço ao ponto de vista do próprio governante.

Já de partida, a riqueza e a pertinência do tema saltam aos olhos. Ao longo de 15 capítulos, podemos conhecer muitas dimensões da vida no Brasil durante o Segundo Reinado, desde reformas urbanas no Rio de Janeiro até alguns dos principais debates ideológicos vigentes. Afinal, não só este período é marcante em nossa história política e social, como seus desdobramentos representam momentos essenciais do desenvolvimento das artes e das letras no país. Campos tão diversos quanto a fotografia, a literatura, a pintura, o jornalismo, as histórias em quadrinhos e as ciências sociais de maneira geral aparecem representadas por figuras tão memoráveis quanto Machado de Assis, José de Alencar, José do Patrocínio, Angelo Agostini e Joaquim Nabuco, dentre muitas outras.

Ao contrário de obras anteriores assinadas por Spacca, As barbas do imperador assume um estilo mais didático ou dissertativo, aproximando-se de um livro de história convencional em termos de tom e abordagem. Debret e D. João carioca, por exemplo, têm a linguagem de um drama: os fatos históricos que servem de tema são transformados em uma sequência de cenas que carregam a narrativa adiante. Em outras palavras, o conteúdo nos é apresentado por uma mise-en-scène, uma encenação. Todo o texto escrito faz parte dessa performance, aparecendo na forma de diálogos entre personagens, discursos ou balões de pensamento. Quando um observador externo – o narrador – intervém, é para complementar a narrativa, facilitando transições entre cenas ou revelando informações importantes de forma mais sucinta.

Já em As barbas do imperador, geralmente é a voz de um observador externo que guia o andamento do livro. A narração descreve e explica os acontecimentos enquanto as imagens (incluindo encenações pontuais) têm uma função complementar, enriquecendo o que é dito ou esquematizando o conteúdo de uma forma clara, envolvente e fácil de memorizar. Esse estilo análogo a um ensaio fica particularmente dominante nos capítulos 5, 6 e 8, mas predomina por toda a peça.

É evidente que a mudança de linguagem foi uma decisão consciente por parte dos autores. O quadrinista chegou a mencionar em entrevista de 2010 ao site Saraiva Conteúdo como pretendia “esticar os limites dos quadrinhos”, afirmando que o meio “não serve apenas para contar uma história”. Ao mesmo tempo, a escolha se justifica quando levamos em conta que muitos dos assuntos trabalhados são relativamente abstratos: o capítulo 5 se propõe, dentre outras coisas, a definir brevemente o movimento Romântico e a examinar sua presença no Brasil; o capítulo 8, a discorrer sobre diferentes festas e cerimônias enquanto aponta a relevância da figura de um rei ou monarca para o imaginário nacional; e assim por diante. O estilo mais dissertativo tem a vantagem de permitir aos autores abordar temas como esses diretamente.

Certa vez, o cartunista canadense Seth – autor de trabalhos como It’s a good life, if you don’t weaken e George Sprott (1894 – 1975) – defendeu que, em termos de linguagem, os quadrinhos seriam menos uma mistura de desenhos e literatura (ou de cinema e literatura) do que uma combinação de design com poesia. Nesta analogia, eles teriam em comum com o design a preocupação de guiar o olhar e as emoções do público-alvo (no caso, um leitor) ao longo do trabalho usando pistas visuais; e, com a poesia, técnicas para trabalhar o ritmo dessa leitura. Ou seja: a maneira como uma página se divide em vários quadros teria um efeito semelhante àquele da divisão de um poema em versos e estrofes. Uma perspectiva como essa parece ser um bom ponto de partida para interpretar As barbas do imperador – a grande contribuição do formato em quadrinhos, neste caso, seria organizar tanto o texto quanto as imagens de uma forma específica para guiar o leitor ao longo dos vários passos de um raciocínio enquanto marca o compasso em que ele vai de um momento para o outro. A página 94 mostra de forma particularmente clara como uma sequência de quadros pode representar uma maneira de dar ordem e ritmo à leitura de um determinado conteúdo.

Aliás, podemos notar como existem problemas de design em algumas páginas do livro, deixando o leitor confuso sobre em qual ordem ler as imagens. Na página 88, por exemplo, o quadro no canto superior direito, que serve de encerramento para esta cena, acabou ficando um tanto isolado: as caixas de texto nos conduzem até a base da página, com o desenho em que D. Pedro II diz “Quero verificar o progresso dessa grande nação americana!”, e não há nenhuma pista visual clara que nos leve a olhar para o alto novamente. Casos como esse são muito raros ao longo da obra e estão longe de caracterizar um obstáculo sério para a leitura; chamamos atenção para esse ponto apenas porque ele evidencia como parte da linguagem dos quadrinhos envolve esse trabalho de direcionar a atenção do leitor pela página.

O desenho de Spacca, como de costume, é um atrativo em si mesmo. O autor une a precisão de uma boa caricatura com a expressividade e o dinamismo do cartoon, criando personagens carismáticos e inconfundíveis. Todas as figuras de destaque têm maneirismos e expressões faciais mais ou menos únicas, criando a impressão de que elas possuem toda uma vida para além dos acontecimentos retratados no livro.

Gonçalves Dias e D. Pedro II
Gonçalves Dias e D. Pedro II no traço de Spacca. Arte retirada do blog do autor, “As Barbas do Ilustrador”.

Ainda neste sentido, é interessante acompanhar como o estilo dos desenhos varia conforme a necessidade. Enquanto os heróis de obras românticas como Iracema e O guarani são retratados com uma anatomia mais detalhada e até idealizada, digna de histórias de super-heróis, muitos outros personagens ao longo de As barbas do imperador assumem formas simplificadas, realçando o tom cômico ou o caráter esquemático das situações que representam. Na página 43, logo abaixo de uma imagem de Peri, vemos dois atores que ilustram com clareza este segundo caso. A página 51 e o último quadro da página 52 também oferecem exemplos dignos de nota.

Vale mencionar que Art Spiegelman – conhecido autor de Maus – experimentou muito com este tipo de variações no estilo de desenho ao longo de sua obra, chegando a discutir a ideia explicitamente em uma conversa organizada pelo The Comics Journal em 2009. Encontramos casos particularmente claros dessa estratégia na introdução do álbum Breakdowns: portrait of the artist as a young %@&*! e em In the shadow of no towers. Ainda assim, é admirável como Spacca se aproveita desse leque de estilos de uma forma mais sutil, sem romper bruscamente a identidade visual do livro. É possível que um trabalho cuidadoso com a arte-final e com as cores contribua para suavizar tais transições; afinal, estes são alguns dos elementos que Spiegelman usa para deliberadamente realçá-las em seus quadrinhos.

Ao mesmo tempo, o trabalho de pesquisa do ilustrador é exemplar, assim como em seus projetos anteriores. Para se ter ideia de o quão minucioso e fértil é o levantamento de referências deste autor, basta notar a figura no último quadro da página 82 que aponta para D. Pedro II e comenta “então, este é que é o imperador? Não se parece nada com reis!”. Este anônimo na multidão é muito significativo: trata-se de uma versão perfeitamente reconhecível do Zé-Povinho, um personagem-tipo criado pelo cartunista luso Rafael Bordalo Pinheiro para representar o povo português em suas charges de jornal do final do século XIX.

Bordalo Pinheiro é nome de destaque na história dos quadrinhos de Portugal. Ele chega a ser considerado por muitos o fundador da banda desenhada portuguesa – sendo que o primeiro álbum deste gênero seria, justamente, o retrato satírico que ele fez das viagens de D. Pedro II pela Europa em 1872. Além disso, seu Zé-Povinho terminou sendo adotado pela imprensa do país, vindo a se tornar um símbolo tradicional, amplamente conhecido até os dias de hoje. Em 2010, por exemplo, o jornal Gazeta das Caldas organizou um suplemento especial para comemorar os 135 anos do personagem, chamado Zé Povinho no País das Maravilhas.

Com isso em mente, fica claro que a escolha de Spacca por fazer referência a essa figura não tem nada de arbitrário ou de acidental. Inclusive, não se trata apenas de uma citação pontual: é visível que esse mesmo modelo serviu de inspiração para o desenho de outros cidadãos portugueses – como, por exemplo, aqueles no terceiro quadro da página 10. Em verdade, podemos dizer que tanto o personagem quanto seu criador são conhecidos por Spacca há alguns anos, já que o Zé-Povinho (junto com seus derivados) aparece repetidas vezes ao longo de D. João carioca, como nas páginas 20, 37, 67 e 85. Ou seja: precisando encontrar traços facilmente reconhecíveis para retratar portugueses, o cartunista paulistano não poderia ter escolhido fonte mais apropriada.

Além do conteúdo em quadrinhos propriamente dito, As barbas do imperador reúne uma série de anexos que reforçam seu valor didático: uma cronologia ilustrada abarcando os principais eventos do Segundo Império; galerias de fotos, pinturas e estudos do ilustrador; quatro páginas apresentando brevemente alguns dos principais autores mencionados durante o trabalho; e três artigos curtos sobre a escravidão no Brasil, a fotografia no final do século XIX e representações da Guerra do Paraguai em pinturas da época. Todo esse material, somado à bibliografia listada nas últimas páginas do álbum, serve como boa porta de entrada para várias discussões dignas de interesse.

Em uma linha, a dupla de autores realizou mais um livro digno de nota. É uma leitura agradável, acessível e bastante informativa.

dpedro_povo_na_rua
Arte de Spacca. Retirada do blog do autor, “As Barbas do Ilustrador”.

Para conhecer melhor a trajetória de Spacca e o trabalho por trás de As barbas do imperador, vale a pena consultar os seguintes links:

http://www.spacca.com.br/page5.aspx

http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/10321

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/02/17/interna_diversao_arte,413172/obra-sobre-dom-pedro-ii-ganha-nova-versao-com-ilustracoes-de-spacca.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/03/1419616-estudo-sobre-d-pedro-2-e-lancado-em-hq-de-lilia-moritz-schwarcz-e-spacca.shtml

http://asbarbasdoilustrador.blogspot.com.br/2012/03/as-barbas-do-imperador-que-livro-e-este.html

http://asbarbasdoilustrador.blogspot.com.br/search/label/detalhes

Além deles, copio links para duas fontes mencionadas mais acima. Nesta ordem: uma entrevista de Seth para o site Bookslut e uma conversa entre Art Spiegelman, Kevin Huizenga e Gary Groth organizada para a tricentésima edição de The Comics Journal (a fala de Spiegelman sobre a variação nos estilos de desenho está na página 4).

http://www.bookslut.com/features/2004_06_002650.php

http://classic.tcj.com/tcj-300/tcj-300-conversations-art-spiegelman-kevin-huizenga/

A esta altura, o trabalho de Spacca praticamente dispensa simples elogios e recomendações. Depois de roteirizar e ilustrar livros como Santô e os pais da aviação, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil, o célebre D. João carioca – a corte portuguesa chega ao Brasil (1808 – 1821) e Jubiabá (adaptação do romance homônimo de Jorge Amado), este autor paulistano já conquistou lugar de destaque no cenário dos quadrinhos nacionais. Quando um novo projeto com seu envolvimento chega às livrarias, é natural que ele mereça nossa atenção e respeito. As barbas do imperador foi lançado em 2014 pelo selo…

As Barbas do Imperador

Avaliação - 10

10

Excelente!

As barbas do imperador foi lançado em 2014 pelo selo de quadrinhos da Cia. das Letras, “Quadrinhos na Cia.”. Trata-se de uma adaptação do livro As barbas do imperador – D. Pedro II, um monarca nos trópicos, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Esta já havia colaborado com Spacca em D. João carioca e assina como coautora deste novo trabalho.

Sobre Igor Z. Cerqueira

Pessoa que escreve com inclinação pessoal para quadrinhos e cinema. Também toca gaita.

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