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Resenha | O Quinto Beatle

A história real de Astrid Kirchherr e Stuart Studcliffe é o tema do mais novo trabalho de Arne Bellstorf, escritor e desenhista de quadrinhos alemão. Trata-se de seu segundo livro publicado e de seu primeiro trabalho a chegar ao Brasil, tendo sido lançado pela editora 8Inverso ainda em 2012.VBeatle - capa

O enredo se passa em Hamburgo, durante os primeiros anos da década de 1960. Astrid é uma jovem fotógrafa que admira a cultura francesa de sua época, em particular Sartre e Jean Cocteau. Quando a encontramos pela primeira vez, ela acaba de terminar um relacionamento e parece experimentar um sentimento de perda, de vazio. Ainda assim, não demora muito para que outro romance cruze o seu caminho – e são as consequências desse novo encontro que formam a espinha dorsal de O Quinto Beatle.

Quem se interessa pela história do Rock n’ Roll ou dos Beatles em particular naturalmente tem motivos para dedicar atenção a este livro. Afinal, é uma chance de conhecer um período menos divulgado do grupo britânico, antes de ele adotar a identidade com a qual se tornou famoso e de ganhar espaço de destaque no mundo da música. Durante esta história, os Beatles ainda são um punhado de jovens que mal completaram seus vinte anos e tentam, de forma um tanto improvisada, seguir os passos de figuras como Chuck Berry e Elvis Presley. Ao mesmo tempo, os leitores de maneira geral encontram, nestas páginas, uma história tocante sobre a natureza frágil, efêmera, de experiências que nos são preciosas.

O desenho de Arne Bellstorf é, sem sombra de dúvida, o ponto alto da obra. Seus personagens são expressivos ao ponto de nos comoverem em situações bastante mundanas – é o caso, por exemplo, do quarto e do sexto quadro dá página 10, em que vemos Astrid acordar de madrugada e conferir as horas. As paisagens urbanas, por sua vez, oferecem algumas das imagens mais interessantes da história: as ruas, os prédios, as multidões, os jardins e o interior dos bares são tão críveis quanto expressivos, criando a sensação de, de fato, serem locais únicos, cada um com uma identidade muito própria.

Conscientemente ou não, o autor parece seguir uma estratégia que Scott McCloud descreve como “efeito máscara” em seus célebres Desvendando os quadrinhos e Desenhando quadrinhos. Enquanto os personagens são representados em um estilo mais econômico e estilizado, facilitando a expressão de seus sentimentos, os cenários e objetos têm um aspecto mais naturalista, que é mais rico em detalhes e respeita as proporções de suas contrapartes reais. Ao menos neste trabalho, o resultado é exemplar: tendemos a experimentar o universo emocional dos personagens sem que o ambiente à sua volta deixe de ser perfeitamente verossímil.

É interessante notar, também, a forma como Bellstorf trabalha com giz preto para imprimir sombras e criar diferentes texturas. Contrastadas com as linhas usadas para definir os contornos dos personagens e objetos, as marcas mais ou menos foscas dos traços em giz dão uma impressão vívida de movimento. É como se pudéssemos ver as sobras mudarem de posição durante cada quadro. As nuvens na primeira imagem da página 51 e as sombras na página 11 são bons exemplos desse efeito tão particular. Ao mesmo tempo, Bellstorf consegue criar texturas variadas usando este mesmo material: compare, por exemplo, os casacos de Astrid e Klaus com as jaquetas de John, Paul e Stuart.

Via de regra, as transições entre cenas em O Quinto Beatle são bastante marcadas e não passam despercebidas ao leitor. O autor aproveita com frequência os momentos em que precisamos virar uma página para saltar, de forma mais ou menos brusca, a um momento mais avançado na história, explorando em diálogos entre os personagens fatos que se desenrolaram sem serem, de fato, representados no papel. Em outras palavras, muitas elipses temporais são propositalmente súbitas, rompendo a impressão de que a narrativa seria uma sequência contínua, ininterrupta, de acontecimentos.

Em algumas ocasiões, uma estratégia como essa funciona muito bem, aumentando a tensão ao criar um sentimento de surpresa e desorientação que os próprios personagens experimentam. É o caso do trecho entre as páginas 185 e 186. Porém, em muitos outros casos, ela acaba tendo o efeito contrário, pois nos afasta demais do ponto de vista dos personagens principais. Quando vemos Astrid, Stuart e Klaus discutirem acontecimentos importantes que não presenciamos, tendemos a nos sentir como observadores distantes, e não como alguém que conhece, de fato, a situação dessas pessoas. Em dado momento, por exemplo, chegamos ao ponto de ver um personagem central ser libertado da cadeia antes de sequer sabermos que ele havia sido preso. Ou seja: não vimos esse conflito específico se desenrolar, apenas sua resolução. Por conta de escolhas como essas, apesar de Astrid e Stuart passarem por momentos de grande felicidade e de profundo pesar, longos trechos do livro correm o risco de assumirem um tom frio e até anedótico.

As cenas finais são as mais intensas de toda a história e encerram o trabalho da melhor forma possível. Depois do impacto da última linha de diálogo, o leitor é deixado para lidar sozinho com o peso dos acontecimentos. Neste trecho, Bellstorf usa com grande competência enquadramentos um tanto erráticos – que deixam fora de nosso campo de visão os elementos mais importantes de cada imagem – para reforçar a tensão de cada momento. A estratégia se mostra ainda mais interessante se levarmos em conta que estamos observando essas cenas pelos olhos de uma fotógrafa profissional. É uma sequência como essa que mostra como o autor possui um grande conhecimento do meio em que trabalha, deixando o leitor ansioso para encontrar novas produções suas.

Enquanto esperamos, você pode conhecer um pouco mais da trajetória deste autor nos seguintes links:

http://www.goethe.de/kue/lit/prj/com/cfc/cfb/ptindex.htm

http://www.goethe.de/kue/lit/prj/com/cfc/cfb/int/pt6612762.htm

http://www.youtube.com/watch?v=dyLLM8DuOkA

http://www.rollingstone.com/culture/pictures/arne-bellstorf-illustrates-the-young-beatles-in-babys-in-black-20120515

Sobre Igor Z. Cerqueira

Pessoa que escreve com inclinação pessoal para quadrinhos e cinema. Também toca gaita.

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