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Uma análise sobre traduções

Após uma conversa sobre a liberdade interpretativa das traduções realizadas por vários grupos de scan e também entre editoras que lançam e relançam o mesmo material surgiu esta análise de um grande amigo meu:

UMA ANÁLISE SOBRE TRADUÇÕES

por Roberto Holanda

Uma tradução não é uma arte exata como se pode pensar.  Aliás, é uma arte. Todo idioma possui suas peculiaridades, e muitas vezes a tradução de um termo torna-a mais poética, melhor adaptado ao idioma para o qual está sendo traduzido, ou destruir todo o contexto original.

Vários blogs de traduções geram as mais diferentes opiniões, aonde formandos em Letras se defrontam com “curiosos” que passaram um mês no exterior, ou pessoas que aprenderam “na prática”, enquanto mal conhecem regras gramaticais de português.  Bem, o objetivo deste texto não é criticar as qualidades, e sim apresentar que muitas vezes “status” ou volume de freqüência de visitas não garantem uma qualidade de tradução.

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Para exemplificar o que tenho visto por aí, uso a página 3 da revista “Kill Your Boyfriend”, edição especial escrita por Grant Morrison e desenhada por Philip Bond. Abaixo, apresento a página original, lançada pela DC Vertigo em 1995 (republicada em 1998. Aliás, este scan é do relançamento).

Abaixo, vocês veem a versão traduzida para o português – a primeira que saiu no Brasil, pela editora Tudo em Quadrinhos (não consegui identificar o ano). Aliás, o título totalmente diferente da edição original – “Como Matar Seu Namorado”.

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O título é matador, considero um verdadeiro assassinato e uma falta de respeito com uma obra, mas a tradução é o que poderíamos considerar “o esperado”. Não se perde em “regionalismos”, e mesmo arriscando soar um pouco “deslocado” com o modo que as pessoas brasileiras falam, ele é muito fiel ao original. O texto flui, respeita nossa gramática – já tive discussões com quadrinistas sobre até quanto são válidas as gírias nas histórias; quando um garoto que se apresenta na história como quase analfabeto, devemos mostrar suas falas assim? “ae, malucô, us cigarru são meus”,  “ae, maluco, os cigarros são meus” ou “’ae’ maluco, ‘us cigarro’ são meus ? (a que mais me aconselharam foi a última opção, mas isso não deve tornar-se regra).

Contudo, a revista está para ser relançada pela editora Panini, com diferenças gritantes na produção. O título respeitou o original – “Mate Seu Namorado” – sem preocupações se isso vai influenciar alguém ou não, sei lá se isso foi justificativa para o título da versão da Tudo em Quadrinhos.

Em muitos momentos a versão da Panini, que até o momento só vi o “preview” na revista Vertigo nº 36, talvez apresente muitas outras  – ou nenhuma – diferença nas páginas seguintes.

Observe o terceiro quadrinho. Aproximando-se ao máximo do original, a tradução que considero a mais recomendada seria “imagino que não teria fogo” ou “imagino que não teria um isqueiro”; veja o que foi feito nas duas versões.  No terceiro quadrinho, a garota diz: “viu aquilo?”, enquanto a Panini “atualiza” o termo, parecendo mais uma colegial de nossos tempos: “cê viu?” no quarto quadrinho, a garota fala como uma colegial de hoje em dia na versão da Tudo em Quadrinhos, e mais próximo do original na da Panini.

Erros? Não é o caso. São mais questões estilísticas do que mesmo “erros”. A tradução da Tudo em Quadrinhos tenta ser mais fiel ao original, mas arriscando tornar-se “fria”. A da Panini tem diálogos mais “populares”, mas em muitos momentos foge demais do original.

Vale citar que estas traduções não são de blogs, e sim de editoras que possuem direitos autorais para publicação, revistas que podem ter sido enviadas para aprovação dos editores originais.  Este é praticamente o motivo deste meu breve texto; não se espante quando ler duas versões com diferenças gritantes em blogs de tradução; a margem de liberdade numa tradução, seja em prol de um texto mais poético, seja em busca de um linguajar mais popular, seja em busca de permanecer o mais fiel possível ao original. Claro, em blogs existem erros, nem todos possuem igual conhecimento gramatical – são feitos por fãs, muitas vezes não bons conhecedores da gramática do idioma traduzido – mas quem possuir um real conhecimento gramatical pode buscar qual blog está se esforçando para ser fiel, e qual está sendo mais estilístico.

Muitos blogs buscam a melhor qualidade para seus visitantes, mas não existe uma tradução “definitiva”, para melhor dizer.  Idiomas não devem ser barreiras, e sim formas de representação de uma ideia.

Como Matar Seu Namorado

Sobre Lenilton

Pai do Dudu e fundador do blog Gibiscuits.